O ambicioso projeto da Foxconn que não decolou no Brasil

Com 950.000 trabalhadores na China, a gigante investe em novos mercados. Mas, como mostra a experiência em Itu, exportar a estratégia é impossível

Antes de a gigante fábrica taiwanesa Foxconn se comprometer a investir 10 bilhões de dólares e criar 13.000 empregos no Wisconsin, a empresa havia feito uma promessa similar no Brasil. Em uma conferência de imprensa no Brasil, funcionários da Foxconn revelaram planos de investir bilhões de dólares e construir um dos maiores centros manufatureiros do mundo no estado de São Paulo. O governo tinha grandes expectativas de que o projeto produziria cerca de 100.000 empregos.

Seis anos mais tarde, o país ainda está esperando a materialização da maioria desses empregos. “A área onde a Foxconn disse que construiria a indústria está totalmente abandonada. Eles não manifestaram interesse nem em nos conhecer”, contou Guilherme Gazzola, o prefeito de Itu, uma das cidades que esperava se beneficiar com o projeto.

A experiência da Foxconn no Brasil e em outras partes do mundo ilustra como é difícil replicar em outro lugar o modelo de fabricação que adotam com sucesso na China.

Lá, a empresa construiu fábricas com o apoio de grandes subsídios do governo. Suas operações – montar iPhones da Apple, Kindles da Amazon e PlayStations da Sony – empregam legiões de jovens trabalhadores nas linhas de montagem. Eles trabalham frequentemente 60 horas por semana por cerca de 2,50 dólares a hora. Protestos trabalhistas na China são raros ou rapidamente suprimidos.

Mas o modelo não se aplica facilmente a outros países, onde a Foxconn deve navegar em diferentes condições sociais, políticas e trabalhistas.

No Brasil, os planos da empresa foram abandonados rapidamente. O governo que a cortejava foi destituído do poder por um impeachment em meio a alegações de corrupção. Alguns dos incentivos fiscais prometidos não se realizaram, por conta da queda no crescimento econômico e no consumo.

Hoje, a empresa tem cerca de 2.800 trabalhadores contratados no Brasil.

A Foxconn traz “grande música, traz dançarinos do dragão chinês, faz cortes de fita para inauguração, brindes e fechamento de acordos comuns”, disse Alberto Moel, investidor e consultor de empresas de tecnologia em fase inicial. Até recentemente ele era um analista de tecnologia da firma de pesquisa Sanford C. Bernstein. “Então, quando tem que lidar com as coisas realmente importantes, algo muito menor se materializa.”

A empresa divulgou um comunicado falando de seu comprometimento com o investimento de bilhões de dólares na construção de instalações fora da China. Mas a também afirmou que foi forçada a se adaptar às novas condições de mercados como o do Brasil, onde a economia estagnou.

“Isso e a mudança nas necessidades dos clientes que nossos investimentos deveriam servir, resultaram em operações reduzidas no país”, afirmou a Foxconn em sua declaração.

No que se refere ao projeto do Wisconsin, a Foxconn disse que pretende construir um dos maiores campi de manufatura do mundo na parte sudeste do estado. A empresa espera que os edifícios que irão compor a área tenham um total de 1,9 milhão de metros quadrados – três vezes o tamanho do Pentágono –, ajudando a transformar a região em um dos maiores centros de produção de telas planas para monitores.

O parlamentar republicano Paul D. Ryan, chamou o negócio da Foxconn de “virada de jogo”, o que poderia ajudar a estimular uma nova era da fabricação no centro-oeste. Em julho, na Casa Branca, o presidente Donald Trump saudou o acordo como muito importante para a indústria americana, para os trabalhadores dos EUA e “para todos que acreditam no conceito, no rótulo, ‘Made in the USA’”. O governador do Wisconsin, Scott Walker, aprovou oficialmente o negócio.

A Foxconn tem boas razões para diversificar os locais de suas operações. Cerca de 95 por cento dos mais de um milhão de funcionários da empresa trabalham na China. Construir uma grande força de trabalho em outro lugar poderia reduzir a dependência da empresa nessa localidade única, diminuindo o risco caso outros países imponham tarifas ou barreiras para produtos feitos na China.

“Quanto mais perto eles chegam dos grandes mercados como os EUA ou o Brasil, menos têm que se preocupar com impostos de importação ou outras barreiras. Sair da China para abastecer esses mercados é como superar obstáculos de taxação”, afirmou Gary Gereffi, diretor do Centro de Estudos de Globalização, Governança e Competitividade da Universidade Duke.

Mas exportar a estratégia chinesa da Foxconn é virtualmente impossível.

