Natura se destaca em cultura corporativa, diz consultora britânica

Para Carolyn Taylor, preocupação com o bem-estar de funcionários e fornecedores contribui para resultados

São Paulo – Uma empresa não é feita apenas de números, resultados e produtividade. Os valores morais e éticos e a postura interna e externa de uma companhia, a chamada cultura organizacional, podem fazer toda a diferença no sucesso dos negócios. A consultora britânica Carolyn Taylor, autora do livro Walking the Talk (Editora Random House, sem tradução em português), vem ao Brasil nesta semana (17/6), a convite da consultoria Torres Associados, para divulgar seu método baseado em arquétipos para desenvolver uma cultura empresarial saudável.

Os seis modelos que a autora define são Achievement (busca intensa por resultados), Customer Centric (foco na excelência, satisfação e retenção de clientes), One-Time (empresas que trabalham juntas para dar bons resultados), Innovation (foco na criação de novidades), People First (voltada para atrair e manter talentos), Greater Good (focada em uma boa governança corporativa).

Carolyn Taylor usa o exemplo da Natura como uma referência de cultura empresarial bem sucedida e focada no bem-estar das pessoas. Entre os modelos negativos, ela menciona a BP (British Petroleum), cuja imagem foi tragada pelo recente desastre ambiental causado pelo vazamento de petróleo no Golfo do México. Para Carolyn, o episódio pode indicar a falta de compromisso com uma cultura de segurança.

O Brasil será o primeiro lugar onde a consultora vai divulgar sua metodologia, pois considera o país um ambiente aberto a novas técnicas e formas de trabalhar. Carolyn atua há mais de 25 anos em gestão, e comanda uma consultoria que tem o mesmo nome de seu livro. Nesta entrevista ao site EXAME, ela fala da importância de se ter uma boa cultura empresarial.

EXAME – Que empresas, em sua opinião, são bons exemplos de cultura corporativa?

Carolyn Taylor – Um bom exemplo é a Natura, com seu lema de “bem estar bem”. Eles investem muita atenção em seu pessoal e, com isso, ajudam funcionários e suas revendedoras a representar bem seus produtos.

EXAME – O que as pessoas podem aprender com a Natura?

Taylor – A Natura foi capaz de ligar sua imagem à expressão “bem estar bem” e, a partir disso, criou um ambiente interno que reflete a mesma expressão. Algumas das poucas empresas que conseguiram ligar sua imagem à sua cultura interna se tornaram muito fortes. Em toda companhia, em todos os ambientes, empregados, fornecedores, revendedoras e consumidores, a Natura conseguiu seguir esse princípio de valorizar o bem-estar e as pessoas.


EXAME – De acordo com os arquétipos que você define, qual seria o mais seguido pela Natura?

Taylor – Eu diria que é o “people first” (pessoas em primeiro lugar), já que ela se preocupa em cuidar dos funcionários e colaboradores. Eu acho que também pode ser o “consumer centric”, se considerarmos que ela visa muito o que o consumidor quer, mas acredito que o primeiro se destaca mais.

EXAME – O que é, então, uma boa cultura corporativa?

Taylor – Uma boa cultura corporativa é aquela que facilita as estratégias de uma empresa, que ajuda as pessoas a fazer melhor seu trabalho. Toda companhia seus próprios objetivos e aspirações, e, por isso, precisa de uma cultura diferente. Quando uma cultura está funcionando, ela assegura que os mais altos padrões de comportamento ocorram ao longo de toda a companhia.

EXAME – Quais são os desafios dessas empresas que já têm uma boa cultura?

Taylor – Há dois desafios. Um deles é para a empresa que cresce e corre o risco de perder sua cultura. O desafio é saber sistematizar, planejar para manter a cultura, quais as habilidades de gestão necessárias para fazer isso. O outro desafio é quando é preciso mudar de cultura devido a mudanças no ambiente externo. A cultura que, um dia, tornou a empresa bem-sucedida pode não garantir de que terá sucesso no futuro.

EXAME – E que empresas seriam um exemplo negativo?

Taylor – Você deve estar acompanhando o desastre de petróleo da BP (British Petroleum). Os jornais estão dizendo que a cultura de segurança na BP e a cultura de cuidado ambiental caiu nos últimos anos.


EXAME – Uma cultura melhor poderia ter ajudado a BP a evitar o desastre?

Taylor – Para entender a cultura, é preciso ver se houve muitos incidentes que levam à crença de que o valor de um padrão impecável caiu. Se esse padrão caiu, é porque houve uma grande impaciência sobre o crescimento rápido da empresa, talvez assumindo mais riscos, fazendo cair a cultura de segurança. A BP já passou por várias situações assim, e isso não é apenas má sorte. Isso tem a ver com uma cultura profunda.

EXAME – Por que ter criar uma cultura empresarial é visto como algo difícil?

Taylor – Em primeiro lugar, a razão pela qual as empresas não conseguem criar uma boa cultura é a falta de conhecimento por parte dos profissionais de RH e dos líderes sobre a metodologia de como construí-la. A segunda razão é que as ações de um líder devem estar de acordo com as aspirações e valores que a empresa expressa, e isso é difícil. Muitos líderes não têm a metodologia e nem o suporte para ajudá-los a se olhar no espelho e ver se suas atitudes estão contribuindo para os valores que a empresa tem no momento.

EXAME – O que um líder precisa ter ou fazer para disseminar uma boa cultura?

Taylor – Em uma boa cultura, o líder deve criar padrões e níveis de comportamento que ele espera das outras pessoas. Para isso, você deve ter em mente que é inaceitável não se envolver com o negócio. Talvez até seja necessário dispensar funcionários, se não houver envolvimento com a política da companhia. O entusiasmo pelo negócio deve ser o padrão, pois isso é o que se espera dos empregados. Essa tarefa pode ser feita pelos integrantes do RH, com recompensas, recrutamento específico, estratégias de comunicação e treinamento dos gestores.

EXAME – Como a internet e as mídias sociais podem ajudar a criar uma cultura corporativa?

Taylor – A comunicação é uma das mais poderosas armas para estabelecer uma cultura. Se os líderes enviam muitos e-mails formais e só se comunicam por escrito, isso estabelece um tipo de cultura. As mídias sociais permitem uma poderosa informalidade, abertura e acessibilidade entre líderes e seus liderados. Isso fez o mundo mais transparente e mais difícil de segurar os empregados em empresas que não têm uma cultura positiva.