OGX revive longe de Eike

Letícia Toledo 

Em seu auge, em 2010, o empresário Eike Batista disse que sua petroleira OGX tinha 1 trilhão de dólares em petróleo. A declaração, já ficou claro há muito tempo, fazia parte do fantasioso mundo de Eike. Desde então, foram os poços secos da OGX que precipitaram o esfacelamento do império X, o que fez da petroleira o símbolo maior da derrocada do bilionário. Desde 2013, a companhia luta entre a vida e a morte num processo de recuperação judicial. Pois agora, com Eike em prisão domiciliar, a OGX está retomando a vida – não aquela vida de sonhos impossíveis, mas o dia-a-dia de uma promissora petroleira.

Na sexta-feira a OGX informou que, enfim, entrou com pedido de encerramento do processo de recuperação judicial por ter cumprido com todas as obrigações acertadas com os credores. É a primeira empresa do grupo X a sair do purgatório. A mineradora MMX, da qual Eike ainda é controlador com 57% do capital, entrou em recuperação judicial no ano passado. A construtora naval OSX também está em recuperação judicial e tem a situação mais difícil, segundo analistas, porque depende de uma retomada do setor para voltar a oferecer serviços.

O pedido para sair da recuperação judicial estava previsto em um acordo firmado em janeiro deste ano — época em que a companhia beirava a falência, com dívidas impagáveis. Agora, a empresa voltou a respirar sem ajuda de aparelhos. Mas a pergunta sobre o que será de seu futuro continua em aberto.

A primeira constatação é que a OGX que sobrou é muito, mas muito, menor do que a sonhada por Eike. Hoje, a companhia produz cerca de 8.000 barris de petróleo por dia. É cerca de 1% do plano original de Eike, de produzir 800.000 barris por dia. Em 2010, o valor de mercado da OGX chegou a 75 bilhões de reais. Hoje, mesmo depois de ter valorizado 55% na sexta-feira e 5% na segunda, seu valor está em 184 milhões de reais. “A OGX viveu um período de megalomania junto com outras empresas do setor. Agora, está na realidade. Ela jamais chegará ao tamanho que já foi, mas pode se manter viável”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

A gama de desafios a enfrentar é enorme. Atualmente a única fonte de geração de caixa da OGX é o campo de Tubarão Martelo, localizado na porção sul da Bacia de Campos. O problema é que o campo precisa de investimentos estimados em 75 milhões de dólares para continuar sua atividade, que corre o risco de ser paralisada em maio do ano que vem. O campo tem capacidade para 228 milhões de barris de petrélo – ou mais de 80 anos de operação no ritmo atual.

Para conseguir fazer esses investimentos, a saída mais provável é a venda do que é considerado o maior ativo da empresa hoje: a participação de 40% no Campo de Atlanta, localizado na Bacia de Santos. Segundo a Queiroz Galvão Exploração e Produção, que tem 30% do campo, o volume total de óleo estimado no local é de 2,1 bilhões de barris. O início da produção é esperado para 2018 e, na primeira fase, deve gerar 20.000 barris por dia. A Barra Energia do Brasil Petróleo e Gás detém os outros 30% do Campo de Atlanta.

A OGX não tem conseguido honrar os aportes de capital para desenvolvimento do campo e abriu um processo para vender pelo menos parte de sua fatia no projeto. Atualmente a companhia tem dívidas de 92,4 milhões de reais com as empresas do consórcio e calcula que precisará investir mais 50,8 milhões de dólares (cerca de 167 milhões de reais) somente em 2017. Os valores são maiores do que a receita líquida da OGX em 2016, que totalizou 198,7 milhões de reais. A geração de caixa ficou negativa em 113,4 milhões de reais nesse período.

Em reportagem publicada no jornal Valor Econômico nesta segunda-feira o presidente da companhia, Paulo Narcélio, disse que o objetivo é manter entre 10% e 20% da concessão de Atlanta. Se não conseguir quitar as dívidas, a Agência Nacional de Petróleo pode intervir no consórcio e a OGX pode ter sua participação diluída.

Além de vender sua participação de Atlanta, Narcélio afirmou que quer recorrer a um sócio estratégico ou ao mercado de capitais ainda este ano para poder fazer novos investimentos. Entre os planos também está o de lançar uma nova marca, para tirar a velha imagem da petroleira no mercado. Ou seja: tchau X. Mas atrair um sócio vai ser mais difícil do que trocar de marca. Investidores internacionais continuam ressabiados com o mercado de petróleo brasileiro depois das bilionárias perdas dos últimos anos, principalmente com o grupo X.

A trajetória

Boa parte do mérito da reestruturação da companhia é de seu atual presidente. Narcélio, ex-diretor financeiro da Brasil Telecom na época da fusão com a Telemar, assumiu a OGX no início de 2014 para comandar seu plano de recuperação judicial. Narcélio tinha nas mãos a maior recuperação judicial da América Latina — 13,8 bilhões de reais. Hoje, a maior recuperação é a da companhia telefônica Oi, com 65 bilhões de reais em dívidas.

Na época, a companhia tinha reservas razoáveis de petróleo, mas precisava de dinheiro para furar poços e extrair a commodity. Os únicos interessados em colocar algum dinheiro na OGX naquela época eram seus credores — o que foi o primeiro trabalho bem sucedido de Narcélio.

O plano de recuperação da companhia foi apresentado em junho de 2014 e envolvia uma redução drástica do tamanho da empresa. Narcélio cortou custos e demitiu 70% dos funcionários. O problema era que o plano de recuperação previa o barril de petróleo em 100 dólares. No fim de 2015 o petróleo iniciou uma derrocada chegando aos 27 dólares o barril, no início de 2016. Com isso, a OGX ficou novamente sem dinheiro, dando o calote nos fornecedores e ficando sem um tostão para extrair. O plano de recuperação ficou paralisado durante dois anos. Em janeiro deste ano, à beira da falência, a companhia conseguiu fechar um novo acordo com credores.

Pelos novos termos, os credores da petroleira converteram 2,4 bilhões de reais de dívidas em capital da empresa. O acordo quitou dívidas antigas e deu estabilidade à empresa para continuar a produzir petróleo no campo de Tubarão, que chegou a ter as atividades paralisadas no início do ano passado. Tudo isso sem Eike. De acordo com um acordo de acionistas firmado em janeiro, a participação do empresário, que já não era majoritário desde 2013, caiu para 0,64%. Sete anos atrás, as ações de Eike na OGX chegaram a valer 46 bilhões de reais. Hoje, sua fatia na petroleira vale exatos 1,17 milhão de reais.

Enquanto a empresa renasce, Eike barganha com a Justiça para pagar um fiança de 53 milhões de reais e, assim, evitar voltar para Bangu.