A cadeia de fornecimento de produtos eletrônicos global permanece firmemente enraizada na Ásia. Ali, as vantagens como o baixo custo do trabalho e a abundância de engenheiros qualificados foram cruciais para o desenvolvimento da região como uma base da produção.

O que faz as operações chinesas da Foxconn realmente fluírem são os extraordinários subsídios e o apoio governamental. Os governos locais frequentemente financiam e constroem as fábricas da empresa, também gerenciam os dormitórios e recrutam dezenas de milhares de trabalhadores. Alguns funcionários do governo chegaram a ir de porta em porta nos pequenos condados para recrutar trabalhadores.

O auxílio do governo pode chegar a bilhões de dólares.

A Foxconn começou a deslocar as operações de produção em grande escala para fora da China em 2009, quando abriu fábricas em outros lugares da Ásia, como Vietnã e Índia. Agora, a empresa tem fábricas na República Tcheca, Hungria, Eslováquia e ainda uma grande no México, que emprega 18.000 trabalhadores.

Quando vários países começaram a exigir que alguns componentes fossem produzidos localmente como forma de incentivar a produção interna, a Foxconn intensificou seus esforços para construir fora da China. Os executivos da empresa seguiram a mesma cartilha que usaram por lá.

O presidente da Foxconn, Terry Gou, reuniu-se com líderes políticos, incluindo a presidente do Brasil na época, Dilma Rousseff e o primeiro-ministro Narendra Modi da Índia. Gou fez promessas e conseguiu isenções fiscais assim como outras concessões dos governos. Ele anunciou planos de bilhões de dólares para criar dezenas de milhares de postos de trabalho em vários países. Um dos locais que a Foxconn ocuparia foi nomeado pelo governo brasileiro de “Cidade do Futuro”.

Então, veio a realidade.

As greves de trabalhadores na Índia e no Vietnã ocasionaram a parada temporária das operações da Foxconn nesses países. Os tumultos político e econômico no Brasil levaram as autoridades do país a reduzir alguns dos incentivos fiscais ofertados anteriormente à empresa. O plano de investir 1 bilhão de dólares na construção de uma fábrica em Jacarta, na Indonésia, falhou, em parte porque a empresa não conseguiu assegurar a cadeia de abastecimento que necessitava, de acordo com analistas e autoridades do governo.

Os planos da Foxconn também fracassaram na Pensilvânia. Em 2013, a empresa, que tem um pequeno escritório em Harrisburg, disse que pretendia construir uma fábrica de 30 milhões de dólares no estado, que empregaria 500 trabalhadores. Ela ainda está para ser construída.

Autoridades da Pensilvânia se recusaram a responder por que a fábrica ainda não foi construída, mas afirmaram que ainda têm esperança que ela aconteça. (A Foxconn também não se pronunciou).

“Não acreditamos que a Pensilvânia esteja fora da corrida em qualquer projeto específico”, declarou David Smith, porta-voz do Departamento da Comunidade e do Desenvolvimento Econômico da Pensilvânia, em Harrisburg, sobre o compromisso da Foxconn no estado.

Para a empresa, a mudança para o Wisconsin oferece benefícios políticos.

Na campanha eleitoral, Trump criticou a China pelo que considerou práticas comerciais desleais. Ele jurou forçar a Apple a fazer seus produtos nos Estados Unidos e disse que sua administração poderia impor uma barreira com impostos sobre as importações, aumentando a perspectiva de uma guerra comercial.

Após a eleição, a Foxconn juntou-se ao desfile de empresas globais cheias de promessas.

Jack Ma, presidente executivo da gigante on-line chinesa Alibaba, chegou à Trump Tower, em Nova York, e se comprometeu a criar um milhão de empregos nos EUA. Masayoshi Son, o fundador da SoftBank do Japão, disse que sua empresa investiria 50 bilhões de dólares nos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, a Foxconn afirmou que planejava construir fábricas em território americano.

A administração de Trump ajudou no início das conversas entre a Foxconn e autoridades do Wisconsin. As negociações começaram em junho e um acordo foi firmado um mês depois. O Wisconsin prometeu 3 bilhões de dólares em incentivos fiscais e outros subsídios por um período de 15 anos.

Os democratas do estado questionaram se o preço do empreendimento se justificava e se os postos de trabalhos prometidos iriam se materializar. Uma análise do estado feita pelo apartidário Departamento Fiscal Legislativo, descobriu que os contribuintes não recuperariam o investimento feito pelo estado até pelo menos 2042.

Os legisladores do Wisconsin aprovaram a proposta mesmo assim. Quando Walker aprovou o acordo, chamou-o de “um passo verdadeiramente transformador para nosso estado”.

David Barboza © 2017 New York Times News Service

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