O salão do tudo ou nada

Michele Loureiro 

O slogan do salão do automóvel de São Paulo, o maior da América Latina, pode ser encarado como uma leitura catastrófica da realidade, ou como um sonho dourado: ‘Nada será como antes’. O salão abre as portas ao público na quarta-feira e tem a árdua missão de reanimar a indústria automotiva. São esperadas cerca de 800.000 pessoas entre os dias 10 e 20 de novembro. Antonio Megale, presidente da Anfavea, associação que reúne as montadoras, evidentemente, está no time dos otimistas. “Este será o melhor Salão do Automóvel da história”, diz.

O espírito é de passar uma borracha nos últimos (muitos) meses conturbados e olhar para frente. De janeiro a outubro, a venda de automóveis e comerciais leves somou 1,6 milhão de unidades, uma queda de 22% ante o mesmo período de 2015. Em 2015, a queda foi de 27%.

Até mesmo o lugar do evento será diferente neste ano. Depois de ficar 46 anos no Anhembi, desta vez o salão estreia no São Paulo Expo, espaço na Zona Sul da capital paulista, e terá 30 montadoras espalhadas em 90.000 metros quadrados – espaço 35% maior do que na última edição. Até mesmo as chinesas, que apostaram alto no Brasil e perderam espaço, tem presença confirmada mesmo que de forma mais tímida e com estandes menores. Os ingressos estão à venda desde maio e vão de 40 reais a 150 reais, para quem quer uma camiseta personalizada e acesso preferencial. O estacionamento consome outros 40 reais.

Se os sonhos são altos, as ambições são mais pé-no-chão. A expectativa das montadoras é que o evento estimule as vendas nos últimos dois meses desse ano, como aconteceu em ano anteriores. As vendas aumentaram 15,7% no mês seguinte ao evento em 2012 e 26% no mês subsequente ao salão de 2014. É bem verdade que sazonalmente o último trimestre apresenta vendas melhores, por conta das datas festivas e do pagamento do 13º salário. Mas uma força extra não seria nada mal. “O salão pode ser a chance de amenizar os resultados ruins de 2016 e terminar o ano em uma curva de ascensão”, diz David Wong, diretor da consultoria A.T. Kearney.

Segundo ele, o evento apostará em um clima festivo para atrair os possíveis compradores. “As montadoras vão aproveitar o salão para tentar elevar a confiança e o otimismo dos consumidores, mas é fato que não haverá um volume grande lançamentos”, afirma. Para ele, o evento serve de termômetro para a indústria nos dois anos subsequentes. “A crise econômica abalou o setor e ao que tudo indica veremos mais novas versões e reestilizações do que novos modelos na prática. Mesmo assim, estamos falando do quarto maior salão do mundo e é impossível negar sua importância”, diz.

Os utilitários esportivos devem dominar a cena no evento. A Hyundai, por exemplo, faz mistério sobre o SUV compacto Hyundai Creta. O modelo só será apresentado durante o salão e o que se sabe é que terá duas opções de motores: 1.6 e 2.0. Além disso, a Renault vai mostrar a versão nacional do Captur (com a inicial K, na Rússia), feita sobre a mesma base do Duster. A Kia fará a estreia do seu primeiro SUV, o Niro, na América Latina e a Toyota parte para a briga com um tira-gosto, o SUV CH-R, que por enquanto não tem previsão para chegar ao Brasil. Os modelos chegam para disputar em um time bem-sucedido composto por Honda HR-V, Jeep Renegade e Ford EcoSport.

“O segmento de utilitários é o que mais cresce no Brasil e tira o foco das montadoras em sedans, que estão em cada, e carros compactos, que tem menor valor agregado”, diz Wong. Para se ter uma ideia, no acumulado do ano, foram emplacados 230 mil sedans e 246 mil utilitários. A participação dos sedans caiu de 10,2% para 8,7% nos últimos doze meses, enquanto os SUVs subiram de 18% para 20,2% do mercado no período.

Para o presidente da Anfavea, este salão representa o começo da chegada da onda verde ao Brasil, tema amplamente divulgado durante o Salão de Paris, realizado em outubro. “O público terá a oportunidade de conhecer de perto os veículos da geração Inovar-Auto, resultado de grande investimento que as montadoras realizaram para aumentar a eficiência energética”, diz Megale. São veículos com praticamente a mesma cara, mas com motores mais eficientes, como os de três cilindros vistos em modelos com o Volkswagen up!.

Além de produtos mais econômicos e sustentáveis, os carros com combustíveis alternativos também terão destaque. Apesar de não haver regulamentações definidas para a utilização dos veículos por aqui, as montadoras começam a ampliar suas apostas. Até mesmo a Tesla desembarca no Brasil e mostrará alguns modelos no salão. Quem for ao evento poderá ver o Model S, carro sem motor que pode ser equipado com diversas potências de bateria.

Além dos híbridos já bem conhecidos dos brasileiros, como Toyota Prius ou Ford Fusion Hybrid, outros veículos também chegam pela primeira vez em solo nacional – caso dos ainda conceitos Volkswagen Golf GTE SportA e Peugeot Fractal. Os brasileiros também conhecerão o Bolt, carro elétrico da General Motors, que pode percorrer cerca de 380 quilômetros com apenas uma carga. “O papel do Bolt no Salão de São Paulo é o de mostrar ao brasileiro a liderança tecnológica da marca Chevrolet na eletrificação de veículos”, diz Marcos Munhoz, vice-presidente da GM do Brasil. Mas o que importa, mesmo, é voltar a vender como antes.