Na sala de aula com os CEOs

Animação. Surpresa. Aprendizado. É isso o que acontece quando se coloca 20 CEOs do Futuro para estudar juntos

O programa, que durou de 4 a 8 de fevereiro, foi feito sob medida pela Fundação Instituto de Administração (FIA/ USP), parceira de VOCÊ s.a. no projeto dos CEOs do Futuro, ao lado da Korn/Ferry. Além de conhecer um pouco mais os 20 executivos que têm tudo para construir o futuro das empresas e do país (nossa capa de dezembro), esse curso funcionou como uma verdadeira reciclagem profissional. “Valorizamos a questão comportamental para alinhá-la com o alto potencial que esses profissionais têm em outras áreas”, diz o professor James Wright, coordenador do MBA internacional da FIA/USP, segundo lugar no ranking dos MBAs Executivos do Guia VOCÊ s.a. – OS MELHORES MBAs NO BRASIL, de 2001. Entre os temas do curso: planejamento de carreira, gestão de conhecimento, liderança e cidadania corporativa. Na próximas páginas, os melhores momentos que passei como colega de sala dos CEOs.

A paulistana Goldie Aragão faz aniversário só em novembro. Mesmo assim, ouviu Parabéns a Você pelo menos quatro vezes durante a semana em que durou o curso dos CEOs. Tudo porque Goldie, que estuda economia na USP e faz estágio na FIA, cuidava de tudo o que estivesse relacionado ao bom andamento das atividades. A brincadeira, uma maneira bem-humorada que o grupo encontrou de elogiar a eficiência da moça, dá também uma idéia de como foi divertido conviver com esses executivos. Confesso que fiquei surpresa com tanta descontração. Esperava encontrar um grupo sisudo, no melhor estilo homens de negócios (Beth, é só força de expressão) – ainda bem que me enganei redondamente.

Todos os dias, no fim da tarde, tínhamos palestras com executivos de grandes empresas: os CEOs do presente, como o presidente do Fleet Boston Global (BankBoston), Henrique Meirelles, da Telefônica, Manoel Amorim, e da Credicard, Roberto Lima. O tema da aula de estréia caiu como uma luva para o grupo: planejamento de carreira. Como bem definiu o professor Joel Dutra, responsável pela matéria, carreira não é uma série de cargos empilhados. Para ter uma de verdade, é preciso planejá-la e geri-la. Dutra falou sobre job rotation; quanto tempo se leva para mudar o rumo da vida profissional; e explicou o conceito das âncoras de carreira. Começamos fazendo um teste para descobrir as nossas. Existem oito âncoras que envolvem questões diversas, como a valorização da qualidade de vida, o gosto por desafios e a necessidade de ter autonomia e independência no trabalho .

Robert Wong, presidente da Korn/Ferry, e Oscar Boronat, CEO da Pilkington Brasil, encerraram o primeiro dia. Boronat bateu forte na tecla da importância de gerir a vida profissional e finalizou sua apresentação com 15 mandamentos para qualquer executivo – não ter medo de contestar leis absurdas, ser honesto (não ingênuo) e fazer política apenas para conviver bem no grupo (sem depender dela) são alguns deles.

Sopa de letrinhas
No segundo dia, começaram os trabalhos em grupo. A professora Tânia Casado nos dividiu em seis equipes e fez a seguinte proposta: “Vamos supor que dinheiro não seja problema e que vocês estejam pensando em montar um negócio. Como seria a empresa dos seus sonhos?” Teve de tudo: ONG de reciclagem de matérias-primas, fundação para estimular a prática de esportes entre jovens carentes e empresa de turismo ecológico. Lá pelas tantas descobrimos que Tânia tinha escolhido os grupos com base no resultado de um questionário que havíamos respondido no dia anterior. O teste, que é chamado de DTP (diagnóstico de tipo psicológico), usa os conceitos dos tipos psicológicos criados pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung para dar uma espécie de diagnóstico da personalidade. Tânia começou a explicar como eram esses traços; e nós, a entender por que tinha sido tão fácil ou difícil chegar a um acordo. Simplificando bastante, Tânia mostrou que somos uma combinação de quatro letras (referentes às iniciais de cada tipo):

1. introversão ou extroversão nosso interesse pelo mundo exterior ou interior.

2. sensação ou intuição a maneira como captamos as informações.

3. pensamento ou sentimento nosso jeito de tomar decisões.

4. julgamento ou percepção nossa postura diante dos fatos.

Associando esses conceitos ao das âncoras de carreira, conseguimos ter (eu, pelo menos, consegui) uma idéia mais clara de nossas características. A reação do pessoal a esse tipo de assunto foi outra grande surpresa para mim, que nunca imaginei que administradores de empresas, engenheiros e economistas (essa é a formação da maioria dos CEOs do Futuro) fossem gostar tanto de ouvir falar sobre Freud e Jung. Acho que eles se interessaram porque conseguiram embasamento teórico para o que já haviam verificado na prática: certas características de personalidade são imutáveis e, para montar uma equipe dos sonhos (era esse o tema da aula de Tânia), é preciso fazer um mix de perfis psicológicos e aprender a aproveitar o que cada um tem de melhor.

