O negócio é prevenir

A necessidade de reduzir gastos com saúde nas empresas cria novas oportunidades em São Paulo

Marcos Manduca, de 33 anos, gerente de portfólio do Citibank, leva uma vida bastante agitada. Como tem de conciliar o trabalho com o MBA, acabou negligenciando a saúde. Parou de praticar esportes e começou a descuidar da alimentação desde que entrou no mercado financeiro, há dez anos. Por vezes se sentia mal por causa da pressão alta. Há um ano e meio Manduca aderiu ao programa de saúde preventiva do Citibank. Recebeu um relatório com seu perfil de saúde e dicas para controlar a pressão, além da indicação de um especialista para acompanhar seu problema. Passou a se alimentar melhor e a fazer exercícios físicos regularmente. Virou um freqüentador das salas de relaxamento do banco e, a cada 15 dias, submete-se a sessões de massagem shiatsu. “Passei a encarar minha saúde com mais seriedade”, diz Manduca, que perdeu 3 quilos e não teve mais problemas de hipertensão. “Com acompanhamento e estímulo constante, ficou mais fácil cuidar da saúde.”

Dos 1 800 funcionários do Citibank em São Paulo, cerca de metade participa do programa de saúde preventiva, implantado em 2000. O banco contratou uma empresa especializada em saúde corporativa, a We Care, para traçar o perfil de saúde dos empregados por meio de um questionário que inclui desde os antecedentes de doenças na família até o tempo dedicado ao lazer. Outra iniciativa do banco foi criar um programa antiestresse. Desde outubro do ano passado, a sede do banco, na avenida Paulista, conta com oito salas de relaxamento, decoradas segundo os princípios de feng shui (técnica chinesa de harmonização de ambientes), com iluminação especial, música e fontes de água. “Quem estiver estressado pede licença por alguns instantes e pode meditar ou apenas relaxar no local”, diz Delsio Klein, diretor corporativo de recursos humanos. Para implantar seu programa, o banco investiu cerca de 70 000 dólares. Valeu a pena? Os gastos com saúde caíram de 7 milhões em 1999 para 4 milhões de dólares no ano passado. “Além de reduzir a conta do plano de saúde, é possível diminuir o número de faltas e aumentar a produtividade”, afirma André Coutinho, diretor da We Care.

Assim como o Citibank, muitas empresas começam a perceber que prevenir é melhor do que remediar — e sai bem mais barato. Essa constatação óbvia está gerando oportunidades para um negócio ainda incipiente em São Paulo: o da saúde preventiva. Com a conta do plano de saúde empresarial cada vez mais alta, quem oferece soluções para reduzir essa despesa tem um mercado promissor. “Prevenção é hoje a palavra de ordem no setor de saúde, a maneira mais inteligente de reduzir os gastos crescentes”, diz Urânio Paes Junior, sócio-diretor da Quest, consultoria em marketing que atende a empresas como Pfizer e Aventis e que já ministrou treinamento para 17 000 profissionais da área. “É um mercado que só agora começa a se formar e tem grande espaço para crescer.” Um levantamento feito pela AON Consulting em grandes empresas da Região Sudeste, a maioria de São Paulo, mostrou que há cerca de 20 anos o plano de saúde representava 4% da folha de pagamentos. Hoje, em muitas companhias, esse índice passa de 8%. “E há quem gaste 12% para dar esse benefício aos funcionários”, diz Humberto Torloni Filho, diretor da AON. “Por isso, o assunto interessa a muitas empresas.”

O fenômeno não é exclusivamente paulistano, mas é em São Paulo que começam a aparecer as primeiras empresas no país especializadas em prevenção. A cidade sempre esteve na vanguarda da área médica no Brasil. Para ter uma idéia, a avenida Paulista reúne a maior quantidade de tomógrafos (um equipamento caro e de alta tecnologia) por metro quadrado no país. Grandes hospitais especializados e as maiores redes de laboratórios costumam instalar-se primeiro na capital paulista. No que diz respeito à saúde preventiva, outro fator torna a cidade um lugar propício para a expansão do negócio: a concentração de empresas e o grande número de funcionários.

Redução de custos

Até o ano passado, a principal atividade da AON era a consultoria na escolha e na administração de planos de saúde corporativos. Em meados de 2001 passou também a fazer a gestão do que chama de “risco populacional” para clientes que precisam diminuir suas despesas com as seguradoras. O trabalho consiste em traçar o perfil de saúde dos funcionários e gerenciar seus problemas para evitar gastos desnecessários. A AON pesquisa os hábitos e o estilo de vida dos funcionários e determina os tipos de problema mais freqüentes. Esses dados são cruzados com a origem dos gastos com assistência médica, ou seja, quando e para que os empregados usam o plano de saúde. Com base nessas informações, cria-se um programa de prevenção. “É comum alguém ir a cinco médicos diferentes até chegar ao especialista que realmente trata o problema”, diz Torloni. “Podemos orientar para que se evitem gastos desnecessários.” Por enquanto, 13 das 400 empresas que trabalham com a AON experimentam esse novo serviço, o que significa menos de 10% dos 250 000 usuários de planos de saúde empresariais gerenciados pela companhia.

