O machismo está, de fato, ficando no passado?

Os casos de abuso sexual contra Harvey Weinstein mostram que este pode ser um momento de virada na forma como as mulheres são tratadas

No auge de seu poder, em 2003, a Miramax estava envolvida com quatro dos cinco filmes concorrentes ao Oscar – Gangues de Nova York, Chicago, As Horas e Senhor dos Anéis: as Duas Torres. Como apontou Ronan Farrow em sua devastadora reportagem na New Yorker, Harvey Weinstein, que a cofundou com o irmão, Bob, recebeu mais agradecimentos de premiados na noite do Oscar do que quase qualquer pessoa na história do cinema, “logo atrás de Steven Spielperg e imediatamente à frente de Deus”.

A empresa que os irmãos fundaram depois de vender a Miramax, TWC (The Weinstein Company), já andava com problemas nos últimos anos, mas ninguém esperava sua dissolução. Pelo menos não até o terremoto que se abateu sobre ela em menos de uma semana (com a reportagem da New Yorker e, pouco antes, uma outra do New York Times revelando casos grotescos de assédio sexual).

O braço de produção de TV da TWC começou a apagar o nome de Weinstein de seus lançamentos; e séries que estavam planejadas foram cortadas. A divisão de livros, sob o guarda-chuva do grupo Hachette, foi fechada.

O próprio chefe de operações da companhia, David Glasser, disse acreditar que a “TWC, do modo como existe hoje, está acabada”, embora afirmasse que “há provavelmente outras encarnações que tenhamos que olhar”.

No dia 16, a TWC anunciou que a firma de investimentos Colony Capital faria um aporte na empresa, comprando parte ou todos os seus ativos. Thomas Barrack, fundador e CEO da Colony, disse estar feliz por investir na TWC e ajudá-la a seguir adiante. “Vamos ajudar a companhia a retornar à sua posição icônica de direito na indústria da TV e dos filmes independentes”, afirmou.

É possível – provável, até – que o passo adiante da TWC seja passar da beira do abismo para o vazio. E este pode ser, de acordo com diversos analistas, um momento de virada na forma como as mulheres são tratadas na indústria cinematográfica em particular e no mundo dos negócios em geral.

As etapas do feminismo

A campanha pelos direitos das mulheres, em todos os aspectos da vida, não é nova. Apenas um século atrás, elas ainda brigavam para votar; há meio século, não tinham direitos básicos como abrir uma empresa própria ou deixar de viver com um marido de quem não gostassem. Passada a fase das proibições, há décadas se luta contra as barreiras invisíveis: o preconceito camuflado que dificulta promoções, rebaixa salários e impede o acesso a oportunidades.

De muitas maneiras, o estágio atual do feminismo apela para os mais básicos conceitos da racionalidade liberal. Boa parte dos argumentos em prol da igualdade de gêneros apela para a alocação ótima de talentos e recursos (a sociedade não pode aproveitar tão mal a capacidade de metade das pessoas) e para o valor da diversidade (empresas precisam ter gente diferente para entender os diferentes clientes, os diferentes ambientes, as ameaças e oportunidades que só a capilaridade permite enxergar).

O que o caso Weinstein nos lembra é que o estágio anterior a esse ainda não foi vencido. Não se trata de oportunidades, trata-se de segurança, a etapa mais básica de todas. As táticas de persuasão (contrate e promova mulheres porque isso faz bem aos negócios) estão sendo atropeladas pela tática de coibição (seja preconceituoso e você vai ver o que acontece).

Não por acaso a ministra para Igualdade de Gêneros da França, Marlene Schiappa, anunciou que o país vai estabelecer uma nova política para punir assédio sexual: multas aplicadas na hora. A medida já está em vigor desde o ano passado na Finlândia, ainda sem resultados definidos. “Nós sabemos muito bem em que ponto nós passamos a nos sentir intimidadas, inseguras ou assediadas na rua”.

O caso Uber

O novo humor em relação ao tratamento das mulheres pode ser constatado em inúmeros casos. Este ano, Travis Kalanick perdeu a presidência do Uber (e o Uber perdeu bilhões de dólares em valor de mercado) basicamente como consequência de um post em que uma ex-funcionária relatava ter sofrido assédio.

Não era o único problema do Uber. Havia espionagem de autoridades e concorrentes, táticas truculentas, competição interna insalubre, até uma acusação de roubo de patentes para criar carros autônomos. Mas o que capturou a atenção e deu origem ao processo de depuração da empresa, ainda em curso, foi a denúncia de assédio sistemático.

Não são casos novos. Nem de assédio sexual nem de assédio moral ou táticas truculentas. Algumas das fundações mais benfazejas do mundo foram criadas com a herança de empreendedores famosos por seu comportamento abjeto – incluindo o Prêmio Nobel, que homenageia o criador da dinamite.

O que parece estar mudando é a reação. Além do Uber, a poderosa Fox News teve não um, mas dois de seus comandantes (o fundador, Roger Ailes, e seu âncora mais poderoso, Bill O’Reilly) afastados por denúncias de assédio. Na Amazon Studios, o chefe da divisão, Roy Price, foi posto em licença por suspeita de assédio sexual.

