Os jovens ainda querem tocar instrumentos? A School of Rock aposta que sim

Fundada em 1998 na Filadélfia, rede acaba de inaugurar no Brasil sua 250ª escola. Método busca levar o aluno ao palco em poucas semanas

Ser o centro de uma rodinha ao tocar violão ou formar uma banda com os amigos permeou os desejos de muitas gerações. Mas tocar ainda é tão legal para os jovens do século 21 quanto era há décadas atrás? A escola de música norte-americana School of Rock — “escola do rock”, em português, e que nada tem diretamente a ver com o musical de mesmo nome — quer provar que sim. 

Fundada em 1998 e uma das maiores redes de ensino de música no mundo, a empresa tem 250 escolas em dez países e mais de 40.000 alunos. O Brasil é o segundo maior mercado, com 34 escolas, somente atrás dos Estados Unidos.

Com aulas para crianças e adultos em qualquer nível musical, o objetivo é focar em habilidades práticas. A ideia é que, em poucas semanas, os alunos iniciantes já consigam tocar ou cantar músicas completas e fazer performances. Há aulas de diversos instrumentos, como violão, guitarra, bateria, baixo e canto. A empresa também vem incentivando os alunos a compor suas próprias músicas, uma nova frente de ensino. As unidades contam com auditórios próprios e estúdios, para que os alunos possam praticar de forma profissional.

EXAME visitou neste mês uma unidade da School of Rock na região dos Jardins, em São Paulo, quando o presidente global da rede, Rob Price, esteve no Brasil. Um dos motivos da visita foi outro passo na trajetória de crescimento que a School of Rock planeja para os próximos anos. A empresa vai abrir uma nova unidade em parceria com a brasileira Escola de Música e Tecnologia (EM&T), criada em 1988 pelo guitarrista brasileiro Wander Taffo, já falecido. 

A parceria, batizada de EM&T School of Rock, resultará em uma unidade de cinco andares e 800 alunos no Jabaquara, zona sul de São Paulo, gerida em conjunto pelas duas empresas. “Será a maior unidade da School of Rock no mundo”, diz Price.

O plano da School of Rock é chegar a 150 escolas no Brasil em dez anos. Foi por aqui que a empresa abriu, também neste mês, sua unidade de número 250, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Só na zona do sul do Rio, serão outras sete unidades.

A primeira escola no Brasil nasceu em 2013, em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo. A escola foi aberta pelo músico John Guillermo e o produtor musical Nando Guto, que até hoje são franqueados da School of Rock. “Para nós que somos músicos, é muito bacana ver a música fazendo diferença na vida dos alunos”, diz Guto. 

O crescimento brasileiro surpreendeu até mesmo a matriz americana e os próprios franqueados locais. Paulo Portella, master franqueado e responsável por trazer a School of Rock para o Brasil, começou a pensar no negócio em 2010, quando a economia ia bem. Mas, quando conseguiu tirar a primeira escola do papel três anos depois, o cenário mudou completamente — com o Brasil entrando em uma das piores recessões econômicas de sua história. “A previsão inicial era ter 33 escolas em dez anos, e agora a meta já é chegar a 150. E isso pode até aumentar, mas gostamos de ser conservadores”, diz Portella. “Conseguimos crescer mesmo em um cenário muito adverso.” 

Há mais de 60 novas unidades em negociação com empresários brasileiros, de olho sobretudo em capitais, mas também em cidades com mais de 200.000 habitantes. Só as unidades brasileiras representam faturamento de 13,5 milhões de reais no ano passado. O faturamento quadruplicou nos últimos dois anos, segundo a empresa. 

Portella, que decidiu tornar-se parceiro da School of Rock após mais de uma década de experiência como diretor de recursos humanos da multinacional de tecnologia IBM, é hoje o principal responsável pelo crescimento da rede no Brasil. O master franqueado brasileiro vai ainda inaugurar escolas em Portugal e na Espanha no ano que vem.  

Sua formação como recursos humanos o possibilita também estudar frentes alternativas de faturamento, como parcerias com empresas — a School of Rock brasileira já vende serviços de música como forma de realizar dinâmicas, por exemplo, em reuniões ou eventos corporativos. Há também o projeto “Rock the School”, com parcerias com escolas para aulas extras de música.

Lição na School of Rock: objetivo é que alunos apliquem o mais rápido possível o que aprendem nas aulas

Lição na School of Rock: objetivo é que alunos apliquem o mais rápido possível o que aprendem nas aulas (School of Rock/Divulgação)

Da igreja à sala de aula 

Os executivos da School of Rock afirmam que o interesse dos jovens por música ou por aprender a tocar um instrumento não diminuiu com a ascensão de outras opções de entretenimento via internet, e que o setor de ensino musical segue estável ao longo dos anos.

Mas um dos grandes desafios da School of Rock é ser uma rede mundial em meio a um mercado extremamente fragmentado. Para além das escolas tradicionais, como faculdades de música ou conservatórios, voltadas no geral a quem já domina os instrumentos, há milhares de locais em que se aprende a tocar instrumentos e cantar. Cada cidade tem suas escolas locais, e as próprias igrejas funcionam como local de iniciação musical para muitos jovens.

