O disco de vinil saiu do museu

Jardel Sebba 

Em pleno segundo semestre de 2016, o que poria mais em risco o emprego de seu consultor financeiro? Que ele indicasse a você para aplicar seu dinheiro em: a) fábrica de pagers; b) paleteria mexicana; c) editora de livros dedicada exclusivamente a novos poetas; d) fábrica de discos de vinil? A resposta correta certamente seria a letra e) todas as alternativas anteriores. Mas pelo menos em uma delas você não estaria sozinho.

Aos 39 anos, o músico, poeta, compositor, produtor, DJ e agora empresário paulistano Michel Nath é responsável pela Vinil Brasil, fábrica que abre oficialmente entre o fim de agosto e o começo de setembro na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Nath tem hoje sete prensas de vinil de 1954, oriundas da finada gravadora Continental. Ele pretende abrir a fábrica com duas delas funcionando em um turno, o que vai resultar numa capacidade de produção aproximada de 33.000 discos por mês. Hoje, a única fábrica de discos ativa no país é a Polysom, em Belfort Roxo, na Baixada Fluminense.

O mercado de vinil no mundo cresceu 30% ano passado, e estima-se (não há dados confiáveis) que o mercado brasileiro tenha crescido mais ou menos na mesma proporção. Informações concedidas previamente indicam que as três prensas atualmente ativas na Polysom produziram 118.495 discos em 2015 — um aumento de 30,5% em comparação aos números da empresa em 2014. Concedidas previamente porque João Augusto, dono da fábrica, não tem dado entrevistas. Também dono da gravadora Deckdisc, ele comprou a Polysom em 2008, alguns anos antes de ter se tornado a única fábrica da América Latina e um ano depois de ter falido. Ao que parece, ele não tem gostado das comparações que surgiram entre a Polysom e a Vinil Brasil. Não chega a ser um cenário de difícil compreensão: se outra pessoa resolveu fazer a mesma coisa que você fez sozinho durante anos, e contra todos os prognósticos, é normal que o assunto volte à luz e haja comparações.

Quero ser grande

É um fato que a venda de discos de vinil vem crescendo no mundo inteiro. Segundo dados da Associação Americana da Indústria Fonográfica (RIIA), as vendas de vinil nos Estados Unidos somaram 416 milhões de dólares em 2015. A porcentagem ainda é pequena, mas começa a fazer sombra. E o que os especialistas dizem é que um levantamento nas fábricas poderia indicar que o mercado é pelo menos três vezes maior do que isso graças às encomendas diretas aos fabricantes.

O Brasil é um mercado importante no universo fonográfico, o nono do mundo em venda de música gravada, segundo o Digital Music Report de 2015, relatório com os números do mercado da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (Inpi). A Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) indica que as vendas de música digital cresceram 45,1% entre 2014 e 2015 no país, somando no ano passado 316,5 milhões de reais, enquanto as vendas em suporte físico caíram 19,3% no mesmo período, somando 202,7 milhões de reais. “Acompanhamos com interesse a evolução do vinil em mercados como Estados Unidos e Inglaterra, mas essa tendência ainda é um mercado de nicho no Brasil, com pequenas tiragens, embora haja uma percepção geral de que o movimento de vinil aumentará expressivamente neste ano e nos próximos”, diz Paulo Rosa, presidente da ABPD. Segundo Rosa, o número de vendas de vinis no Brasil é uma pequena fração do número de CDs, e o formato de distribuição que mais cresce no mercado é o streaming interativo, remunerado por subscrição, publicidade ou ambas.

Em resumo, números e mais números, todos a serviço da mesma conclusão: o vinil é charmosíssimo, mas o negócio da música caminha para outro lugar. É muito legal ter lojas charmosas, fábricas nacionais, bandas preocupadas em ter seu registro em vinil, mas, como negócio, é um fetiche. É mais preciso falar em resistência do que em protagonismo.

O preço ainda é uma questão

Claro, tem gente ganhando dinheiro com isso. O próprio dono da Polysom já fez questão de afirmar que, além de fetiche, vinil é um bom negócio. Michel Nath tem como perspectiva recuperar o valor investido na Vinil Brasil, que ele não revela, em um período entre um e três anos de funcionamento. Números de dois anos atrás indicavam que os lojistas mais conceituados conseguiam, com alguma tranquilidade, de 20.000 a 30.000 reais por mês de lucro vendendo discos, mesmo em anos de crise.

Até porque o vinil não é nada barato. Algumas das principais expectativas a respeito da nova fábrica, inclusive, passam pelo preço final ao consumidor. “Eu apreciaria se ela passasse a prensar discos de artistas estrangeiros e de outros gêneros além do pop ou popular. Acho que há um gap nesse segmento. Um LP de jazz, por exemplo, é uma experiência e tanto. E a disponibilidade dele por um preço acessível pode criar novos públicos”, diz o jornalista e escritor Arthur Dapieve.

