O fim da caçada aos presidentes

Em seu novo livro, Ram Charan explica como os conselhos de administração devem atuar para ser mais do que caçadores de CEOs

Num recente almoço em Detroit com o presidente mundial de uma grande indústria do setor elétrico ouvi dele um desabafo: “Tem algo me tirando o sono”. Estranhei. Ao ler os últimos demonstrativos financeiros de sua empresa pude constatar que ela está gerando resultados até surpreendentes. “Há algo que você esteja ocultando?”, perguntei. Com a sinceridade encorajada por uma taça de vinho, o executivo foi rápido: “Não, não se trata disso, nossos negócios estão crescendo com bastante solidez. O que me tira o sono é o conselho de administração”. Esse diálogo é exemplar das dificuldades do tenso relacionamento vivido atualmente por presidentes e conselheiros — ambos os lados em busca de vantagens competitivas para suas empresas. É também o que torna Boards That Deliver (Ed. Jossey-Bass), recém-lançado nos Estados Unidos e ainda sem tradução para o português, uma daquelas obras concebidas no momento mais oportuno. Seu autor, o consultor Ram Charan, consegue, pela exposição prática de seus conceitos e idéias, transmitir a essência da nova realidade e responsabilidade dos conselhos de administração. Especialista em governança corporativa, co-autor de dois best-sellers — Desafio: Fazer Acontecer e Encarando a Nova Realidade –, além de articulista das revistas Fortune e Harvard Business Review, Charan já aconselhou a cúpula de empresas como General Electric, DuPont, Verizon e EMC. Essa carga de experiência dota Boards That Deliver de uma visão que vai além das fronteiras das melhores práticas na área.

Os conselhos de administração, de acordo com Charan, encontram-se atualmente em estado de transição e evolução. A primeira fase foi a cerimonial. Anterior aos grandes escândalos empresariais ocorridos nos Estados Unidos, foi marcada por conselhos que tinham essencialmente a responsabilidade de atender aos aspectos legais prescritos pelas Comissões de Valores Mobiliários. Na maioria das empresas, o presidente era o maestro da orquestra. A fase de libertação teve início após os escândalos, com o advento da Lei Sarbanes-Oxley, a legislação que transfere para os conselhos uma elevada responsabilidade fiduciária. Com a responsabilidade dilatada e o bolso em risco, os conselhos passaram a se envolver mais ativamente nos negócios — mas de forma não estruturada, o que está gerando confrontos improdutivos com os presidentes e os demais executivos que colocam a mão na massa.

Em seu novo livro, Charan identifica os meios e as técnicas a ser utilizados pelos conselhos de administração para se transformar em órgãos de alto desempenho — capazes de somar valor aos negócios. Segundo sua fórmula, o pêndulo da responsabilidade precisa ser reposicionado e compartilhado entre conselho e presidente. É o que ele chama de fase progressista, na qual a relação entre as duas partes se torna construtiva e colaborativa, formando um time coeso e responsável no estabelecimento das diretrizes e estratégias. O livro oferece uma espécie de roteiro-diagnóstico muito bem estruturado para conselhos e CEOs avaliarem sua eficiência e identificar em que etapa se encontram. A expectativa de retorno do capital do acionista e a sintonia afinada entre o conselho de administração e o executivo principal tornam-se, então, a chave para avançar nos negócios.

Uma vez elaborada a avaliação, conselhos e CEOs devem adotar as ações necessárias para evoluir rumo à etapa progressista. Para tanto, segundo Charan, torna-se necessário checar itens fundamentais, como a dinâmica do conselho (como seus membros interagem entre si e com o executivo principal na busca de soluções), a procura de informações (de que maneira os conselhos devem obter dados vitais sobre as operações), além da análise dos temas em que os conselhos investem seu tempo e sua atenção. Cada um desses itens é amplamente explorado pelo autor, o que faz do livro um guia prático do que fazer e como fazer.

Walter Janssen Neto é economista com especialização
em governança corporativa pela Stanford
Law School, Chicago Business School e
Wharton School