O mais recente desafio do GPA é a dúvida

Por conta da falta de informações mais claras sobre a possível reestruturação do Casino , as ações da companhia despencaram

Uma importante mudança pode chegar em breve para o Grupo Pão de Açúcar, o maior varejista do país. O Casino, grupo francês controlador do GPA, afirmou esta semana que estuda opções para seus ativos na América Latina.

No entanto, ainda não há informações sobre o que pode mudar ou como o grupo brasileiro deve ser afetado. Assim, investidores receiam que a reestruturação repita os moldes de outra movimentação, a de 2015, que resultou em uso de caixa das companhias e diminuiu ganhos dos investidores.

A companhia afirmou ontem, 9, em comunicado, que “ está estudando diferentes opções estratégicas nesta região como parte da permanente revisão dos seus investimentos”. A empresa ainda disse que esses estudos não resultam em nenhum elemento material que justifique um anúncio mais detalhado ao mercado.

O grupo Casino controla o GPA, com operações no Brasil, com as marcas Pão de Açúcar, Extra, Assai, e o controle da Via Varejo. Também detém o Grupo Êxito, com operações na Colômbia, Argentina, Uruguai e Chile. O Êxito tem mais de 1.500 lojas nos países em que opera.

De acordo com a coluna do jornalista Lauro Jardim, que revelou que o grupo deve anunciar uma proposta para combinar seus ativos na América Latina, o GPA pode ser migrado para o Novo Mercado e continuará listado em São Paulo e New York.

Por conta da falta de informações mais claras, as ações da companhia despencaram. Ontem, fecharam o dia em queda de 4,32%.

O receio dos investidores vem do histórico da última grande reestruturação societária, ocorrida em 2015. Na época, o Casino vendeu parte do seu controle no GPA para o Êxito e passou a dividir o controle da operação brasileira com a subsidiária colombiana.

Segundo a XP, a reorganização não foi bem recebida pelos investidores, pois houve retirada de caixa do Êxito, o que reduziu o montante disponível para potencialmente ser distribuído aos acionistas minoritários.

Além disso, as sinergias entre os grupos não estavam claras. Da data de anúncio da transação em julho de 2015 até o final do mesmo ano, as ações do Êxito e do GPA caíram 41% e 44%, respectivamente.

Hoje, a preocupação é que o GPA precise desembolsar caixa para comprar uma participação no Grupo Êxito. “Acreditamos que a queda nas ações é por conta do paralelo com a reestruturação de 2015”, explica Betina Roxo, analista da XP Investimentos.

A confusão ofuscou os bons resultados da companhia. Os números do primeiro trimestre do ano vieram sólidos, com crescimento de vendas na comparação de mesmas lojas de 10,7% ao ano para o Atacarejo (Assai) e 4,8% ao ano para o Multivarejo, que engloba hipermercados, supermercados e lojas de conveniência.”O que impactou o papel do GPA não foi o seu negócio, mas a questão societária”, afirmou Fernando de Almeida Prado Bresciani, analista da Mirae Asset. “A ideia de que o GPA passe a operar no Novo Mercado agrada os investidores, mas a incerteza do que deve acontecer com as outras companhias na América Latina impactou o grupo”, diz.

O grupo também afirmou, em sua teleconferência com analistas, que deve chegar a uma solução sobre a venda da Via Varejo até o fim deste ano. O objetivo é encontrar um comprador estratégico para a dona da Casas Bahia e Ponto Frio. Em fevereiro, o GPA arrecadou 200 milhões de reais com a venda em leilão de 40 milhões de ações da Via Varejo.

Enquanto notícias mais claras não chegam, o mercado continua otimista com o cenário da companhia, apesar da instabilidade de curto prazo.

A corretora Mirae Asset acredita que a varejista brasileira deve entregar “resultados ainda melhores no final do segundo semestre de 2019 e em 2020, quando esperamos uma economia mais aquecida”.

Por outro lado, a situação do Casino não é tão positiva. Em abril, o varejista francês Casino Guichard-Perrachon teve sua nota de crédito cortada pela agência de risco S&P, de BB para BB-, com perspectiva negativa. A Moody’s também rebaixou o Casino, de Ba1 para Ba3, mantendo perspectiva negativa. Apesar do crescimento nas vendas, as agências acreditam que a alavancagem da companhia permanece alta.

A empresa planeja vender cerca de 1,5 bilhão de euros (US$ 1,77 bilhão) em ativos que não considera cruciais, a fim de acelerar sua estratégia de desalavancagem na França. Parte das vendas, de ativos imobiliários, já foram realizadas.