“Mas essas experiências no geral não são estimulantes, e a taxa de desistência é muito alta”, diz Price. A School of Rock brasileira se orgulha de ter uma taxa de evasão de apenas 13%, ante uma média que, aponta a empresa, é muito mais alta no mercado. 

Além disso, dentre as vantagens de fazer parte de uma rede global, há mais recursos para investir em tecnologia e inovação. A empresa tenta cada vez mais usar os smartphones e a internet como ferramenta de apoio ao ensino, e não como um rival na busca pela atenção dos jovens. A escola está criando aplicativos apoiados em inteligência artificial em que os alunos podem fazer exercícios e treinar de forma mais fácil, sob acompanhamento do sistema, as músicas que aprendem. Para isso, precisa investir no pagamento de royalties aos músicos. “Isso é caro, mas extremamente importante. Se vivemos dos músicos e estamos formando músicos, precisamos retribuir a eles”, diz o presidente global. 

Embora a School of Rock deseje formar “os ídolos de amanhã”, como afirma Price, o executivo defende que aprender um instrumento e se envolver com a música é benéfico para toda a vida, podendo ajudar as crianças a se tornarem mais confiantes e vencerem a timidez. 

Embora crianças e adolescentes sejam a maior parte dos alunos, os adultos também são um público crescente. A música, diz Price, pode ajudar em problemas de depressão ou de falta de propósito. Há também quem busque realizar um sonho de infância. “Quem aprende música se torna um melhor engenheiro, um melhor professor, um melhor presidente”, afirma o executivo, que já passou por empresas como a rede de farmácias americana CVS e está na School of Rock desde 2017. 

Ação no Rock in Rio: uma cabine experimental da escola recebeu mais de 20.000 visitantes no festival

Ação no Rock in Rio: uma cabine experimental da escola recebeu mais de 20.000 visitantes no festival (School of Rock/Divulgação)

Objetivo é o palco

Foi o músico norte-americano Paul Green quem fundou há 20 anos o que viria a ser a School of Rock. Green dava aulas particulares de música em sua casa, na Filadélfia, e um dia chamou alguns alunos para performar em grupo, como uma banda. Os resultados foram decepcionantes a princípio, mas, tempos depois, tudo mudou: o músico percebeu que quem tocava em grupo evoluiu mais rápido do que os que praticavam sozinhos. Green, então, classificou o avanço como a mesma diferença entre “ficar arremessando a bola na cesta” e “jogar basquete”. 

Embora nada tenha a ver com o musical, filme e série de TV batizados de School of Rock, o fundador Paul Green de fato estrelou outra produção cinematográfica, o documentário “Rock School”, de 2005. Green foi procurado pelo cineasta Don Argott para contar justamente a história de como criou a School of Rock e sobre seus métodos como professor. 

Green, aliás, vendeu a School of Rock em 2010, e criou na Filadélfia uma escola menor, a Paul Green Rock Academy, com um estúdio em sua própria casa. Agora, em vez de milhares de jovens, há menos de uma centena de alunos que ele ensina pessoalmente. Em entrevista ao jornal The Philadelphia Inquirer, o músico e empresário, conhecido por ser um professor exigente, mas muito dedicado, disse que a rede de escolas da School of Rock ficou grande demais, para além do que ele conseguiria interagir.

Mesmo sem o fundador, a School of Rock se esforça até hoje para que seus alunos “joguem basquete” de verdade. Embora conte com aulas teóricas e práticas individualizadas, os alunos, com pouco tempo de treino, já começam a fazer apresentações. À medida em que avançam, a School of Rock tem até mesmo parcerias com casas de show e espaços onde os alunos fazem shows para pessoas de fora da escola — incluindo em palcos de grandes festivais, como Lollapalooza e Summerfest.

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Na edição deste ano do festival de música Rock in Rio, a School of Rock teve uma cabine experimental visitada por mais de 20.000 pessoas que puderam tocar durante o evento. Uma parceria também levou o baterista Chad Smith, da banda Red Hot Chilli Peppers, que estava no Rio para o festival, para visitar uma das unidades da School of Rock na cidade — e uma aluna bolsista, que toca baixo, foi até mesmo convidada para os bastidores do show da banda e para conhecer o baixista do Red Hot, Flea, um de seus maiores ídolos.  

Para repetir histórias como essa, a School of Rock fechou uma parceria para oferecer bolsas a alunos de entidades parceiras da Associação Para Iniciação Musical da Criança Carente (AIM), organização que apoia várias iniciativas de aulas de música para crianças de baixa renda no Brasil.  

De aluno em aluno, a School of Rock quer mostrar que, não importa a idade, o poder da música pode continuar rompendo barreiras, classes sociais e gerações — e que tocar e cantar ainda pode ser muito mais legal do que passar horas no Instagram.