O estilo de liderança de Justin Trudeau

Se você é líder de qualquer coisa — CEO de grande empresa, chefe de seção, pai ou mãe de família, diretor de escola de samba, superintendente de fábrica, gerente de loja —, pode ter muito o que aprender com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau. Governantes eleitos em geral contam com um período de mais ou menos 100 dias de lua de mel com os cidadãos. Trudeau comemora nesta semana seis meses no cargo, e uma pesquisa da Mainstreet Research indicou que seu partido hoje obteria 49% dos votos — dez pontos percentuais acima da votação no dia das eleições. Mais: sua lua de mel rompeu fronteiras. O mundo inteiro parece apaixonado pelo político de apenas 43 anos (agora 44) que liderou o Partido Liberal em sua espetacular volta ao poder após uma década de derrotas.

Parte de sua capacidade de angariar simpatias se deve à aparência de galã. Não é um dom que, digamos, um Michel Temer possa emular com facilidade. Nem é, por si só, garantia de nada: basta lembrar de Fernando Collor, o último governante brasileiro que usou essa carta em âmbito nacional e, aos 42 anos, teve de renunciar para não ser cassado.

Para encontrar algum modelo de liderança, alguma lição útil, é preciso olhar para a outra parte de seu carisma: aquela construída com esforço e cálculo. Nos últimos meses, ainda antes de ser eleito, Trudeau tem ganhado manchetes em todo tipo de mídia e enorme repercussão nas redes sociais, revelando-se um mestre no que César Maia, ex-prefeito do Rio de Janeiro, dizia ser sua especialidade: criar factoides (na definição do jornalista e escritor Norman Mailer, “fatos que inexistiam antes de aparecer numa revista ou jornal”).

O poder da comunicação
Mas não são factoides quaisquer. Trudeau passa, convincentemente, uma imagem com a qual os canadenses gostam de se identificar. E esta é, provavelmente, sua mais eloquente lição: um líder deve ser capaz de espelhar e inspirar as pessoas. Veja alguns dos exemplos mais recentes de seu estilo:

• Em 15 de abril, correu o mundo o vídeo em que Trudeau explica o que é computação quântica a um repórter durante uma cerimônia em que promete investimentos de 50 milhões de dólares a um centro de física teórica. Num nível simples, a explicação está correta, no dizer de cientistas (embora alguns físicos tenham apontado erros essenciais). Ocorre que Trudeau, antes da coletiva de imprensa, havia conversado com cientistas do centro e provavelmente absorvido ali as linhas gerais do assunto. Ao abrir a entrevista, faz uma brincadeira com os jornalistas, dizendo que espera que lhe perguntem como a computação quântica funciona, porque está entusiasmado por ter aprofundado seu conhecimento naquela manhã.

• Em março, ele ganhou manchetes quando foi divulgada na web uma foto de 2013 em que faz pose de ioga numa mesa do Parlamento. (A posição, chamada de mayurasana, consiste em apoiar os punhos no chão e só com eles sustentar o corpo na horizontal. Na internet, os comentários mais inspirados eram que ele estava tentando equilibrar o orçamento.)

• Também em março foi ao zoológico divulgar o nome de dois ursos panda nascidos no mesmo mês em que ele ganhou as eleições. O humorista Andy Borowitz, da revista New Yorker, comentou que sua foto afagando os filhotes Jia Panpan (“esperança canadense”, em chinês) e Jia Yueyue (“alegria canadense”) agravaria a “crise de imigrantes dos Estados Unidos para o Canadá”.

“A marca Trudeau é essencialmente calcada em ser próximo e pessoal”, disse Thierry Giasson, especialista em imagem política da Universidade Laval, em Quebec. “As selfies que ele tirou com eleitores durante sua campanha são o perfeito exemplo desse método.”

Curiosamente, nesse aspecto de aproveitar oportunidades de foto, o líder que mais se aproxima de Trudeau é… Vladimir Putin, o chefão da Rússia, que está no poder desde a virada do milênio, ora como presidente, ora como primeiro-ministro. Enquanto Trudeau passa a imagem de bom-moço, Putin se esmera em parecer durão, em corridas, caçadas e lutas.

