O verde está maduro

O negócio de alimentos orgânicos se profissionaliza e ganha força com a investida de grandes empresas

O agricultor João Dias cresceu entre plantações de hortaliças. Dono de um sítio de 4 alqueires herdado do pai no município de Ibiúna, começou a perder dinheiro por causa do baixo preço dos produtos no mercado, em meados dos anos 90. Foi nessa época, durante os sermões de um padre da região, que ouviu falar de agricultura orgânica, o cultivo sem defensivos nem fertilizantes químicos. Decidiu abandonar o uso de agrotóxicos em 1995. Hoje, aos 48 anos, Dias tem a cartilha orgânica na ponta da língua. “Temos de preservar a saúde”, afirma. “Reflorestamos as margens dos rios e fazemos o controle biológico das pragas.” Em suas terras, cultiva tomate, alface, brócolis e couve — que, segundo ele, podem ser consumidos na própria lavoura sem medo de intoxicação. Mas não pense que Dias aderiu à agricultura orgânica por idealismo, como fizeram os hippies nos anos 70. “Temos preocupação com a saúde, sim, mas precisamos vender bem”, diz. “E nosso produto hoje tem mercado.”

Dias é um dos 135 pequenos produtores associados à Horta & Arte, que fornece cerca de 80% das frutas, verduras e legumes orgânicos vendidos nos hipermercados da cidade de São Paulo. A associação foi fundada em 1995 por um grupo de agrônomos e sociólogos que deixaram a cidade para viver no campo. Para se manter, eles começaram a vender hortaliças na feira de produtos orgânicos do Parque da Água Branca, na zona oeste da capital. Defendiam uma produção “socialmente justa e ecologicamente correta”. À medida que as vendas cresciam, o que era uma simples filosofia de vida virava um negócio sério. Com a adesão de pequenos agricultores da região de São Roque, município a 50 quilômetros de São Paulo, a Horta & Arte tornou-se uma referência no setor de orgânicos. Planeja a produção com um ano de antecedência, distribui metas aos associados e consegue manter seus produtos a preços estáveis o ano inteiro. “Entramos no setor de orgânicos por uma concepção de vida, mas percebemos que deveria ser algo economicamente viável”, afirma o agrônomo Filipe Mesquita, diretor comercial da associação. “É um negócio consciente.” Deu certo? “Somos o terceiro maior contribuinte de impostos em São Roque”, diz Mesquita.

Os associados da Horta & Arte plantam hortaliças em 900 hectares. Dali saem diariamente 20 toneladas de alimentos, que são preparados num galpão de 2 000 metros quadrados em São Roque. Além de verduras em embalagem tradicional, a Horta & Arte vende saladas prontas e legumes acondicionados em bandejas lacradas. Mantém um laboratório de análises microbiológicas para fazer o controle de qualidade. Quando detecta algum problema num dos sítios, põe sua equipe de 12 agrônomos em ação. Investiu 3 milhões de reais em infra-estrutura, logística e pesquisa. “Quando começamos a vender na Ceagesp, diziam que nosso produto era feio e caro. Hoje, não devemos nada aos europeus”, afirma Mesquita.

Houve uma época em que, para comer hortaliças sem agrotóxicos, a única opção era esperar os verdureiros que percorriam as casas de porta em porta. Hoje, graças à atuação de empresas como a Horta & Arte, não é difícil encontrar produtos orgânicos nos supermercados de São Paulo, principalmente nos bairros de classe média e alta. As grandes redes varejistas começaram a perceber o potencial desse mercado há cerca de cinco anos. Atualmente existem cerca de 150 pontos-de-venda de alimentos orgânicos na capital. Como a Horta & Arte conseguiu entrar em redes de varejo como Carrefour, Sé e Wal-Mart? Segundo Mesquita, a associação procurou os supermercados e propôs: “Coloquem nosso produto na gôndola. Se vender, vocês pagam. Se não vender, não pagam”. Além disso, realizou ações de marketing nos pontos-de-venda. “Fizemos folhetos para orientar os consumidores nas gôndolas”, diz Mesquita.

O Pão de Açúcar foi pioneiro na venda de orgânicos no varejo. A rede não divulga números, mas afirma que a procura por esses produtos é crescente. “A demanda hoje é maior do que a oferta”, diz Leonardo Myao, diretor comercial de perecíveis do Pão de Açúcar. A rede só vende produtos orgânicos com certificação. “No início o orgânico era muito caro”, afirma Myao. “Hoje, em algumas promoções, pode custar menos que seus similares convencionais.”

