O bilionário negócio do Uber chinês

A Didi Chuxing, a "Uber chinesa", detém mais de 85% do mercado de corridas privadas China

A China se especializou em bater recordes que vão além do crescimento do PIB. O maior radiotelescópio do mundo, o maior mirante de vidro e a maior barragem estão lá. Mas também é chinês o recorde de congestionamento de carros. Foram 10 dias de trânsito lento na volta de uma semana de feriado nacional, em outubro de 2015. Essa foi a parte mais visível de um problema comum às grandes cidades: mobilidade.

Como tudo na China tem proporções gigantescas, a promessa de ganhos de igual tamanho chamou a atenção do Uber — a empresa americana que promete tirar carros da rua ao apostar no compartilhamento de veículos — que entrou no país em 2014. Mas desde então a empresa perde, por ano, 1 bilhão de dólares na China. O motivo para o plano não sair como o planejado? A Didi Chuxing, uma companhia que se baseou no modelo de operação do concorrente e hoje detém mais de 85% do mercado de corridas privadas China.

A empresa surgiu em 2012, quando Cheng Wei, um executivo da varejista online Alibaba, percebeu o quão difícil era conseguir um táxi na China e fundou a Didi. Em fevereiro de 2015, quando viu o carro preto do Uber no retrovisor ele fez uma série de reuniões secretas em bares escondidos com seu concorrente Dexter Lu, da Kuaidi. Dessas conversa, surgiu a fusão que deu origem à Didi Chuxing.

Embora a transição não tenha sido fácil, nenhum executivo foi demitido e a operação foi considerada a fusão mais bem sucedida da internet na China. A empresa resultante da união é a maior companhia de transportes privados do mundo, com mais de 15 milhões de motoristas registrados e mais de 300 milhões de usuários em 400 cidades chinesas. Foram 1,4 bilhão de corridas no ano passado. A empresa já vale estimados 20 bilhões de dólares. Embora tenha valor estimado de 60 bilhões de dólares, a Uber existe desde 2009 e só em 2015 alcançou 1 bilhão de corridas.

Inspirado no Uber

A primeira ação da nova companhia foi copiar o modelo de trabalho da Uber, diminuindo os investimentos em táxis e passando a atuar com força no modelo de carros privados, que hoje já corresponde a mais de 50% da renda. As semelhanças com os concorrentes acabam por aí. A Didi não só é responsável por 99% dos táxis em operação na China, como também tem linhas de ônibus e serviços de chofer, para aqueles que precisam de motoristas particulares, e também serviços de test-drive, construindo uma comunidade de donos de carro junto a mais de 200 montadoras tradicionais do setor. Um serviço de caronas, semelhante ao oferecido por aqui pela startup Blablacar, também é disponibilizado aos usuários da Didi Chuxing.

Segundo Casper Sun, porta-voz da Didi Chuxing, a companhia já detém mais de 70% da fatia de mercado em corridas privadas e ônibus na China. “Os novos motoristas não têm custo algum para nós. Nossos investimentos são principalmente em tecnologia, para diminuir o tempo de espera e aumentar a capacidade de processamento”, disse em entrevista a EXAME Hoje.

Sem planos concretos de expansão fora da China, a maneira encontrada para atuar nos Estados Unidos foi uma parceria com a americana Lyft, firmada este ano. O acordo permite que os chineses em viagem aos Estados Unidos utilizem o sistema da Didi para pedir carros em mais de 200 cidades norte-americanas. Segundo Casper, a expansão deve se dar de duas maneiras: por meio de um aprofundamento das operações em regiões não atendidas na China e do investimento em tecnologia para maximizar o potencial do aplicativo.

Na China, a briga por esse mercado se intensifica junto com a urbanização do país. Cerca de 600 milhões dos 1,4 bilhão de chineses ainda vivem longe das cidades, o que abre um campo fértil de expansão para os próximos anos. “Nós fazemos melhor do que nossos competidores estrangeiros porque conhecemos nossa economia. A tecnologia não precisa ser disruptiva”, diz Casper. Para se adequar às regras do capitalismo chinês, a Didi trabalha junto às autoridades centrais e locais no estabelecimento dos seus serviços, principalmente ônibus e táxi, áreas em que, tipicamente nos países em desenvolvimento, há um vácuo de investimentos estatais.

Esse mercado sempre foi competitivo na China, com subsídios a motoristas e usuários e grandes investimentos de nomes como Alibaba e Tencent, as duas maiores companhias de internet na China e também os principais acionistas da Didi. Nessa corrida, dinheiro conta. Esta semana, a Uber anunciou um investimento de 3,5 bilhões de dólares do fundo de investimentos da Arábia Saudita, elevando seu valor de mercado para 60 bilhões. Em maio, a Didi havia recebido 1 bilhão da empresa de tecnologia Apple, cada vez mais interessada no mercado chinês. Nesta quinta-feira 2 a Didi anunciou que vai fazer mais uma rodada de capitalizações, tentando angariar 3,5 bilhões de dólares. Os prejuízos, por enquanto, são astronômicos. Estima-se que a Didi perdeu mais de 1 bilhão de dólares em 2015 em sua operação. O Uber também perde cerca de 1 bilhão de dólares por ano no país. Por enquanto, nenhum dos dois parece muito preocupado com isso. Melhor para os chineses.

(Thiago Lavado)