O povo fala

Mais do que 15 minutos de fama, dois canais de televisão voluntária oferecem a seus colaboradores uma lição de cidadania

Maria José de Sousa, professora aposentada da cidade de São Vicente, no litoral sul de São Paulo, não desgruda da televisão. Dona Zezé, como é mais conhecida, está longe de ser uma exceção. Segundo uma pesquisa do Ibope, há 47, 5 milhões de telespectadores nas dez maiores capitais brasileiras. Outra pesquisa, do IBGE, em que a quantidade de aparelhos domésticos nos lares do país foi medida, mostrou que os brasileiros conseguem até passar sem geladeira, mas não admitem a hipótese de ficar sem TV. Os números confirmam a preferência nacional: dos 12 milhões de famílias pesquisadas pelo IBGE, 94% tinham pelo menos um aparelho de TV, contra 90% que contavam com uma geladeira. A paulista Dona Zezé, de 54 anos, é tão ligada na telinha que não se limita a assistir passivamente à programação. Há um ano começou a trabalhar como apresentadora no Baixada 10, um canal de TV a cabo disponibilizado exclusivamente para a população da Baixada Santista.

Coisa de profissional

Se você torce o nariz para a programação da TV aberta e acha que o nível está cada vez pior, provavelmente vai surpreender-se com o Baixada 10 e com o ABC3, canal a cabo da região do ABC paulista. Por enquanto, os “funcionários” — mais de 200, entre estudantes, donas-de-casa e profissionais de formação diversa — dos dois canais só não produzem novelas. De resto, a programação é tão variada quanto a de qualquer canal de TV convencional. Há de noticiário local a cobertura de jogos de futebol, passando por debates ao vivo com políticos da região e shows infantis. O trabalho é surpreendente para quem espera encontrar apenas amadorismo. A iniciativa é da Canbrás, uma transmissora de TV a cabo local que desde 1998 vem patrocinando a idéia dos canais voluntários.

O Baixada 10 e o ABC3 têm programação ininterrupta e são tocados exclusivamente pela população das cidades da Baixada Santista e do ABC paulista, que não recebe nada pelo trabalho. São moradores de Santo André, São Bernardo do Campo, Santos e São Vicente, entre outras cidades atendidas pela Canbrás. Os voluntários trabalham como cameramen, elaboram projetos de novos programas, sugerem pautas, operam ilhas de edição — enfim, são responsáveis por manter a programação 24 horas no ar. Entre eles, está dona Zezé, citada no início desta reportagem, criadora e apresentadora de um programa de divulgação da cidade onde mora.

São Vicente, Cidade Monumento

O que faz alguém querer trabalhar de graça para uma operadora de TV a cabo? Dona Zezé tem a resposta na ponta da língua: “Fico orgulhosa quando vejo meu trabalho no ar. A comunidade recebe a informação de que precisa e ganha um meio confiável para se comunicar”. São Vicente, Cidade Monumento, o programa apresentado pela professora aposentada, exige um time de pessoas trabalhando nos bastidores para levá-lo ao ar. As pautas surgem de uma pesquisa feita por ela mesma, que atua como produtora, além de apresentadora. “Saio à rua para coletar material, conhecer pessoas interessantes, gente que possa render um bom roteiro”, conta. Às terças e quintas, ela grava nas ruas de São Vicente com outro voluntário que atua como câmera. De volta ao estúdio, um editor, também voluntário, finaliza o material. Enquanto isso, dona Zezé faz as vezes de camerawoman num programa de esportes.

