No Vale do Silício, aceleradoras chinesas buscam levar startups para casa

Pelo menos 11 programas focados em companhias chinesas foram criados na área desde 2013, de acordo com a empresa de dados Crunchbase

Nova York e São Francisco – A fome insaciável de Pequim por novas tecnologias estimulou a proliferação de “aceleradores” no Vale do Silício que visam identificar startups promissoras e levá-las para a China.

O aumento no número de aceleradores focados na China – que apoiam, orientam e investem em startups em estágio inicial – faz parte de uma onda maior de investimentos chineses no Vale do Silício. Pelo menos 11 desses programas foram criados na área da Baía de San Francisco desde 2013, de acordo com a empresa de dados do setor de tecnologia Crunchbase.

Alguns trabalham diretamente com governos chineses, que fornecem financiamento. Entrevistas da Reuters com as incubadoras mostraram que muitas estão focados em levar startups dos Estados Unidos para a China.

Para autoridades do governo dos Estados Unidos desconfiadas da influência crescente da China no setor de alta tecnologia, o boom das aceleradoras reafirma temores de que o know-how tecnológico dos EUA esteja sendo transferido para a China por meio de investimentos, joint ventures ou acordos de licenciamento.

“Nossa propriedade intelectual é o futuro de nossa economia e segurança”, disse o senador democrata Mark Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado dos EUA, em comunicado à Reuters sobre aceleradoras chinesas. “O governo da China claramente priorizou a aquisição da maior quantidade de propriedade intelectual possível. Seus esforços contínuos, legais ou ilegais, representam um risco que temos que encarar com muita seriedade”.

Os EUA já tentaram bloquear muitas aquisições chinesas no setor de tecnologia e estão considerando várias medidas que podem impor novas restrições ao investimento chinês no Vale do Silício.

As medidas restritivas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à concessão de vistos para trabalhadores estrangeiros de tecnologia e as ameaças de uma guerra comercial com a China também estão mudando a paisagem.

E, com certeza, os programas chineses são uma pequena parte desse quadro. Existem 159 aceleradoras e 70 incubadoras de todos os tipos na área da Baía de San Francisco, de acordo com a Crunchbase.

No entanto, as aceleradoras refletem laços estreitos entre empresários, investidores em tecnologia e os principais talentos em engenharia nos EUA e na China.

As universidades norte-americanas continuam sendo um importante campo de treinamento para engenheiros chineses, por exemplo, e empresas norte-americanas como a Microsoft há muito tempo têm laboratórios de pesquisa na China.

Executivos de várias aceleradoras apoiadas pela China disseram à Reuters que seu objetivo é ajudar startups a ter acesso ao mercado chinês e cultivar relacionamentos entre empresários e investidores em ambos os países.

“Estamos construindo a porta ou ponte para o mercado da China”, disse Wei Luo, vice-presidente de operações da ZGC Capital Corp, que administra o Centro de Inovação da ZGC.

O centro é apoiado pelo Zhongguancun Development Group, uma entidade financiada pelo governo local de Pequim; seu nome refere-se ao bairro de Zhongguancun, que às vezes é chamado o Vale do Silício da China.

Aceleradores como o ZGC “ajudam empreendedores norte-americanos a entender melhor a China”, disse Luo.

Conexão da China

Ethan Schur, um empreendedor norte-americano e cofundador da Grush, uma escova de dentes inteligente que combina escovação com jogos para encorajar as crianças a limpar os dentes, juntou-se à ZGC e chamou a parceria de “muito útil”.

A ZGC ajudou a Grush a se instalar na China, disse Schur.

“Somos capazes de atender os fabricantes com quem queremos trabalhar, somos confiáveis, seguros e temos um bom preço”, disse ele.

Para os empresários David Lee e Grace Wang, que fundaram um aplicativo de planejamento de viagens apoiado pela ZGC chamado The Explorer.io, administrar uma empresa que não tem boa ligação com a China é ruim para os negócios.

“É tudo sobre colaboração”, disse Wang, que nasceu na China e se mudou para os Estados Unidos em 2011 para cursar a faculdade antes de fazer pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley. “Deveria haver um jeito de ajudar os países a crescer juntos e trabalhar uns com os outros.”

Propriedade intelectual

Muitos governos locais na China – como seus pares nos Estados Unidos – estão ansiosos para apoiar startups em nome do desenvolvimento econômico.

As aceleradoras trabalham com empresas em áreas como inteligência artificial, tecnologia de condução autônoma, big data e ciências da saúde.

Elas costumam ajudar empresas dos EUA a criar joint ventures ou acordos de licenciamento para entrar na China – o tipo de acordo que alguns políticos dos EUA dizem que serve como condutores para a transferência de propriedade intelectual.

O Shanghai Lingang Overseas Innovation Center “servirá como intermediário na transferência de tecnologia”, disse o governo de Xangai em um breve comunicado em seu site em maio de 2016 para marcar a abertura do centro no coração de San Francisco.

Não há exemplos de roubos importantes de empresas ajudadas por aceleradoras chinesas. Mas pesos-pesados ​norte-americanos, como a Apple, a GM e até Michael Jordan, enfrentam disputas na China pela proteção de sua propriedade intelectual.

Xiao Wang, cofundadora da InnoSpring Silicon Valley, uma aceleradora com sede em Xangai que investiu 3,5 bilhões de dólares em 70 startups norte-americanas e 15 chinesas nos últimos cinco anos, disse que aqueles que acreditam que roubo de propriedade intelectual é o preço para entrar “precisam entender melhor a China”.

Embora a proteção de propriedade intelectual da China não seja tão boa quanto nos Estados Unidos, ela melhorou, disse Xiao Wang. Os riscos para as startups são superados pelos benefícios de se mudar para a China, que incluem o acesso a um enorme mercado e um crescente grupo de talentos, disse ela.

Sue Xu, uma sócia da Amino Capital, disse que sua empresa investiu em mais de 130 startups e ajudou mais de 30 por cento delas a entrar na China.

“O mercado chinês é enorme, então as empresas em que investimos dizem ‘não vamos parar até entrarmos no mercado chinês'”, disse ela.

Mesmo assim, até mesmo acordos nos quais as startups norte-americanas dão as boas-vindas aos investidores chineses preocupam algumas autoridades em Washington.

Um estudo realizado pela Defense Innovation Unit Experimental, que investe em tecnologia comercial em nome do Departamento de Defesa dos EUA, disse em um relatório em janeiro que o investimento chinês em startups atingiu um recorde de 11,5 bilhões de dólares em 2015, ou 16 por cento de todos os negócios tecnológicos naquele ano.

Para empreendedores como Lee, cofundador da Explorer.io, que se mudou para os Estados Unidos da Coreia do Sul há 15 anos, a esperança é que as suspeitas sobre os investidores chineses desapareçam.

É apenas uma questão de tempo, disse ele, antes que as pessoas percebam que a suspeita de investimento chinês é “prejudicial para os Estados Unidos”.

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