Nubank, Mercado Livre, Netflix: as empresas campeãs de downloads no Brasil

Levantamento da empresa de inteligência App Anie mostra quais aplicativos tiveram maior crescimento em varejo, finanças e vídeo entre usuários brasileiros

As empresas brasileiras — e as estrangeiras que operam por aqui — vêm travando uma briga de foice nos últimos anos: a conquista de um espaço nos mais de 200 milhões de smartphones no Brasil. Um novo relatório da companhia de inteligência de mercado mobile App Annie, divulgado na semana passada, mostra quais delas vêm sendo bem-sucedidas nesta missão.

O Brasil teve um crescimento de 40% no download de aplicativos entre 2016 e 2019, segundo o relatório “State of Mobile 2020” da App Anie.  No mundo inteiro, foram baixados mais de 204 bilhões de aplicativos em 2019, e o Brasil chegou a mais de 10 bilhões de downloads. A China é líder absoluta, com mais de 150 bilhões de apps baixados.

O relatório da App Anie apresenta os aplicativos mais baixados no Brasil em 2019, os que mais geraram receita com gastos dos usuários e os que mais cresceram em setores como varejo e finanças (veja os resultados nas tabelas abaixo).

No setor financeiro, dentre os cinco aplicativos com maior crescimento no Brasil, só o app da estatal Caixa Econômica Federal se enquadra no grupo dos grandes bancos. Os demais são carteiras digitais e fintechs, como o PicPay, vinculado ao grupo J&F e ao Banco Original, e o MercadoPago, da argentina Mercado Livre. O líder em crescimento é o aplicativo do banco digital Nubank, que atingiu 10 bilhões de dólares em valor de mercado no ano passado e chegou a 20 milhões de clientes neste ano.

No varejo, a lista dos aplicativos de compra com maior crescimento é liderada pela argentina Mercado Livre, que tem também o sétimo aplicativo com mais usuários no Brasil. Neste caso, o mundo mobile imita a realidade: a argentina é também a líder em vendas por aqui, com cerca de um terço do mercado nacional. Em seguida no crescimento de aplicativos de varejo vêm Americanas (da B2W) e Magazine Luiza. Em vendas, o cenário se repete: a B2W tem 19% do mercado brasileiro e o Magalu tem 9%, segundo números de 2018 do Bradesco BBI.

O ranking de aplicativos que mais crescem, contudo, não traz a Via Varejo, dona das Casas Bahia, embora a varejista esteja empatada com o Magalu em participação de mercado e tenha maior faturamento. Mostra do momento ruim que vive a empresa, que ficou para trás na transição para o comércio eletrônico e, agora novamente sob comando da família Klein, tenta melhorar sua presença na internet.

O estudo traz ainda algumas surpresas: os brasileiros gastam mais dinheiro no app de relacionamento Tinder do que na plataforma de streaming Netflix — ao menos em celulares, não incluídos os gastos de assinantes da Netflix que assistem conteúdos somente no computador ou na TV. A App Anie não divulga a receita de cada aplicativo. A plataforma Crunchbase estima que o Tinder fature cerca de 800 milhões de dólares ao ano no mundo. O faturamento da Netflix só na América Latina é de mais de 2 bilhões de dólares.

Na lista dos apps com mais gastos de usuários, também aparecem plataformas de streaming como Amazon Prime, HBO Go e a brasileira Globo Play. Uma surpresa neste ranking é o aplicativo Whitebook, com conteúdo customizado para médicos e feito pela startup PEBMED, do Rio de Janeiro — a empresa tem um público fiel de mais de 80.000 assinantes, conforme mostrou matéria de EXAME no início do ano.

Por fim, dentre os aplicativos mais baixados e com mais usuários ativos, estão as figurinhas carimbadas: as redes sociais do grupo Facebook, que é dono da rede homônima e de Instagram, WhatsApp e Facebook Messenger. Junto, o grupo de Mark Zuckerberg detém os quatro aplicativos mais usados no Brasil e mais de 100 milhões de usuários no país, além de mais de 1 bilhão de pessoas mundo afora.

NuConta, conta digital do Nubank Nubank: aplicativo financeiro que mais cresceu em número de downloads no Brasil no ano passado

Nubank: aplicativo financeiro que mais cresceu em número de downloads no Brasil no ano passado (Nubank/Divulgação)

No app é mais barato

O crescimento no uso de aplicativos no Brasil se explica sobretudo pela alta no uso de smartphones entre os brasileiros de menor renda. De 2010 a 2018, a penetração de smartphones na classe C passou de 42% para 77%; entre as classes D e E, de 13% para 49%, um dos principais fatores responsáveis pela ascensão dos serviços por aplicativo, como mostrou estudo do Instituto Locomotiva publicado em reportagem de EXAME em 2019.

Para uma empresa, fazer o cliente baixar o aplicativo de suas marcas — e permanecer com ele no celular — tem uma série de vantagens. É possível se comunicar diretamente com o usuário mandando notificações, em vez de pagar altas quantias por um anúncio em redes sociais ou outras mídias, diminuindo assim o chamado “custo de aquisição” do cliente. Pelo aplicativo, a empresa também pode entender melhor o comportamento do usuário e sua relação com a marca (que produtos ele costuma procurar, por exemplo).

Uma série de empresas vêm também apostando na estratégia de “super aplicativos”, que vão além da atividade central das companhias. A inspiração são empresas chinesas como o app de mensagens WeChat, que oferece serviços como compras e pagamentos, tudo no mesmo aplicativo.

O colombiano Rappi, por exemplo, começou com entrega de comida e hoje agrega a seu app parceiros que vão de passagens aéreas da MaxMilhas à rede de produtos para animais Petz ou o serviço de táxi corporativa da brasileira Wappa. O iFood, concorrente do Rappi e também conhecido por entrega de refeições, lançou uma carteira digital para compras em estabelecimentos parceiros, que incluem restaurantes e banca de jornal. Já empresas de varejo, como Magalu, B2W e Mercado Livre, estão indo além das vendas tradicionais e lançando carteiras digitais.

Não se sabe se a estratégia dos super aplicativos vai vingar, e é possível que, apesar dos milhões de dólares gastos na empreitada, algumas empresas fiquem pelo caminho. Mas convencer os clientes a baixar o aplicativo das empresas será, certamente, uma das tarefas primordiais das companhias em 2020.