O jogo da ONG
Com o professor Antônio Carlos Sauaia fizemos um laboratório de gestão que durou três dias. Aliás, é por isso que estamos tão pensativos nestas fotos: quebramos a cabeça com o problema que Sauaia nos deu para resolver. Nossa missão era propor soluções para uma suposta ONG que se encontrava em dificuldades. Para isso, fomos divididos em grupos que misturavam propositadamente os perfis psicológicos descritos no teste da professora Tânia. Isso gerou bastante confusão, claro, mas foi uma experiência muito enriquecedora. Afinal, é exatamente o que acontece no mundo aí fora: nem sempre trabalhamos com pessoas que pensam como nós. Confesso que fiquei me sentindo um peixe fora dágua. Havia muitos números envolvidos no trabalho – e números, definitivamente, não são o meu forte. No fim, descobri que tinha sido um erro pensar assim. Claro que saber fazer uma previsão de gastos e elaborar um demonstrativo de resultados é fundamental para o bom andamento de uma empresa. Mas acho que, aqui, vale um mea-culpa: poderia ter usado meus conhecimentos em outras áreas para ajudar meu grupo de alguma maneira. Fiquei tão preocupada com o que não sabia, que me esqueci de colocar em prática o que sabia. No fim do jogo, mais uma lição: depois de muita discussão, os quatro grupos decidiram se juntar para criar uma cooperativa e, em vez de agir como empresas concorrentes, assumir nosso papel social. Com isso, resolvemos o problema da ONG. A resposta estava na nossa frente, mas demoramos um pouco para percebê-la. Assim como na vida real, as soluções geralmente são tão óbvias que às vezes acabam sendo deixadas de lado.

COM A PALAVRA, OS CEOs
“Foi uma oportunidade de pensar sobre o que conseguimos até agora e ver o que desejamos para o futuro”, Arthur Diniz

“Voltei para o banco da escola e descobri que esse continua sendo o lugar para aprender coisas novas”, Elizabeth Peart

“Foi fantástico parar durante uma semana para pensar”, Luciano Rodembusch

“Para mim, essa semana foi como um míni-sabático”, Luis Carlos Berti

“Conhecer novos conceitos de liderança e de trabalho em equipe vai ser muito útil na minha carreira”, Sérgio Domanico

“Foi muito bom conhecer assuntos que, em geral, não são abordados em cursos de MBA ou similares”, Marcos Littério

Os 15 mandamentos do executivo
Tudo começou quando o executivo Oscar Boronat, presidente da Pilkington Brasil, foi convidado para ser o paraninfo da sexta turma de MBA da FIA/USP, segunda melhor escola de MBA executivo do país — segundo o Guia dos Melhores MBA s da VOCÊ s.a. de 2001. Sensibilizado com o convite, Boronat começou a pensar no que dizer para os alunos. Nesse meio tempo, leu sobre um executivo americano que tinha recebido um convite semelhante.

Como se tratava de um homem muito rico, o tal empresário resolveu dar para cada aluno uma bolsa de estudos até a universidade. Boronat achou essa idéia fantástica porque era um presente que iria beneficiar aquelas crianças para o resto de suas vidas. Ele, então, decidiu fazer o mesmo, só que de uma maneira simbólica. Estes 15 mandamentos que você vai ler agora são resultado dessa reflexão:

1) Adote o ético antes do legal – Não tenha receio de combater uma lei absurda ou casuística.

2) Seja honesto mas não ingênuo – Tome cuidado para não se tornar um alvo fácil.

3) Faça política mas não dependa dela – Ter uma boa convivência com o grupo deve ser ter uma boa convivência com o grupo.

4) Seja tolerante sem exagerar na complacência – Assim, você não faz julgamentos precipitados.

5) Seja justo em todas as decisões e durma bem – Lembre-se de que o senso de justiça deve prevalecer sempre.

6) Tenha dignidade e amor próprio – Mas não deixe seu ego pilotar você.

7) Seja rápido, não afobado – Adiar decisões é tão fatal quanto não pensar.

8) Não seja apenas competente, busque o melhor – Em tudo! Como atitude, olhe para ao mercado

9) Adote o acionista como seu verdadeiro patrão, mesmo que ele seja um fundo de pensão – Chefias são transitórias; já os resultados são permanentes.

10) Imagem faz conceito e conceito faz futuro – Estragos à imagem custam para serem reparados.

11) O principal personagem do meio-ambiente é o ser humano – Destruir a natureza é atentar contra sua vida.

12) A gestão de recursos humanos começa por você mesmo – Portanto, cuide-se!

13) Planeje o rumo, mas não seja escravo da obsessão – Tenha visão e adote uma missão, mas sem ser inconseqüente nem obcecado.

14) Faça o que gosta, o que faz sentir-se feliz antes de tudo – Senão, mais cedo ou mais tarde, você vai entrar em uma crise não compreendida

15) Fale não só as mentes mas aos corações – Só assim sua mensagem atingirá o alvo.