O maracatu atômico

Software

Excêntrico. Visionário. Um pouquinho maluco. O paraibano Silvio Meira, de 48 anos, poderia receber qualquer um desses rótulos. Professor de engenharia de software da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Meira já entrou em sala de aula deslizando sobre patins. Sua foto no crachá funcional em nada lembra a sisudez do estereótipo acadêmico: ele aparece de óculos escuros e usa um chapéu colorido que veio diretamente de Kuala Lampur, na Malásia. Seus sumiços anuais nos meses de janeiro e fevereiro — período em que se entrega aos batuques do maracatu — já viraram folclore. Mas não são essas curiosidades que fazem dele um exemplo do novo tipo de negócio que começa a prosperar no capitalismo brasileiro. Também não são elas as responsáveis pelas cada vez mais freqüentes reuniões de Meira com representantes do BNDES, de bancos de investimentos e de multinacionais de tecnologia.

O mérito desse Ph.D. em computação é outro. Em meados da década de 80, Meira começou a espanar a poeira da academia e a transformar o departamento de informática da Universidade Federal de Pernambuco em referência internacional. Aos poucos, o mercado foi invadindo a universidade. Em 1996, ele criou o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), uma ONG que funciona como incubadora de empresas de software. “É o setor acadêmico interferindo na economia”, diz ele. O fim das pesquisas herméticas somado ao contato cada vez mais estreito entre os profissionais de classe mundial formados pela universidade e o mercado lançaram as bases do que se tornou um dos projetos mais originais em curso hoje no Brasil: o Porto Digital, criado em julho de 2000 a partir de uma injeção de 33 milhões de reais do governo do estado de Pernambuco.

Ocupando o chamado Bairro do Recife, uma área de um quilômetro quadrado repleta de casarões do século 18, o Porto Digital é um cluster de tecnologia que pretende colocar a capital pernambucana no mapa internacional da economia digital (atualmente, em toda a cidade do Recife existem cerca de 200 empresas de tecnologia que faturam 100 milhões de reais por ano).

Como isso será possível? “Estamos criando vantagens difíceis de ser reproduzidas em outros lugares”, diz Fabio Silva, presidente do Porto Digital. Na prática, significa tecer uma rede complexa em que iniciativa privada, governo e academia trabalhem em harmonia e de forma complementar. Significa também atrair os melhores talentos para esse ecossistema e incorporar ao cotidiano as práticas mais modernas de gestão — como integração com a comunidade. É um modelo baseado nas idéias de Rosabeth Moss Kanter, professora de administração da Harvard Business School. Rosabeth afirma que os mercados locais são cada vez mais disputados globalmente e que, para que uma empresa seja considerada de classe mundial, ela precisa ter alguns ativos intangíveis. São os chamados “três Cs”: conceitos (conhecimento que possa gerar valor), competência (capacidade de traduzir essas idéias inovadoras em produtos e serviços) e conexões (alianças entre negócios para tirar o máximo das competências centrais, abrir portas e criar valor).

Atualmente há 33 empresas instaladas no Porto Digital, mas a previsão é de que nos próximos três anos esse número chegue a 200. Desse total, 60 deverão ser negócios criados a partir do próprio ecossistema. Aos poucos, os agentes do capital também começam a ocupar espaço nesse cenário. Banco do Nordeste, Pactual, Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e Rio Bravo Investimentos estão abrindo escritórios no bairro. O Cesar, que deve faturar 25 milhões de reais neste ano e continuará sendo a principal ponte entre universidade e mercado, também está de mudança. Cerca de 70 pessoas já deixaram as instalações na universidade para ocupar um galpão no Porto Digital. Outras 230 devem se mudar em breve. Para receber essas empresas, o Bairro do Recife está passando por uma completa revitalização. Além das obras em dezenas de imóveis escondidos por tapumes, foi necessário fazer uma revolução subterrânea. Sob o casario colonial hoje passam 25 quilômetros de cabos de fibra óptica — uma infra-estrutura indispensável na transformação da área em pólo tecnológico.

Quem está migrando para o Porto Digital são empresas como a VANguard, que se dedica ao gerenciamento de redes e sistemas de grandes corporações. Criada em 1998 como uma unidade de negócios do Cesar, a VANguard foi constituída como empresa independente em fevereiro de 2001, quando vendeu 70% de seu capital para a paulista Opentech. De sua lista de clientes constam nomes como Petrobras e a rede de supermercados Bompreço. Seus 20 funcionários ocupam um escritório moderninho de 100 metros quadrados onde não faltam cores vivas e paredes de tijolo aparente. Não há dúvida de que o principal ativo da empresa são seus talentos. Graças à transformação do Recife num pólo de tecnologia, hoje é mais fácil reter os melhores alunos das universidades da região e mesmo atrair pessoas de fora.

O crescimento da VANguard, hoje uma empresa com vendas na casa dos 2 milhões de reais, esbarra num obstáculo: a falta de grandes corporações na Região Nordeste. Para driblar o problema, em fevereiro passado, Luciana Varejão, uma das sócias-fundadoras, mudou-se para o Rio de Janeiro. No primeiro semestre deste ano deve abrir por lá uma filial da empresa. “Como nosso foco são médias e grandes empresas, não poderíamos ficar longe do Sudeste”, diz a pernambucana Danielle Franklin, sócia de Luciana. Mestra em computação pela UFPE, Danielle tem 31 anos, é fluente em inglês e francês e fala com a desenvoltura de uma executiva. Mas admite que ser um empreendedora oriunda da universidade não é fácil. “Estamos aprendendo a lidar com investidores e a ser empresárias”, diz.

Não é um desafio apenas de Danielle. “O mercado ainda reconhece o Porto Digital como um centro de habilidade e competência, não como um pólo de produtos e marketing”, diz Fernando Sodré, presidente da Mobile, empresa que nasceu no Cesar e deve se mudar para o Porto Digital até o fim do ano. Sodré é um pernambucano de 27 anos que voltou para o Recife no ano 2000 para trabalhar no então Radix (que viria a se tornar Mobile em novembro de 2001, depois que parte da empresa e a marca foram vendidas para o iBest). Hoje comanda uma empresa cujos principais acionistas são o banco Opportunity e a catarinense Datasul, uma das maiores desenvolvedoras de software do país.

Uma versão pernambucana da Microsoft ainda está muito, muito distante. Por enquanto, os maiores feitos do Porto Digital estão na área de pesquisa — e intimamente ligados ao Cesar. É o caso de um acordo fechado entre a ONG e a americana Sun Microsystems, em abril. A parceria implica em investimentos superiores a 1 milhão de dólares para transformar o Cesar em um Centro de Excelência Sun — o primeiro no Brasil. Prevê também que a companhia americana doe equipamentos no valor de 200 000 dólares para a escola de informática da Favela do Pilar, no Bairro do Recife. A Motorola é outra empresa que aposta na capacidade de inovação do Cesar. Atualmente, está investindo 2 milhões de dólares em dois projetos de desenvolvimento de tecnologia.

O salto comercial é o que vai transformar o Porto Digital num grande negócio — um Vale do Silício brasileiro — ou mantê-lo como uma comunidade criativa, bem azeitada, mas restrita e dependente de incentivos do governo. A vitrine está pronta. Agora, é ver o dinheiro entrar em caixa.