Nova luz na carreira

Um dia na sombra do colega

Carreira e estagnação são palavras que pouco se freqüentam no vocabulário de Marcio Estevam Monaco. Ele é operário da linha de produção da Owens Corning, multinacional americana que produz fibra de vidro e, no Brasil, tem sede em Rio Claro, no interior de São Paulo. Monaco tem 35 anos. Há dez, quando entrou para a empresa, tinha o 2o grau e varria o chão da fábrica. Hoje, a poucos meses da conclusão do curso de administração de empresas — velho objetivo, no qual gasta um terço do salário –, ele planeja o próximo salto: trocar o trabalho manual pelo setor administrativo da fábrica.

Uma mudança de departamento, como quer Monaco, não é sonho incomum, mas pode se basear em falsas suposições — de que o trabalho dos outros é mais fácil e divertido, além, claro, de mais bem pago. Monaco não alimentará ilusões desse tipo, pois participou do Projeto Sombra. Desenvolvido pela Owens, o projeto permite que o funcionário passe um dia conhecendo a rotina e os problemas da área que quiser, na cola de um colega. Ele vai devidamente fantasiado de “sombra”, com camiseta e boné pretos. Monaco foi sombra na supervisão do forno, cargo ao qual pretendia se candidatar caso uma vaga fosse aberta.

“Criamos o Sombra porque os funcionários demonstravam interesse em conhecer outras áreas da empresa. Alguns, por falta de conhecimento, desvalorizavam o trabalho dos outros”, diz Jorge Guillermo Mulhall, gerente de recursos humanos da Owens. “O projeto amplia a visão do funcionário e mostra que todos fazem parte da mesma equipe.” Na Owens, quase todos os cargos são, digamos, sombreáveis. Ficam de fora os que lidam com dados confidenciais (como salários), alguns gerentes e os diretores.

Desde março do ano passado, 64 dos 530 funcionários da empresa — que faturou 195 milhões de reais em 2002 — participaram do projeto. Quase sempre são operários da fábrica que passam um dia nos setores administrativos — como atendimento ao cliente ou vendas. “O sombra, quando conhece o dia-a-dia de um cargo que almeja, fica estimulado a correr atrás do prejuízo e voltar a estudar”, afirma Monaco.

Como reage o “sombreado”, sabendo que o aprendiz por um dia pode estar de olho na sua vaga? “Para mim é melhor ter uma equipe com gente como Monaco, que quer chegar aonde estou, do que um bando de acomodados”, diz Aparecido José de Souza, supervisor de forno, chefe e “sombreado” de Monaco. “Quando abrimos uma vaga, é melhor escolher entre funcionários que conheçam a rotina e demonstrem vontade de se transferir”, diz Mulhall, do RH.

Monaco, depois de seu dia de sombra, decidiu: “Gostei do que vi. Quero ir para l”. Agora só falta a vaga.