Nobles, do MIT: empresas brasileiras perdem se país não educar seus jovens

Para pesquisadora do MIT, investir na educação dos brasileiros é o principal caminho para que empresas locais não fiquem para trás na era da automação

São Paulo — Na corrida dos países pela inovação e para competir em um mundo que será cada vez mais dominado por automação e inteligência artificial, a educação dos jovens para atender a essas novas demandas precisa ser uma das prioridades. E, para além do papel do poder público, as empresas também devem ajudar neste processo.

É o que afirma a cientista política Melissa Nobles, professora do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e especialista no estudo dos impactos de novas tecnologias. “Eu não vejo como uma empresa consiga não ficar para trás no século 21 se não houver mão de obra qualificada nos lugares em que atua”, diz a pesquisadora.

Nobles falou a EXAME por telefone antes de sua vinda ao Brasil para o evento “The future of work (“o futuro do trabalho”, em inglês), que aconteceu nesta quinta-feira 29, em São Paulo (SP), e debateu como a inteligência artificial, a automação e as mudanças na economia estão afetando o mercado. A conferência é organizada pelo escritório para a América Latina da faculdade de administração do MIT, em parceria com a consultoria de recrutamento e seleção PageGroup.

Investir em educação “não vai sair barato” e é um trabalho de décadas, diz Nobles, que estuda o Brasil há anos. Na educação básica — período que vai da pré-escola ao fim do Ensino Médio –, o Brasil investe por aluno menos da metade do que investe a média dos países desenvolvidos, segundo o relatório Education at a Glance, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que compara anualmente as políticas e investimentos em educação em diferentes países.

“Uma coisa que as empresas brasileiras podem fazer é usar sua influência para pressionar o poder público a investir em educação de qualidade, sobretudo nas regiões mais pobres”, completa Nobles. Veja os principais trechos da entrevista abaixo.

Existe a preocupação de que a automação e a inteligência artificial podem prejudicar os trabalhadores e reduzir empregos. A senhora concorda com isso? Como um país como o Brasil pode se preparar para essa nova era?

É certamente verdade que a automação está apresentando desafios, e há uma grande preocupação sobre como ficarão os empregos que exigem menor qualificação, mesmo nos países desenvolvidos. A resposta para isso é que é preciso uma educação pública melhor, que prepare os jovens para os empregos do futuro. O maior compromisso precisa ser na educação básica. A automação pode até ser um desafio novo para o Brasil e para outros países, mas a necessidade de melhorar a educação não é nova. Agora é a hora de o Brasil enxergar essas novas demandas tecnológicas como uma oportunidade para se preparar para o futuro.

Quando a senhora fala em preparar os alunos, isso significa inserir conhecimentos mais técnicos nas aulas? Como aulas de programação e ciência da computação, por exemplo. 

O desafio é preparar os alunos para as habilidades de tecnologia que vão ser exigidas. A computação vai ser tão importante quanto disciplinas como matemática. Mas de uma forma mutável: quando as escolas públicas começaram a ensinar matemática nos anos 1940 era uma matemática diferente da que eu aprendi nos anos 1980. O mesmo para a computação. Mas o que também é exigido é a capacidade de continuar crítico. As humanidades são tão importantes quanto a tecnologia. Não é porque os alunos precisam de mais ciência da computação que eles não precisam estudar outras coisas.

Essa “ameaça” da automação para os empregos pode ser ainda pior para trabalhadores de baixa escolaridade. Como impedir que as inovações tecnológicas não perpetuem desigualdades, sobretudo em um país com grandes diferenças regionais como o Brasil?

Para as regiões mais pobres é preciso investir ainda mais para que elas não fiquem atrasadas. Mesmo dentro de estados ricos, como São Paulo, há necessidades diversas. É uma decisão política, porque investir em educação não vai ser barato, e é um processo de décadas, que depende de legislação, regulação. Também é preciso encontrar formas de encorajar e incentivar os professores para ajudarem a melhor preparar seus estudantes.

Como os problemas educacionais do Brasil podem afetar as empresas?

Está muito claro para onde a economia mundial está caminhando no século 21. Se países como o Brasil não se prepararem, as empresas brasileiras serão prejudicadas, porque a tecnologia será a base da economia em todas as áreas. Eu não vejo como uma empresa consiga não ficar para trás no século 21 se não tiver mão de obra qualificada nos lugares em que atua.

Qual o papel do setor privado neste processo de preparar o Brasil para as novas demandas tecnológicas?

Uma coisa que as empresas brasileiras podem fazer é usar sua influência para pressionar o poder público a investir em educação de qualidade, sobretudo nas regiões mais pobres. Vou dar dois exemplos, nos Estados Unidos, dos estados do Alabama e da Carolina do Sul, que queriam atrair investimentos da Mercedes Benz e da BMW [montadoras alemãs]. As empresas disseram aos estados que não importava o quão atrativas as isenções fiscais fossem, elas não investiriam lá se os políticos não fizessem compromissos com educação pública, porque eles precisavam contratar profissionais qualificados. É aí que os governos começam a se mexer. Uma empresa estrangeira que venha a operar no Brasil pode levar toda a mão de obra de fora, mas é mais interessante para a região que eles contratem localmente. E para as empresas brasileiras, ter uma população bem formada é mais importante ainda, porque ela depende da mão de obra local para crescer. 

No Ensino Superior, o Brasil discute com frequência o fato de que as universidades — sobretudo as públicas no caso do Brasil, mais reconhecidas por seu trabalho em pesquisa — não se aproximam do setor privado e das empresas. Como melhorar essa relação?

É um desafio descobrir como essa relação deve ser. Mas há formas como os professores, por exemplo, podem ser uma ponte para a iniciativa privada, tanto trabalhando em empresas quanto incentivando as conexões com a indústria. Os reitores e lideranças das universidades também têm que trabalhar com a indústria. É possível um modelo em que o setor privado invista na universidade, por exemplo. Isso não significa necessariamente que a universidade precisa trabalhar para um projeto específico de uma empresa, porque as universidades, é claro, estão focadas em produzir conhecimento, e não a servir o setor privado. Mas, no fim, a pesquisa de base é importante porque produz coisas que são boas para a humanidade e vão virar parte da produção de massa no futuro.

No Brasil, sempre que se fala em aumentar investimentos públicos, existe o argumento de que há muita corrupção e estes recursos não estão sendo usados da melhor forma. 

Sim, infelizmente, há corrupção. Primeiro, é preciso tentar diminuir a corrupção, que o eleitorado encontre um jeito de premiar os bons políticos. Enquanto isso, o investimento em educação precisa acontecer, mesmo que você considere a corrupção como um “custo” para fazer isso até que o Brasil atinja um ponto que consiga melhorar esse cenário. Mas é preciso haver um reconhecimento de que o Brasil não vai prosperar se não investir na qualificação de seus jovens. A questão da educação pública é difícil na maior parte dos países. Mas não há nenhum país que tenha conseguido prosperar e ser bem-sucedido sem investir na educação das massas.