Noel Tichy

Professor da Business School da Universidade de Michigan, em Ann Arbor. Nos anos 80, gerenciou o centro de desenvolvimento de liderança da GE, em Crotonville, Nova York

Meu conceito de liderança foi moldado por grandes acadêmicos: James McGregor Burns, Warren Bennis e Peter Drucker. Quando penso, porém, em algo de maior impacto, um ano e um lugar específicos me vêm logo à lembrança, porque foi ali que aprendi as duas lições mais importantes sobre liderança em toda a minha vida: Hazard, Kentucky, 1978.

A Fundação Robert Wood Johnson me pediu que capitaneasse uma campanha para fazer da Family Health Services, de Hazard, na época constituída por quatro clínicas rurais de saúde com pouca ligação entre si, um conjunto de equipes interdisciplinares de profissionais da saúde — enfermeiras, nutricionistas, assistentes sociais e agentes de saúde domiciliar. Era algo muito inovador. O único problema era que acreditávamos piamente que o seguro nacional de saúde se tornaria realidade. Não foi o que aconteceu. Logo que cheguei, o Sindicato Unido dos Mineradores cortou os benefícios de saúde. Uma organização afiliada à fundação, o Appalachian Regional Hospital System, ficou insolvente e não pôde pagar os salários dos funcionários, penalizando com isso o orçamento da clínica.

Desse modo, lá estava eu dirigindo uma clínica completamente sem dinheiro. Vi coisas que me marcaram profundamente — enfermeiras chorando sobre o corpo de bebês mortos porque nos faltava recursos para salvá-los, membros da equipe em aflição porque haviam sido demitidos. Em outras palavras, era como se estivéssemos levando as pessoas à miséria. Foi terrível.

Apesar de tudo, eu precisava manter o local em funcionamento. Tinha de levantar o moral de todos. Aprendi então a tomar decisões difíceis — é o que hoje chamo de “decisão extrema”. Esse tipo de decisão exige que o líder faça trocas — e das grandes, do tipo que salva ou acaba destruindo de vez uma organização. Não tardou para que eu descobrisse que para tomar decisões extremas era preciso ter um conjunto bem definido e sólido de valores baseados na missão da organização. Se as decisões tomadas não tiverem por base esses valores, serão simplesmente atos impensados — e isso não é liderança. Passei aquele ano inteiro tomando decisões extremas que redundassem em maior benefício para a clínica. Apesar do sofrimento das pessoas, ninguém me perguntava o que eu estava fazendo e por quê. Isso nos ajudou a seguir adiante.

Outra lição que aprendi na Hazard foi que o líder é a principal fonte de energia positiva da organização. No entanto, para desempenhar esse papel, deve ter uma fonte de energia emocional própria, ou acabará totalmente exaurido. Para isso, busquei o apoio de minha família e de meus amigos.

Com relação a exemplos negativos de liderança, lembro-me do início de 2000, quando passei algumas horas com Michael Saylor, CEO da Microstrategy. Na época, Saylor valia 16 bilhões de dólares, e sua empresa estava prestes a ditar as regras ao mundo. Ele me disse que seu plano era construir um ciberuniverso que poria fim ao mundo acadêmico. Fiquei muito impressionado, mas ao menos tive a presença de espírito de dizer: “Ei, talvez isso não passe de uma bolha”. Ele respondeu: “As únicas pessoas que acham que isso é uma bolha são os executivos da GE e gente como voc”. Eu me senti insultado, mas mesmo assim fui embora pensando: “Esse sujeito ainda vai virar o mundo de cabeça para baixo”.

Bem, naturalmente ele me enganou — e enganou muitas outras pessoas também. Poucas semanas depois, foi acusado pelos órgãos reguladores de inflar as receitas da empresa. Depois disso, começaram os problemas da Microstrategy. Hoje, a empresa é apenas uma sombra do que foi. Quando olho para trás, fico espantado com a falta de humildade de Saylor. Sua arrogância era espantosa, e ainda assim todos nos deixamos seduzir por ela. Isso não era liderança. Os verdadeiros líderes sabem ouvir, têm fome de aprender e são sensíveis às pessoas. Não devemos jamais nos esquecer disso, sobretudo quando nos sentimos inebriados por um personagem deslumbrante, novo e bem-sucedido.

São essas as minhas histórias. Elas me lembram de algo que sempre digo a meus alunos: liderança tem a ver com autobiografia. Se não conheço sua história de vida, nada sei sobre sua capacidade de liderar.