Podem-se encarar as aparições de Trudeau, tanto quanto as de Putin, como manipulação do eleitorado, ações fingidas com o intuito de angariar simpatia. Mas essa interpretação não captura o significado mais profundo da comunicação. O sociólogo canadense Ervin Goffman disse em 1959 que as figuras públicas são como atores num palco, e sua imagem é uma versão transformada de seu verdadeiro eu. De modo mais abrangente, Goffman escreveu, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, que nossa personalidade é moldada como no teatro: somos vários, dependendo do momento e das circunstâncias. Em outras palavras, a comunicação é o elemento que forma a personalidade.

“Curiosamente, muitos líderes que encontrei pareciam estar em seus melhores momentos quando eram mais ‘inautênticos’ ”, escreveu Jeffrey Pfeffer, professor de administração na Universidade Stanford, em seu recente livro Leadership BS, no qual combate noções politicamente corretas de liderança. “Ser autêntico é praticamente o oposto do que o líder deve ser”, afirma. “Os líderes não têm de ser verdadeiros consigo mesmos. Eles têm de ser verdadeiros em relação ao que a situação e ao que outros à sua volta querem e precisam deles.”

Quanto o estilo se mistura com a essência, no caso de Trudeau, fica mais claro em outros exemplos da construção de sua imagem:

• Dias antes das eleições, um jornalista lhe perguntou sobre a renúncia do copresidente de sua campanha, Dan Gagnier, que havia dado conselhos a uma companhia de petróleo sobre como fazer lobby com o novo governo, caso ganhasse. No primeiro momento, o Partido Liberal afirmou que Gagnier não tinha feito nada de ilegal, e o jornalista perguntava por que eles tinham mudado de ideia. Alguns partidários de Trudeau começaram a apupar o repórter, mas ele os repreendeu em tom ríspido: “Ei, pessoal, nós respeitamos os jornalistas neste país, eles fazem perguntas duras e é o que se espera deles”.

• Uma de suas frases de maior sucesso foi quando se declarou feminista. Mas não se limitou às palavras. Montou seu gabinete com igual número de homens e mulheres, o primeiro assim na história do Canadá. E não ficou nisso: seu time de governo é o que apresenta a maior diversidade da história do país. Trudeau disse que queria apresentar ao Canadá um gabinete que se parece com o Canadá. Dos 30 ministros, dois são aborígines (a ministra da Justiça, Jody Wilson-Raybould, é uma líder dos direitos indígenas e decidiu concorrer ao Parlamento por sentir que a questão era menosprezada pelo chefe de governo anterior, o conservador Stephen Harper; e o ministro da Pesca é da minoria inuit), dois têm deficiências, três são da minoria religiosa sikh (um deles é Maryam Monsef, refugiada do Afeganistão, que deixou seu país natal ainda criança depois que o pai e o tio sumiram durante a invasão e a ocupação soviética nos anos 70 e 80). Quando lhe perguntaram por que fazia questão de ter um ministério com o mesmo número de mulheres que de homens, respondeu: “Porque estamos em 2015”. Ah, sim. Trudeau apresentou um gabinete com nove cadeiras a menos do que seu antecessor.

• Como às vezes acontece na política britânica e canadense, os nomes dos ministérios sofreram algumas mudanças para refletir as prioridades do governo. O Ministério do Meio Ambiente é agora do Meio Ambiente e da Mudança Climática. O Ministério da Imigração e da Cidadania é agora da Imigração, da Cidadania e dos Refugiados. O Ministério dos Esportes é agora Ministério dos Esportes e das Pessoas com Deficiência (a titular da pasta, Carla Qualtrough, é uma atleta paraolímpica legalmente considerada cega).

• Trudeau prometeu elevar substancialmente o número de refugiados que o Canadá recebe, especialmente da conflagrada Síria, para 25.000 por ano. É um número não realista, dadas as necessidades de avaliar o histórico dos candidatos para evitar a entrada de terroristas no país, e nenhuma das metas que o novo governo anunciou foi cumprida até agora. Em março, driblou a pergunta sobre se salvar sírios continuava a ser a prioridade absoluta. Disse que o Canadá “precisa voltar a ser capaz de trazer pessoas extraordinárias do mundo todo que queiram construir uma vida melhor para si mesmas, suas famílias e suas comunidades”. Parece um passo atrás. Ou uma dose de sensatez, dependendo de como você encare a questão.

