O que inspira Fabio Coelho à frente do Google

Presidente do Google Brasil diz que, para lidar com o poder, usa como referência o clássico "A revolução dos bichos", de George Orwell. Veja o que mais o inspira

São Paulo – Fabio Coelho, presidente do Google Brasil é assumidamente viciado em seriados. Toda semana, junto da esposa, ele assiste a pelo menos três: Modern Family, Homeland e The Good Wife.  O tempo que usa para ver as séries, segundo ele,  significa investimento em si mesmo. “Trato de valorizar o que é importante para minha família e o que é importante para mim. E importante para mim é ter tempo para renovação, reflexão. Consigo fazer isso no fim de semana.  Cada capítulo tem de 20 a 30 minutos, então gastamos mais ou menos uma hora e meia”, conta. 

Além dos seriados, Fabio aprecia narrativas com contexo histórico. Atualmente, ele está lendo 1889″, de Laurentino Gomes, um livro que conta a história da proclamação da República do Brasil. A obra é a última de uma trilogia composta também pelos títulos “1808”  – sobre como a corte portuguesa fugiu para o Brasil e se instalou por aqui – e “1822”  sobre como, contrariando diversos obstáculos, o Brasil se tornou independente de Portugal. Os dois livros já fazem parte do repertório de Fabio.

“Para você trabalhar bem, é preciso entender o contexto em que está inserido. E entender o contexto é coompreender as pessoas e suas motivações. O motivo porque o brasileiro é brasileiro começa lá atrás. Leio para aprender a lidar com as instituições no Brasil”, diz. 

Veja o que mais é referência para Fabio Coelho: 

Líder: Ike Harris, chairman da Cigna

Presidente do Conselho de Administração da seguradora Cigna, Ike Harris é também ex-jogador de futebol americano, considerado um ídolo nos Estados Unidos. Negro e de uma família pobre do estado do Arkansas, Harris chegou à universidade devido a uma bolsa de estudos. Ele tornou-se jogador profissional e foi destaque no New Orleans Saints, time em que jogou por um longo tempo.

Com cerca de 30 anos, Harris decidiu se aposentar para estudar finanças. Assim começou a sua carreira no mundo corporativo, passando por cargos como o de presidente da BellSouth Enterprises e chegando a chairman da Cigna. Harris foi chefe de Fabio quando o brasileiro presidiu a unidade de negócio digital da AT&T, nos Estados Unidos. 

“Entendo que temos líderes fantásticos que ajudaram a criar um mundo melhor, como Mandela, Gandhi, Dr. King e, no mundo dos negócios, cabeças privilegiadas como Larry Page, Bill Gates e Richard Branson. Porém, gostaria de destacar alguém que me marcou profundamente pela sua trajetória e estilo, que foi Ike Harris.

Ele é uma figura interessantíssima. Ike conseguiu sair de uma cidade muito pobre do Arkansas e ganhar uma bolsa para ser atleta universitário. Com 20 anos ele se casou com uma americana branca, em uma época em que esses casamentos eram ‘proibidos’. O respeito que eu tenho por esse cara é enorme. Ele não só teve sucesso como atleta, como venceu todos os preconceitos corporativos chegando a chairman de uma empresa nos Estados Unidos. 

Ike se dizia um sujeito normal, mas com uma determinação extraordinária. Um dos conhecimentos que ele nos passou é: ‘você deve aparecer para treinar cedo e treinar, treinar e treinar, com determinação e persitência’. Ele dizia que o verdadeiro profissional é aquele que faz o seu trabalho bem feito mesmo quando não está afim de fazer. Para ele, isso é que é profissionalismo. 

Cada executivo nos ensina coisas que tentamos adotar e outras que aprendemos para não fazer igual. Esse é um sujeito que me inspirou muita reflexão sobre humildade –  porque ele falava sempre baixinho – , respeito às pessoas e, especialmente, sobre como contornar obstáculos. Ele conseguiu prosperar  em um mundo de adversidades, apresentando soluções e fazendo ajustes o tempo todo, seja no trabalho, no esporte ou no ambiente social. 

Livro: A revolução dos bichos, de George Orwell

(Reprodução/Companhia das Letras)

Publicado em 1945, o clássico de George Orwell é uma sátira à ditadura de Stalin na União Soviética. Na obra, de título original “Animal Farm”, animais que moram em um granja se cansam da dominação humana e começam uma revolução, liderada pelos porcos. 

“O livro é fantástico! Na cena em que a ovelha vê os porquinhos (que começaram a revolta contra os humanos) andando de pé, você começa  a ver que as classes que chegam ao poder muitas vezes se comportam exatamente como as outras classes. Eu recomendo muito esse livro porque ele faz uma reflexão sobre como o poder pode transformar as pessoas.

Você pode pensar isso do ponto de vista político ou de uma maneira mais ampla, que é o poder em geral, nas relações interpessoais, nas organizações. Eu tenho isso muito claro, para não virar um porquinho que fica de pé. Apesar de ser de 1945, a história ainda é fresca. Funciona independente da época, é impressionante”. 

Filme: “Estada para a Glória”, dirigido por James Gartner

(Reprodução/Disney)

De título original “Glory Road”, o filme é baseado na história real da equipe de basquete universitário do Texas Western College, a primeira a ter somente negros como titulares. Ao deixar de se preocupar com a cor da pele e levando em conta apenas o talento dos jogadores, o técnico Don Hanskins, que é branco, consagra o time campeão da NCAA (a liga universitária) de 1966, nos Estados Unidos. 

“O filme é um belíssimo exemplo de superação e luta contra o preconceito. Além disso, ele promove uma reflexão para o mundo corporativo: às vezes você tem que alterar o modelo e as regras estabelecidas, romper paradigmas para conseguir um resultado muito melhor”, diz Coelho.

Além desse, outro filme que trata da superação de problemas marcou a memória do executivo. É o longa “Filhos do Paraíso” (Children of Heaven), primeira produção iraniana a concorrer ao Oscar. 

A obra relata as artimanhas de um menino que perde o único par de sapatos da irmã quando vai levá-lo para o conserto. Para evitar a bronca dos pais e possibilitar que a garota continue a frequentar a escola, ele passa a revezar o seu próprio calçado com a irmã. 

“É uma história que fala da engenhosidade de duas crianças para poderem sobreviver, de como elas usam a criativade. E é também um filme que provoca uma profunda reflexão sobre a sociedade de consumo, sobre como vivemos em um mundo tão consumista sabendo que, ao lado, há gente com tanta necessidade básica não compreendida”.