Mais que verduras

A linha de produtos verdes não se restringe às hortaliças. As grandes redes varejistas oferecem desde açúcar e café até pizza e ovos orgânicos. Para um alimento orgânico obter o selo de certificação emitido por entidades credenciadas, é preciso que toda a cadeia produtiva seja fiscalizada. Técnicos dos órgãos certificadores fazem visitas periódicas para verificar se não há uso de fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, reguladores de crescimento ou aditivos. A água e o solo, tanto da propriedade certificada como das imediações, devem estar dentro das normas. “É preciso também que o produtor siga a legislação ambiental e trabalhista”, diz Jorge Vailati, gerente de certificação do Instituto Biodinâmico (IBD), de Botucatu, único órgão certificador brasileiro cujo selo habilita a exportação do produto para todo o mundo.

“O selo emitido pelas certificadoras é uma garantia para o consumidor que busca qualidade de vida”, afirma Yara Carvalho, presidente da Associação de Agricultura Orgânica (AAO), outra entidade que realiza a certificação. Atualmente, há 12 entidades certificadoras no Brasil.

A Grande São Paulo representa metade do consumo nacional de produtos orgânicos, o que significa negócios da ordem de 10 milhões de dólares por ano. É ainda quase nada em relação ao potencial do mercado. A exportação de produtos orgânicos gerou 130 milhões de dólares para o Brasil no ano passado. Além de ser o maior pólo consumidor de orgânicos do país, São Paulo é um importante centro produtor. O Cinturão Verde, região compreendida por cidades como São Roque, Ibiúna, Cotia e Vargem Grande, é responsável por 30% da produção de hortaliças orgânicas do Brasil. Nessa região, o número de produtores certificados pelo IBD quintuplicou nos últimos três anos — são hoje 173.

A região atraiu também grandes indústrias de beneficiamento de café e sucos orgânicos. “Uma das evidências do crescimento do setor é a entrada das multinacionais”, diz a professora Elizabeth Farina, coordenadora-adjunta do Programa de Estudos de Agrobusiness da Universidade de São Paulo (Pensa-USP). A holandesa Wessanen foi uma das gigantes que se instalaram na Grande São Paulo nos últimos anos. O grupo, que faturou 4 bilhões de euros no mundo com produtos orgânicos em 2000, lidera o mercado em países como Estados Unidos e Alemanha. Há dois anos, investiu 500 000 reais para adaptar uma antiga fábrica de sucos em Mogi das Cruzes, hoje com capacidade para produzir 30 milhões de litros por ano. Além dos sucos de laranja e maracujá da marca Maraú, a empresa produz mel orgânico. “Investimos por razões estratégicas”, diz David Kleerkopher, presidente da divisão de sucos orgânicos da Wessanen no Brasil. “O mercado interno ainda é tímido, mas nos próximos anos terá um crescimento superior à média do setor de alimentos.”

No segmento de café orgânico, o destaque na região é a Companhia Mogiana de Café. Com experiência de 30 anos no ramo, a família Attala resolveu investir no nicho de orgânicos em 1999, motivada pelo crescimento do mercado externo. Acrescentou à sua linha de produtos o café solúvel orgânico. Dos 15 milhões de dólares que a Mogiana fatura por ano com orgânicos, a maior parte vem das exportações. “O consumo ainda se restringe à elite”, diz Carolina Attala, diretora comercial da Mogiana. A empresa deve lançar ainda neste ano um achocolatado orgânico.

Doce liderança

Outra empresa que está apostando no mercado de orgânicos é a Native, da Usina São Francisco, em Sertãozinho, no interior de São Paulo. Pioneira na produção em escala industrial do açúcar orgânico no Brasil, a Native investiu 6 milhões de dólares no desenvolvimento de seu produto. Tem hoje quase 40% do mercado mundial nesse segmento. Colhe a cada safra 900 mil toneladas de cana, que se transformam em 70 mil toneladas de açúcar. Apesar de exportar o açúcar orgânico desde 1997 — vende para 26 países –, a usina só começou a explorar o mercado interno há dois anos. Por enquanto, apenas 10% da produção é vendida no Brasil.

O preço é um obstáculo para a massificação do consumo. O açúcar Native é vendido nos supermercados por quase 3 reais o quilo, o triplo do preço do açúcar comum. “Não vendemos só açúcar, vendemos um conceito”, afirma Hélio Silva, diretor comercial da Native. “O consumidor de orgânico é uma pessoa preocupada com o planeta.” A Native também produz café e se prepara para lançar uma linha de matinais orgânicos. “Vamos oferecer em produtos orgânicos tudo o que uma pessoa imaginar numa mesa de café da manh”, diz Hélio.