O posicionamento correto
Qualquer estratégia de comunicação se insere na batalha mais ampla da disputa pela percepção que se deseja impor. Assim como Bill Clinton com o Partido Democrata, nos Estados Unidos, a ascensão de Justin Trudeau representou uma reorientação política do Partido Liberal — só que, em vez da guinada para o centro, como Clinton, Trudeau promoveu uma guinada para a esquerda para capturar os votos que estavam indo para o NDP, o partido dos novos democratas, de tendência socialista.

Essa guinada incluiu a promessa de avaliar a legalização da maconha, dar mais atenção a questões ambientais, aumentar impostos dos ricos e, principalmente, assumir déficits no orçamento para estimular a economia, abalada pela queda no preço do petróleo (com obras de infraestrutura, e não incentivo ao consumo).

Até uma espécie de Bolsa Família está nos planos: mães solteiras que ganhem menos de 30.000 dólares canadenses por ano deverão receber ajuda anual de 6.400 dólares, e famílias com dois filhos que ganhem menos de 90.000 dólares canadenses vão receber 5.650 dólares, para “retirar centenas de milhares de crianças da pobreza”. Nem tudo é do receituário da esquerda: Trudeau disse apoiar uma lei para dar mais poderes aos serviços de inteligência no combate ao terrorismo e deu aval ao duto que deverá levar óleo do Canadá para os Estados Unidos, uma obra que irrita ambientalistas, mas garante uma renda para lá de necessária ao país.

Os liberais perderam o governo canadense em 2006 e, em 2011, tiveram um dos maiores baques de sua história, quando conquistaram apenas cerca de 10% dos votos. O partido definhava, principalmente porque os votos da esquerda estavam sendo divididos com o NDP. Foi graças ao fiasco de 2011 que o partido decidiu apostar numa liderança tão jovem para substituir o acadêmico Michael Ignatieff.

Trudeau era um novato no Parlamento. Virou congressista apenas em 2008, pelo distrito de Papineau, em Montreal. Antes disso, foi professor e ativista numa ONG — não era advogado nem homem de negócios. Antes ainda, foi instrutor de snowboard, porteiro de boate, guia de canoagem, ator, monitor de acampamento. Mas carregava o nome de maior prestígio da política canadense.

A herança bendita
Pierre Trudeau, o pai de Justin, é considerado o maior governante da história do país. Ele foi primeiro-ministro de 1968 a 1979, depois de 1980 a 1984. Natural da parte francesa do Canadá, enfrentou com convicção o então implacável movimento separatista do Quebec, evitando tanto a secessão quanto os conflitos armados (e estabeleceu que o país seria bilíngue). Também distanciou o Canadá da política externa de Richard Nixon e Ronald Reagan e, em 1982, formalmente lançou a Carta Canadense de Direitos e Liberdades, uma Constituição independente daquela do Reino Unido (ainda reconhecendo a rainha Elizabeth II como monarca do país).

Trudeau pai foi, talvez mais que o filho, consciente de sua imagem. A pose de ioga que Justin fez no Parlamento era uma reprise da que Pierre havia feito em 1970. Ele tinha uma série de conselheiros de imagem e comunicação, incluindo o influente filósofo da comunicação Marshall McLuhan.

Segundo um artigo do professor Alex Marland, da Universidade de Newfoundland, em que compara as marcas de Justin e Pierre Trudeau, estrategistas do Partido Liberal recrutavam moças simpatizantes do liberalismo para se comportar como fãs obcecadas por Pierre na frente dos repórteres, de modo a cultivar uma imagem de fenômeno pop. Ele namorou Barbra Streisand. Costumava vestir uma capa. Usava uma rosa no terno.

Pierre Trudeau é o que mais se aproxima do mito dos Kennedy no Canadá. Mas, se sua aura ajuda o filho, a comparação com ele também lhe pesa. Pierre era considerado um intelectual, educado em Harvard e na London School of Economics, que às vezes fazia anotações em latim em seus documentos. Justin é, em relação ao pai, considerado superficial.

Quando o casamento de Pierre com Margaret Sinclair, a mãe de Justin, acabou em 1977, ela foi morar em Nova York. Estava provavelmente envolvida com drogas, saía com os Rolling Stones e teve um caso com Ted Kennedy. Pierre, por sua vez, namorou as atrizes Kim Catrall e Margot Kidder. Mas manteve a guarda dos três meninos.