Um desses clientes, a SAP, de São Paulo, começou a colher os resultados do programa. A empresa queria reduzir as despesas dos funcionários com planos de saúde sem diminuir a qualidade do benefício. A solução foi levantar os hábitos dos empregados e enviar um relatório com os pontos que mereciam mais atenção. “O objetivo é fazer as pessoas refletirem sobre sua saúde sem adotar um tom professoral”, diz Cíntia Motta, gerente de recursos humanos da SAP. Cerca de 80% dos funcionários aderiram ao programa. A empresa estimulou o uso do serviço gratuito de check-up da seguradora AGF Saúde, o que reduziu o número de consultas e exames na rede de médicos do plano. “Com o check-up, o paciente é encaminhado ao médico certo e já chega com o resultado dos exames na mão”, diz Carla Reno, analista de RH da empresa. Em menos de seis meses, a SAP conseguiu diminuir o uso do plano de saúde pelos funcionários em cerca de 30%. “A economia será revertida em melhorias para o plano de saúde, como maior valor de reembolso”, diz Carla.

Novos negócios

Dono de uma empresa de promoção de saúde corporativa, a CPH, o médico Ricardo de Marchi calcula que, em um ou dois anos, companhias de porte, como as 500 maiores do anuário Melhores e Maiores, de Exame, deverão gastar, no mínimo, 125 reais anuais por funcionário com saúde preventiva — mais que o dobro do desembolso atual. De olho nesse potencial, De Marchi uniu-se à Intermedici (uma das poucas empresas de medicina de grupo com programa de gestão preventiva em São Paulo) e à americana Value Options (que tem 23 milhões de clientes nos Estados Unidos) para montar uma central de atendimento, a Solutions, que deve entrar em operação nos próximos meses. Entre outros serviços, a central de atendimento vai manter uma equipe de médicos e enfermeiros de plantão para esclarecer, por telefone ou pela internet, as dúvidas sobre saúde dos funcionários das companhias que contratarem o serviço. “O objetivo é atender à demanda das empresas, que começam a querer mais que um simples serviço de check-up dos funcionários”, diz De Marchi. A previsão é que 80% dos casos sejam resolvidos em uma ou duas conversas telefônicas. Os outros 20% serão encaminhados para uma rede de médicos credenciados. Os sócios da Solutions esperam, em dois anos, obter um faturamento de 6 milhões de dólares só com a assistência em saúde mental. Até o fim da década, a meta é atingir uma receita de 50 milhões de dólares no total.

Outra empresa paulistana recém-criada para atuar na área de gestão preventiva de saúde é a Axismed. Com um investimento inicial de 1,5 milhão de reais, ela começou a prestar serviços para sua primeira cliente, a Interclínicas, uma empresa de medicina de grupo do Rio de Janeiro. A Axismed vai monitorar quem mais freqüenta laboratórios, consultórios e, principalmente, prontos-socorros e hospitais, que representam a maior parcela dos gastos. Ou seja, vai cuidar da parcela de segurados que mais gastam — e tomar medidas para diminuir essas despesas no longo prazo. Casos de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão ou asma, terão acompanhamento regular. Um grupo de médicos e enfermeiros dará apoio aos pacientes para que façam seus exames corretamente e sigam o tratamento. “Vamos ensinar as pessoas a ter um papel ativo em relação à sua saúde”, diz Fabio de Souza Abreu, diretor da Axismed. “É mais fácil e barato fazer isso do que deixar para resolver o problema quando chegam ao pronto-socorro.”

Alguns problemas de saúde que poderiam ser resolvidos com uma simples consulta médica e uma caixa de remédio chegam a custar dez vezes mais quando o doente acaba no pronto-socorro. Por isso, os americanos criaram o PBM, pharmacy benefits management (algo como gerenciamento de benefício farmacêutico). “Nos Estados Unidos, as seguradoras perceberam que o paciente que não segue o tratamento prescrito pelo médico sai muito caro”, diz Luiz Carlos Monteiro, presidente da E-Pharma, que colocou em funcionamento seu sistema de PBM em outubro do ano passado. A E-Pharma já tem mais de 1 000 farmácias interligadas, das quais 265 na Grande São Paulo. Quando um funcionário de uma empresa associada compra remédio numa das farmácias, passa seu cartão magnético numa máquina semelhante à de cartão de crédito. A fatura sai na hora. O farmacêutico tem acesso à sua ficha. Se for alérgico ao medicamento receitado, por exemplo, o sistema o avisa imediatamente. O relatório das compras permite às empresas saber quais os principais problemas de saúde dos funcionários. O retorno deverá vir no longo prazo. Nos Estados Unidos, para cada dólar gasto com remédios ainda na fase de ambulatório, economizam-se até seis dólares com internações.