No auge, Nike é acusada de liderar esquema de doping

Treinador que lidera equipe da companhia foi banido por experimentos para aumentar desempenho; o presidente Mark Parker também sabia de tudo, segundo jornal

As atenções não estarão na pista do estádio Khalifa, em Doha, no Catar, quando os competidores retomarem nesta quarta-feira as disputas do mundial de atletismo. O programa do dia prevê provas como lançamento de disco, 110 metros com barreiras ou 400 metros rasos, mas quem se importa quando o mundo do atletismo ferve nos bastidores?

A competição já nasceu cercada de polêmicas. Marcada para uma país com temperaturas que facilmente passam dos 40 graus, precisou de um estádio completamente climatizado. Ainda assim, o Khalifa segue vazio. E as provas de rua, como a maratona, exigiram um esforço sobre-humano dos atletas.

Mas a maior polêmica estava por vir, e é ela quem deve concentrar as atenções nesta quarta-feira. Ontem à noite o jornal americano The Wall Street Journal revelou que o presidente da fabricante de artigos esportivos Nike, Mark Parker, estava a par de um escabroso esquema de doping liderado por anos por Alberto Salazar, treinador que lidera uma equipe patrocinada pela empresa.

Salazar foi banido ontem pela Agência Antidoping dos Estados Unidos acusado, entre outros crimes, de realizar experimentos com testosterona. O Journal divulgou em primeira mão trechos de um relatório da agência que mostram que Parker tem acesso a emails há dez anos e que ao menos um experimento foi realizado dentro da sede da Nike. A empresa, mais cedo ontem, havia negado o envolvimento de Parker.

Qual o impacto da nova revelação para o futuro de Parker e da Nike? Com quatro décadas na empresa e 13 anos na presidência, ele é também o presidente do conselho da companhia desde 2015, substituindo o fundador Phil Knight. Sua gestão é responsável por levar a Nike no início da semana ao maior valor de mercado de sua história, em 145 bilhões de dólares, após anúncio de aumento de 7% no faturamento no último trimestre, para 10,7 bilhões de dólares.

A Nike cresceu mais de 10% na Europa e na América Latina, e 22% na China, seu grande mercado futuro. O lucro cresceu 25%, para 1,4 bilhão de dólares, impulsionado, entre outros fatores, pelo aumento de 42% no último ano nas vendas em suas próprias plataformas digitais, dispensando a intermediação do varejo tradicional.

Analistas afirmam que os resultados acima do previsto aumentam a confiança de que a empresa conseguirá manter o ritmo acelerado com vento a favor: apesar da guerra comercial, a Nike lidera a crescente busca por saúde e bem-estar. A questão em aberto é quanto o escândalo Salazar vai afetar a imagem saudável da Nike. Depois de subir 20% desde janeiro, as ações da companhia caíram 1,75% nesta terça-feira.