“Espero que eles lancem discos de soul music brasileira, cujo preço está acima dos níveis de decência. Tente comprar o Black Soul Brother, do Miguel de Deus, ou o primeiro do Fábio Junior!”, desabafa o jornalista Sérgio Martins, crítico de música de VEJA. Ou seja, o preço final do vinil é uma questão. E Michel Nath sabe disso. “O preço é uma questão fundamental”, diz o dono da Vinil Brasil. “Mas, se faço um disco por 30 reais e ele chega à loja por 150, a culpa não é da fábrica. Tenho a pretensão de fazer um disco mais acessível, mas há uma série de fatores que dizem respeito às condições econômicas, políticas e sociais que não posso ignorar”, conclui.

Às vezes, falar de vinil parece uma conversa nostálgica, que levaria a um mercado saudosista. “Minha geração sempre teve uma relação fetichista com os discos de vinil. Era mais ou menos como você adquirir uma Playboy”, lembra Sérgio Martins, jornalista desde 1990. “Você tirava o plástico que envolvia a capa, admirava o encarte, via quem tocava, quem produzia. As audições traziam ainda outra vantagem: você se reunia com as pessoas para escutar o disco e depois elogiá-lo ou criticá-lo. Sempre gostei desse ritual”, conclui o Martins.

Nath não acredita que seja só uma questão de fetiche. “O aspecto nostálgico é apenas um nicho de consumo, e nem é o mais forte”, diz o dono da Vinil Brasil. “Há o público que tem propriedade sobre a cultura do disco, que inclui o produtor, o músico, o pesquisador; tem a pessoa para quem o vinil é a moda, o hype; tem o público que está despertando para isso; e tem a geração de 20 e poucos anos, que não cresceu com o vinil, mas está interessada”, lista Nath.

Jurado da versão brasileira do programa de TV The X-Factor, que estreia no mês que vem na Band, o produtor Rick Bonadio trabalha com artistas jovens e garante que para eles o vinil não é uma questão. “Apenas um grupo muito pequeno vai consumir disco de vinil, o mundo moderno não aceita bem objetos grandes para carregar e guardar. Vejo apenas como uma pequena moda passageira”, aponta o produtor, que teve papel importante em discos como as estreias fonográficas de Mamonas Assassinas e Los Hermanos.

Ao pé do ouvido

Há ainda a questão técnica. Durante muito tempo, uma corrente de audiófilos defendeu que a qualidade de som do vinil era superior. Segundo Paulo Rosa, isso não é uma verdade absoluta. “Depende muito da qualidade do equipamento de reprodução, da mixagem analógica e da eficiência da remasterização digital, não dá para generalizar”, diz o presidente da ABPD. Já Bonadio aponta que os LPs nunca foram o formato ideal para quem grava. “Vinil nunca reproduz fielmente o som que a gente faz no estúdio. Com o aparecimento do CD, o som passou a ser muito fiel e agora, com o streaming, começamos novamente a perder qualidade.”

Segundo o produtor, o formato digital de alta resolução seria sua escolha definitiva. “O surgimento do CD nos abriu outro universo musical”, relembra Sérgio Martins. “A gente pode escutar discos raros, muitas vezes com uma qualidade de som superior. Fora que eles ocupavam menos espaço na estante da nossa casa”, conclui o crítico. Arthur Dapieve também aponta o protagonismo do CD nesse processo. “Acho a qualidade do CD superior, embora a experiência de ouvir um LP produzido e lançado quando não havia alternativa a ele seja poderosa. Foi uma surpresa, de qualquer forma, que o vinil tenha voltado com força. Foi espetacular. E isso me faz crer que mais cedo ou mais tarde o CD também recuperará parte do espaço perdido para downloads e streamings”, prevê o jornalista.

A única unanimidade parece ser a falta de qualidade da música digital. “Odeio ouvir música em formato digital, mas não tenho essa fixação toda pela ‘pureza’ do vinil, acho que muitos CDs conseguem soar superiores aos exemplares de vinil”, diz Sérgio Martins. “Acho até que gerações cevadas apenas com os MP3s da vida podem se tornar ‘surdas funcionais’. Porém, acho que o digital do CD é bastante bom. No tipo de música que mais ouço hoje, a clássica, acho o CD virtualmente imbatível, pois você escuta perfeitamente do piccolo ao contrabaixo, do mais agudo ao mais grave”, garante Arthur Dapieve.

A melhor resposta que ouvi sobre qualidade de som na era digital veio de Brian Eno, produtor de bandas como U2 e Talking Heads e uma das mentes mais criativas da música nas últimas quatro décadas. Quando veio ao Rio para uma exposição em 2012, perguntado se a compressão dos arquivos de música digital o incomodava, ele me disse: “As primeiras músicas que ouvi, e que me fizeram querer ser músico, saíram de um rádio antigo no meu quarto quando tinha 10, 11 anos, na Inglaterra. Não importava ali a qualidade do som, mas a qualidade da música que eu estava ouvindo”. Em resumo, é a qualidade que garante o futuro, não o formato.