Justin e um de seus irmãos, Sascha, nasceram em 25 de dezembro. Pierre dizia que Deus só tinha um filho nascido no Natal, ele tinha dois. Era uma brincadeira com a própria religião: Pierre era um cristão devoto. Mas sua fé foi abalada quando seu terceiro filho, Michel, foi atingido por uma avalanche e caiu num lago durante uma prova de esqui em 1998. O corpo nunca foi achado. Pierre ficou arrasado e morreu dois anos depois, após recusar tratamento para um câncer de próstata.

O enterro de Pierre marcou a estreia de Justin na vida pública. Seu elogio do pai evidenciou que ele poderia criar a primeira dinastia política do país. De fato, sob sua liderança, o Partido Liberal foi catapultado nas eleições de 2015, de 36 para 184 cadeiras, das 308 do Parlamento.

Mas Justin sabe que precisa trilhar um caminho próprio. Como disse em 2013, ao assumir a liderança do partido: “Nasci em circunstâncias especiais… Tive muita sorte. Mas não espero que ninguém me apoie por causa do meu pai. Pretendo merecer esse apoio. O modo de fazê-lo é trabalhar duro, dia após dia, mês após mês, ano após ano”.

A capacidade de evoluir
Justin Trudeau talvez não seja tão brilhante como o pai, mas parece seguir a mesma dicotomia entre seu comportamento em público, de um ídolo pop, e seu comportamento a portas fechadas, de um político razoável, gregário porém seguro de suas convicções. Segundo a comentarista política Carol Goar, Trudeau tem se destacado como grande ouvinte e hábil negociador em encontros políticos — seja com executivos da indústria do petróleo, seja com os colegas do G20, aos quais teve de explicar a retirada de aviões canadenses da coalizão de ataques no Iraque e na Síria, seja com políticos de matizes diferentes, dentro e fora do Partido Liberal.

“O que costuma ficar claro nos primeiros meses de governo de um primeiro-ministro é seu estilo de liderança, seu modo de governar e seu caráter”, escreveu Carol. “Trudeau é um capitão de time, não um time de um homem só.” Ele pondera antes de agir. Ele preza muito a comunicação direta com os canadenses. E ele gosta de se divertir enquanto trabalha. “Nada disso deve mudar.”

Outra característica de Trudeau é sua capacidade de se adaptar — e aprender. O exemplo mais simbólico é seu cabelo, que foi diminuindo de tamanho conforme a eleição se aproximava. Mas a mesma transição pode ocorrer em áreas mais substantivas. No final de abril, um refém canadense foi assassinado por terroristas islâmicos nas Filipinas, quando venceu o ultimato para o pagamento de 6,5 milhões de dólares. Trudeau afirmou que seu governo não negociaria, nem diretamente nem indiretamente, com terroristas.

Foi uma evolução em sua postura. Logo que se tornou líder dos liberais em 2013, bombas na maratona de Boston mataram três pessoas e feriram mais de 200. Trudeau declarou que era preciso “buscar as causas que estão na raiz” dos ataques, levando a críticas de que estaria racionalizando o terror. Em novembro, quando Paris sofreu ataques de terroristas islâmicos, ele pareceu abalado, mas não pronunciou uma condenação veemente.

Em janeiro, um ataque terrorista em Burkina Faso matou seis trabalhadores humanitários canadenses. Sua resposta ao ataque foi tão branda que o marido de uma das vítimas desligou o telefone quando Trudeau ligou para oferecer condolências. Finalmente, os ataques em Bruxelas, em março, levaram-no a uma posição mais firme: “Isso não pode e não vai ser tolerado; os responsáveis por esses ataques devem ser levados à Justiça, e nós vamos fazer tudo o que pudermos para que isso aconteça”.

Em sua coluna no jornal Toronto Sun, o editor de assuntos parlamentares David Arkin citou a opinião de alguns analistas sobre os seis meses de governo Trudeau. “Conforme o tempo passa, ele mostra um sofisticadíssimo cérebro político, que é ao mesmo tempo estratégico e político”, disse Geoff Norquay, um lobista que já foi conselheiro de dois primeiros-ministros, incluindo Harper, seu antecessor.

Trudeau tem se mostrado capaz de manter altos índices de popularidade, comunicar seus objetivos com clareza, negociar com adversários e inspirar “funcionários” e “clientes” (seus eleitores e cidadãos mundo afora). Mas, claro, seu teste crucial é a capacidade de entregar resultados. Sem isso, no médio prazo não haverá pose de ioga que o mantenha no cargo.

(David Cohen)