No Brasil, os casos de reação contra o ator José Mayer e a recente prisão do preparador físico Nuno Cobra, por assédio em um avião em 2015, fazem parte da mesma onda, embora a dimensão das consequências seja bem menor.

Um pouco mais para trás, há o caso do médico Roger Abdelmassih, semelhante ao do ator Bill Cosby – que drogava suas vítimas para se aproveitar delas.

Um velho filme ou uma nova realidade?

Há, no entanto, quem duvide de uma nova era. A conta de acusadoras de Weinstein estava em 40 mulheres, na quinta-feira. Foram muitos anos de assédio. Dezenas de pessoas se disseram surpresas – inclusive o irmão de Harvey, Bob Weinstein, que criou a companhia com ele (Bob, que está brigado com Harvey há cinco anos, chamou-o de “depravado” e diz que vai tentar reerguer a TWC).

Como disse o roterista Scott Rosenberg, que trabalhou com Weinstein em Pulp Fiction, Shakespeare Apaixonado, O paciente inglês e A vida é bela, entre outros, “todo mundo sabia. Do fervor, do apetite”.

Talvez não soubessem do grau, disse Rosenberg. “Mas que estava acontecendo algo, sim.” As próprias mulheres comentavam. “Embora elas ficassem surpresas, meio que riam de sua arrogância; de como ele tinha a audácia de achar que a simples visão de seu corpo nu, de sua carne flácida e infeccionada iria colocá-las no clima para o amor”.

Esse comportamento – atrair jovens para uma suíte e aparecer de roupão, sem nada por baixo, depois tentar se impor – era visto como “uma grotesca demonstração de poder”.

E ninguém tornava o caso público. Em parte, como disse George Clooney, porque os rumores “pareciam um jeito de menosprezar as atrizes ao sugerir que elas não tinham conseguido os papeis apenas por seu talento”.

Houve uma reportagem anterior no New York Times – ou melhor, uma tentativa de reportagem. Segundo a jornalista Sharon Waxman, em 2004 ela tentou investigar as repetidas alegações de má conduta sexual de Weinstein. Mas a história foi enterrada, segundo ela depois que Weinstein, um grande anunciante do jornal, visitou a redação em pessoa para demonstrar seu descontentamento.

Por que agora, então?

Pelo menos parte da explicação é: Weinstein já não era tão poderoso. Nos anos 1990, os grandes estúdios lançavam um a cada três filmes. E eram os que davam mais dinheiro, mais prestígio, mais prêmios. Weinstein tinha o poder de decisão (ou no mínimo de influência) sobre os poucos papéis de destaque para mulheres.

Mas hoje os estúdios não são mais tão poderosos. Há o Netflix, a Amazon (embora, como se viu, também aí possam se reproduzir relações machistas). Os grandes estúdios fazem um de cada sete filmes lançados.

Nessa visão – talvez um pouco cínica, mas certamente com uma boa dose de verdade – o desafio ao poder machista só foi possível porque o poder já não era o mesmo.

Basta lembrar que outro caso de assédio que foi amplamente noticiado no final do ano passado não deu em nada. Ou melhor, deu. Seu protagonista foi eleito presidente dos Estados Unidos, mesmo tendo vindo à tona a gravação em que ele se referia a mulheres como objetos que, sendo um homem famoso com ele, era possível “agarrar pela …”.

Ironia das ironias, Trump declarou que conhece Weinstein há muito tempo “e não ficou nada surpreso” com as revelações.

Também é de se notar que casos de assédio chamam a atenção há muito tempo na indústria cinematográfica – com resultados variados. O diretor Roman Polansky foi condenado por estuprar uma menina de 13 anos em 1977, e não pode pisar nos Estados Unidos, sob o risco de ser preso.

Nos anos 1940, o governo americano, desgostoso com a simpatia do cineasta Charles Chaplin por ideias socialistas, queria deportá-lo ou prendê-lo. E parte dos esforços foi centrada em suas relações com moças muito, muito mais jovens que ele. Não haveria provas contra Chaplin, porém, porque ele costumava se casar com as moças que seduzia.

Dados esses fatos, é de duvidar que o caso Weinstein seja mesmo um ponto de inflexão numa tão arraigada cultura de assédio. Uma pesquisa britânica, feita por uma federação de sindicatos de trabalhadores, concluiu que 52% das mulheres sofreu com comportamentos inadequados no trabalho, incluindo apalpadelas, avanços sexuais e piadas machistas. Quase um quinto disse ter sido assediada pelo chefe ou por alguém em posição de autoridade – e 80% afirmaram não ter prestado queixa, por medo de não ser levadas a sério ou a carreira ser prejudicada.

No entanto, os rumores hoje em dia se espalham com muito mais rapidez pelas redes sociais. A acusação contra o ator José Mayer veio de um post da figurinista que ele assediou. A queixa contra o Uber veio de um post da engenheira que havia trabalhado lá.

Hollywood talvez não tenha o poder de mudar a cultura. Mas pode se tornar mais um símbolo de que os tempos – e a resignação das mulheres – estão mudando.