O esquema de trabalho nas duas emissoras é rotativo, ou seja, todo mundo sabe fazer de tudo — exatamente como o job rotation realizado em empresas de primeira linha. “Quando me inscrevi para ser voluntária, não conhecia nada de produção de TV”, afirma a ex-professora Zezé, que hoje opera toda a parafernália de TV como qualquer técnico profissional. A lista de interessados em trabalhar nos dois canais chega a quase 400 pessoas. E a espera é longa, porque eles precisam passar por um treinamento dado por quatro funcionários da operadora — esses, sim, remunerados. O treinamento abrange todos os aspectos da produção de TV: ensina a usar a câmera, fazer a iluminação dentro e fora do estúdio, gravar áudio, trabalhar na ilha de edição. Os voluntários ficam alguns meses realizando cada uma dessas funções — começando como câmera antes de passar para atividades mais complexas. “Tem gente que chega aqui e acha que trabalhar na TV é sinônimo de ser apresentador ou cameraman”, explica Carlos Alberto Rodrigues, gerente de programação local do ABC3. É bem verdade que, por causa desse treinamento on the job, as imagens costumam sair tremidas — e há outras dificuldades comuns aos iniciantes. Mas com o tempo a habilidade deles tende a crescer. Hoje, alguns dos voluntários que chegaram ao ABC3 sem conhecer nada do assunto já conseguiram emprego em grandes redes, como a TV Gazeta de São Paulo. Para Angelo Luciano, o “Lucky”, apresentador de um programa infantil diário em Santo André, o benefício foi ainda maior. Depois que começou a apresentar o Planeta Criança, em 1999, passou a ser reconhecido na rua. Por causa do sucesso do programa, aumentou o número de produções e espetáculos infantis que costumava fazer — sua atividade remunerada. “Para muita gente, isso aqui é a chance de ter uma formação profissional”, lembra Lucky. Alguns dos voluntários do ABC3 são alunos de uma faculdade de comunicação de São Bernardo do Campo. Para eles, o trabalho é a oportunidade de praticar o que vêem em sala de aula. “Não há maneira melhor de aprender do que fazendo”, justifica Rodrigues.

Bom para o Canadá…

Por trás da idéia de criar os canais de televisão tocados por voluntários está o canadense Manny Floriano, VP de programação local da Canbrás. No Canadá, as empresas que recebem a concessão de um canal de televisão são obrigadas por lei a disponibilizar outro canal comunitário para a população local. No Brasil, segundo a Anatel, a legislação também prevê que operadoras de TV a cabo abram esse espaço. Quando o grupo canadense Bell Canada (acionista da Canbrás) decidiu entrar no segmento de TV a cabo no Brasil, trouxe junto sua expertise em canais comunitários. E aproveitou para implantar o ABC3 em 1998. Na Baixada Santista o canal surgiu dois anos depois, quando a iniciativa no ABC paulista estava consolidada.

Os investimentos para montar o primeiro canal passaram de meio milhão de dólares. Foi necessário construir um prédio e montar a estrutura técnica, com tudo o que tem direito qualquer estúdio de televisão profissional. Depois de montada essa base, Floriano iniciou uma campanha entre os assinantes do serviço de cabo da operadora para descobrir interessados em produzir a programação. “Se ninguém aparecesse e desse tudo errado, colocaríamos um canal comercial no lugar”, conta o VP de programação local. A iniciativa funciona ainda como divulgação da operadora. “Que estratégia de marketing de 500 mil dólares seria tão duradoura quanto essa?”, questiona Floriano. O custo de manutenção anual de cada um dos canais é de cerca de 300 mil reais. Ainda não há como medir precisamente o retorno trazido por eles. Mas Leopoldo Inglez, vice-presidente da Canbrás, acredita que a iniciativa criou uma imagem positiva da operadora perante a comunidade. “Não há nada melhor para fidelizar nosso cliente.” Longe de ser apenas uma ótima estratégia de marketing para a operadora, o trabalho dos canais voluntários tem impacto na vida de gente comum como dona Zezé e Angelo Luciano. Graças a ele, os dois têm direito a mais do que meros 15 minutos de fama. Além de realizar o sonho de “ser artista”, eles ainda ganham — com o perdão do trocadilho — um canal para aprender uma profissão e exercer a cidadania.