O carro elétrico para as massas

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

Quem pensa em carro elétrico pensa em Tesla Motors, empresa do Vale do Silício que provou a ideia de que é possível produzir e vender carros 100% movidos a eletricidade. Mas pouca gente de fato dirige um Tesla. Desde 2008, quando o primeiro modelo chegou às ruas, a companhia vendeu apenas cerca de 140.000 unidades. E a maioria custa muito mais caro do que um carro comparável híbrido ou a gasolina. Foi por esse motivo que, no fim de março deste ano, o fundador e CEO da empresa, Elon Musk, surpreendeu o mundo com o anúncio do primeiro modelo “popular”. A novidade não foi exatamente o posicionamento do Model 3 — que começa em 35.000 dólares —, pois, desde os primeiros dias da Tesla, Musk falava em um mercado de massa para carros elétricos. A surpresa foi o sistema de vendas do Model 3: os interessados tinham de fazer um depósito de 1.000 dólares para garantir um lugar na fila. Cerca de 400.000 pessoas pagaram o depósito inicial. A promessa é entregar os primeiros carros a partir do segundo semestre de 2017.

O carro elétrico acessível finalmente chegou — mas não é o Tesla Model 3. A GM, uma das mais tradicionais montadoras americanas, anunciou na semana passada os detalhes do Chevrolet Bolt EV, um compacto inteiramente elétrico que foi apresentado como conceito em janeiro do ano passado. O Bolt vai custar 37.500 dólares (dos quais 7.500 podem ser abatidos graças a um programa de incentivo do governo) e terá autonomia de 383 quilômetros, cerca de 40 a mais do que o Model 3. As diferenças de especificações técnicas, porém, são pequenas diante do novo desafio que o Bolt representa para a Tesla: concorrer com uma empresa que produz carros há 108 anos.

Os americanos poderão sair das concessionárias GM dirigindo seu novo Bolt ainda neste ano. O Model 3 da Tesla só deverá chegar aos primeiros compradores daqui a um ano — se a empresa não atrasar de novo. Prazos perdidos são uma constante na Tesla. Uma análise do The Wall Street Journal aponta que a empresa deixou de cumprir prazos mais de 20 vezes nos últimos cinco anos. Em dez deles, o atraso médio foi de quase um ano. O utilitário esportivo Model X, que deveria ter sido lançado em meados de 2014, chegou ao mercado só em setembro de 2016. O próprio Model 3 havia sido prometido para o fim de 2014.

Musk projeta que a Tesla produzirá de 100.000 a 200.000 unidades no ano que vem, e 500.000 em 2018. Mas, num documento entregue à Securities and Exchange Commission, órgão que regula o mercado de capitais americano, a companhia faz ressalvas importantes: “Não temos experiência até aqui na produção de veículos nos altos volumes que esperamos para o Model 3 e, para termos sucesso, precisaremos desenvolver capacidades de manufatura, processos e cadeias de suprimento eficientes, automatizadas e de baixo custo a fim de sustentar tais volumes”. A Tesla teve de reconfigurar sua linha de montagem na Califórnia para produzir o Model 3. Esse não é um problema para a GM. A empresa produz o Bolt em Detroit, na mesma fábrica em que são produzidos modelos a gasolina, usando os mesmos robôs e funcionários.

Outra questão essencial é financeira. Em valor de mercado, os números da Tesla são fenomenais. A empresa tem meros dez anos de vida, mas está avaliada em 30,8 bilhões de dólares, ou 60% do que vale a GM, empresa que só está viva hoje graças à ajuda amiga do governo americano depois da crise financeira de 2008. Esse número, no entanto, reflete a promessa futura da pioneira dos carros elétricos. O retrato presente é bem mais sombrio. Num e-mail aos funcionários no final de agosto e obtido pela Bloomberg, Elon Musk faz um apelo. “A realidade pura e simples é que a Tesla estará numa situação muito melhor para convencer potenciais investidores a apostar em nós se a manchete não for ‘Tesla perde dinheiro de novo’, e sim ‘Tesla desafia todas as expectativas e atinge a lucratividade’ ”, escreveu Musk.

A empresa ficou aquém das projeções dos analistas de Wall Street nos dois primeiros trimestres fiscais do ano, e o resultado do terceiro trimestre pode ser decisivo para os investidores — ainda mais com a pressão extra da chegada do concorrente da GM. A Tesla precisará de uma nova injeção de capital no final do ano para produzir o Model 3 e para concluir uma nova fábrica de baterias. Enquanto a empresa que é sinônimo de inovação no setor automobilístico se vira para cumprir o prometido, é a veterana GM que está prestes a inaugurar de fato a era dos carros elétricos.