Olympus demite Woodford, o homem que sabia o que fazer, mas não como

Elogiado como estrategista, Woodford não soube executar seus próprios planos

São Paulo – Em apenas seis meses, Michael Woodford viu sua carreira virar do avesso na Olympus, uma das maiores fabricantes de câmeras e equipamentos de imagem do mundo. Nomeado presidente da companhia em abril, sob rasgados elogios, Woodford acumulava há duas semanas o cargo de executivo-chefe – do qual foi defenestrado sob duras críticas.

Os motivos da ascensão de Woodford na Olympus são tão esclarecedores da situação da empresa – e do executivo -, quanto o que o levou a cair em tempo recorde. Por isso, o melhor é contar a história em duas partes.

Lua-de-mel

A promoção de Woodford a presidente mundial da Olympus, em abril, parecia coroar uma carreira de 30 anos na companhia, onde o executivo começou como um modesto vendedor de equipamentos médicos.

Woodford havia construído sua carreira na Olympus liderando aquisições e consolidações por toda a Europa e Estados Unidos. Mais do que isso, tornou-se conhecido por cortar custos e enxugar estruturas.

Era (e ainda é) algo mais do que necessário para a Olympus. Depois de um pico de faturamento em 2008, quando alcançou 11,3 bilhões de ienes, a companhia viu suas vendas caírem e andarem de lado nos anos seguintes. Seu lucro operacional também está em queda, assim como seu lucro líquido.

Woodford parecia o homem ideal para, ao mesmo tempo, levar a Olympus a uma nova fase de crescimento, ao mesmo tempo em que cortava custos e recuperava margens. Primeiro não-japonês a se tornar presidente da companhia, o executivo mereceu todas as deferências. “Este é um sinal de que daremos um passo real para a globalização”, afirmou o presidente do conselho de administração, Tsuyoshi Kikukawa, na época.



Como presidente, sua função era sobretudo estratégica. Cabia a Woodford traçar as linhas que a Olympus seguiria nos próximos anos – e, nisso, agradou a todos. E fez o básico: propôs um forte corte de custos, buscou inovações para o mercado de imagens digitais, congelou contratações e apostou em ganhar mercado na Europa e nos Estados Unidos.

Na prática

Ser estrategista é uma coisa. Outra é por a mão na massa. E foi aí, ao assumir também o cargo de executivo-chefe há duas semanas, que a lua-de-mel acabou. Na hora de executar suas ideias brilhantes, Woodford causou conflitos de gestão dentro da Olympus e, por isso, foi desligado do cargo por decisão unânime do conselho.

Segundo informações publicadas pela imprensa internacional, o executivo, em duas semanas no comando, tentou mudar a cultura organizacional que Olympus construiu em seus 92 anos de operação. Woodford é acusado de desrespeitar uma premissa muito valorizada no Japão: a hierarquia.

Em entrevista coletiva com a imprensa, Tsuyoshi Kikukawa, presidente da companhia, afirmou que muitas vezes Woodford passava por cima dos demais chefes e falava diretamente com  seus funcionários. Além disso, ele também não colocava em prática as ordens vindas diretamente do conselho de administração da Olympus.

“Ele ignorou nossa estrutura organizacional e tomou decisões da sua cabeça”, disse Kikukawa à imprensa.

Mas há quem o defenda. Um post irônico publicado em um blog japonês diz que o grande erro do executivo foi não compreender que a eficiência, modernização, retorno para o acionista e mudanças não são a maneira japonesa de fazer negócios.  “Vamos substituí-lo por um clone de um ex-CEO japonês para que possamos voltar aos velhos tempos “, sugeriu o post.