O novo rosto do Itaú

Letícia Toledo 

O Itaú Unibanco escolheu um dos dias mais atribulados do mercado financeiro, a quarta-feira 09, para anunciar, discretamente, que tem um nome para substituir Roberto Setubal, presidente do banco há 22 anos. A partir de abril de 2017, o atual presidente do Itaú BBA, Candido Bracher, assumirá o comando da instituição.

“Cândido está muito preparado e alinhado com a cultura do banco. Chegou o momento de passar o bastão”, disse Setubal em um evento na sedo do Itaú, na Zona Sul de São Paulo. Ele completou 62 anos em outubro, a idade limite para a presidência da instituição. O anúncio já era mais que esperado pelo mercado, já que o processo de sucessão de Setubal teve início há três anos, quando a idade limite foi ampliada de 60 para 62 anos. A partir de abril, ele se juntará a Pedro Moreira Salles como co-presidente do conselho de administração do banco.

“Bracher era o candidato mais óbvio para o cargo. Tem uma larga experiência no Itaú”, afirma João Augusto Salles, da consultoria Lopes Filho. O primeiro indicativo de que ele poderia ser o sucessor de Setubal veio no início de 2015. Na época, o Itaú Unibanco anunciou uma reestruturação do alto comando da empresa, ao indicar três diretores-gerais para as unidades de varejo e atacado.

Com a reestruturação, Bracher, que lá liderava o Itaú BBA, passou a liderar a Diretoria Geral de Atacado (DGA), à frente dos negócios de grandes e médias corporações, de Asset Management, de Private Bank e de Custódia.

A missão de Bracher

Bracher está no banco há 28 anos. Ele assumiu a presidência do Itaú BBA em meados de 2005. Na época, o BBA já havia se fundido com o Itaú e era comandado por Fernão Bracher, pai de Candido e fundador do BBA. Na época, os principais desafios de Bracher foram enfrentar as mudanças do mercado, em função da maior estabilidade econômica e da inserção do País no cenário mundial e ainda administrar um banco que vinha crescendo expressivamente.

Agora, a situação econômica em que ele assume é bem diferente. O país vive uma de suas maiores crises, o que tem tirado parte dos lucros do banco, que caiu x% neste ano. Analistas preveem que a inadimplência do país deve subir até meados de 2017, o que deve continuar dragando os lucros dos bancos com provisões contra calotes. O desafio será guiar o banco no cenário de retomada da economia, sem deixar que ele perca seu posto de maior do país.

Um problema à vista é o fato de Bracher não ter experiência no varejo – justamente o principal negócio no banco. “Também não conheço tudo do banco, qualquer executivo escolhido teria uma carência em alguma área, mas temos Governança e equipe para isso. Candido vai ter esse mesmo apoio”, disse Setubal durante a coletiva de imprensa.

Bracher ressaltou que seu trabalho será dar continuidade ao trabalho de seu sucessor. Neste sentido, uma das principais estratégias de Setubal era fazer do Itaú um banco mais internacional. No início do ano, ele ressaltou a expectativa é de que suas operações da América Latina cresçam e cheguem a representar entre 15% e 20% do total do Itaú “dentro de alguns anos”.

Em coletiva à impresna, Bracher disse também que quer seguir a estratégia para tornar o banco mais digital. Como parte dessa estratégia, só em 2016 o Itaú fechou 150 agências. Em agosto, o Itaú lançou o aplicativo Abreconta no qual todo o processo da abertura de uma conta corrente pode ser feito pelo celular em uma tentativa de concorrer com os bancos digitais. Hoje, 71% de todas as transações financeiras do banco são feitas por meio dos canais digitais (internet e aplicativos). Em 2010, este percentual era de 38%.

A figura de Setubal

De todos os desafios que Bracher tem pela frente, um dos maiores vai ser substituir a figura de Setubal. “Bracher é um executivo mais discreto, não aparece muito e o mercado está acostumado com Setubal”, diz Salles. Nas duas décadas sob o comando de Roberto Setubal, o banco deixou de ser uma instituição eminentemente paulista para se transformar em uma instituição com operação em 18 países. Setubal comprou importantes bancos estaduais, incorporou o BBA e fez a fusão com o Unibanco – tida como uma das mais bem-sucedidas e “suaves” do mercado financeiro. Sob o seu comando, o Itaú alcançou a posição de maior banco privado da América Latina. Nesses 20 anos, o patrimônio líquido saltou de 2,5 bilhões de reais para 74 bilhões de reais.

Aos 58 anos, Bracher só terá um mandato de quatro anos à frente da instituição. O mercado, é claro, já começa a se perguntar quem irá substituí-lo. O nome que desponta é o de Marcio Schettini, que ajudou o banco a se tornar mais digital na diretoria de Tecnologia, Operações e Eficiência do banco. Ele é oriundo do antigo Unibanco e tem fama de entregar resultado em todas as áreas pelas quais passa. Nesta quarta-feira Schettini foi anunciado como diretor geral de varejo, substituindo Marco Boni, que também alcançou a idade limite para exercer a função. Schettini tem 50 anos.

Encontrar um sucessor não é um problema só do Itaú. No início de outubro os acionistas do Bradesco elevaram de 65 para 67 anos a idade limite para o exercício da presidência após Luiz Carlos Trabuco completar 65 anos. O mais cotado para assumir o lugar de Trabuco, o ex-presidente da Bradesco Seguros, Marco Antonio Rossi, morreu em novembro do ano passado em um acidente de avião.

Em outubro, o até então presidente da operadora de cartões Cielo, Rômulo Mello Dias, renunciou ao cargo para se tornar diretor-executivo do Bradesco. E o mercado viu isso como uma possível preparação de Dias suceder Trabuco. Rômulo claramente tem potencial para se tornar o presidente do Bradesco”, escreveram analistas do banco BTG Pactual em um relatório na época.

O Itaú já disse que não planeja flexibilizar de novo o limite de idade. “A regra é para fazer a fila andar. Mostrar meritocracia e atrair talentos”, disse Salles.