Negócio entre Mitsui e Vale impulsiona papéis da Bradespar

Num complicado jogo de cruzamentos e descruzamentos acionários, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) comprará, por 426,4 milhões de dólares, 40% das ações do conglomerado japonês Mitsui na Caemi Mineração e Metalúrgia – empresa na qual ambas já eram sócias – e, ao mesmo tempo, a Mitsui vai adquirir uma participação de 15% da Valepar, holding controladora CVRD, por 830 milhões de dólares. As operações ainda precisam do aval das autoridades reguladoras.

A Vale já detém 50% das ações ordinárias da Caemi, que correspondem a 16,87% do capital total da empresa, e, com a conclusão do negócio, passará a ter 60% do capital total. Para o mercado financeiro, porém, quem saiu ganhando com a operação foi a Bradespar, o banco de investimentos ligado ao Bradesco, que tem hoje 30% das ações da Valepar, por meio de participações indiretas, e venderá metade dessa participação ao grupo japonês.

As ações da Bradespar deram um salto: fecharam com alta de 9,4% (preferencial) e 12,96% (ordinária), com cerca de 500 negócios, um volume atípico para o papel. O mercado está contando com a entrada de caixa que a Bradespar terá com a venda de sua parte para Mitsui , diz Otto Berntini Junior, analista da Corretora Intra. O outro sócio importante na Valepar, a Litel, controlada pela Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil, ainda avalia se tomará parte na operação. Em caso de adesão da Litel, a Bradespar ficaria com 25% da Valepar. Caso contrário, ficaria com 15%.

A saída da Mitsui da caemi está atrelada à sua entrada na Valepar. Não fazia nenhum sentido para Mitsui, que quer manter investimentos no Brasil dentro da indústria de minério de ferro simplesmente vender a Caemi , disse Roger Agnelli, presidente da Vale, ao anunciar o negócio. Só diante da possibilidade de entrar na Valepar é que a Mitsuij poderia pensar na possibilidade de vender a Caemi.


Para além da alta dos papéis da Bradespar, o mercado parece ainda avaliar o negócio para entender detalhes que possam afetar os acionistas de todas as empresas. As ações da Vale e da Caemi, como ocorre com empresas exportadoras, tiveram variações inexpressivas: alta de 0,13% e queda de 1,78%, respectivamente.

Pelo lado da Caemi, a transação pode ser seguida pelo descontentamento dos minoritários, que esperavam por uma oferta de fechamento do capital. A Vale, por sua vez, anunciou a intenção de não fechar o capital, mas preocupa o impacto dos valores pagos no caixa da empresa.

Numa operação dessa natureza, seria prudente deixar claro se a Vale não estaria utilizando seu caixa para financiar a entrada da Mitsui na Valepar, em uma operação que favoreceria os controladores e prejudicaria a própria Vale , diz um executivo do mercado. Explicação: em 2001, a Mitsui havia vendido por 280 milhões de dólares metade de sua participação na Caemi para a Vale; agora a Vale está pagando outros 426 milhões pelo restante. Só que a Vale já controla 50% do capital votante da Caemi. “Será que o negócio faz sentido para o acionista da Vale?”, pergunta o executivo.

Em termos comerciais, a Vale fortalece sua posição. Ampliamos nossa posição no mercado internacional , diz Fábio Barbosa, o diretor executivo de finanças da empresa. A Caemi produz 35 milhões de toneladas de minério ferro, é a quarta companhia do setor no mundo e tem 6% do mercado mundial.

A Vale, por sua vez, é maior empresa transcontinental do setor, com 29,4% das exportações. Para os analistas, ela ganhará também com a participação da empresa japonesa na Valepar. Agora, como controladora, a Mitsui pode reforçar a logística da Vale, principalmente na Ásia, um dos melhores mercados para o setor , afirma Armando Franco, analista da Tendências Consultoria.