Na contramão, e-commerce Mobly quer abrir loja física

Concorrentes de peso, como Etna e TokStok, e uma logística complicada e cara dificultaram o nascimento da companhia

São Paulo – Em 2011, três jovens decidiram tomar para si um desafio: tornar a indústria brasileira de móveis mais ágil e moderna.

Victor Noda e Mário Fernandes criaram a Mobly e, logo em seguida, chamaram Marcelo Marques, que havia fundado recentemente a Kanui, de artigos esportivos.

Os três tinham acabado de voltar de um período de estudos dos Estados Unidos e queriam replicar no Brasil modelos de grandes companhias internacionais.

No entanto, sabiam que teriam obstáculos. Concorrentes de peso, como Etna e TokStok, e uma logística complicada e cara dificultavam o nascimento da companhia.

Para se diferenciar, a empresa optou por investir fortemente em tecnologia. Integrou os sistemas de todos os fornecedores para ter uma entrega mais ágil e usa os dados de compra e navegação dos clientes para criar móveis exclusivos campeões de venda.

Um dos exemplos desse investimento é o aplicativo da empresa. Ele conta com a ferramenta de realidade aumentada, que projeta itens em 3D em qualquer cômodo. Também é possível, após fotografar um objeto, localizar opções que têm semelhança com a foto.

As inovações chamaram a atenção. A Mobly já recebeu 80 milhões de reais em investimentos de fundos como a Rocket, banco JP Morgan, fundo sueco Kinnevik e grupo venezuelano Cisneiros.

A companhia tem 350 funcionários – a maior parte atua no atendimento ao cliente e no centro de logística. O plano é expandir para 700 colaboradores nos próximos dois anos.

Ela não revela o faturamento, mas garante que cresceu 25% ao ano entre 2014 e 2016, enquanto a indústria de móveis viu suas vendas caírem no Brasil durante a crise.

Para 2017, a Mobly tem uma grande novidade. Até então exclusivamente online, a empresa começou a fazer os primeiros testes no mundo físico. Ela construiu espaços exclusivos em lojas de móveis para fortalecer sua marca. Por enquanto, 27 lojas participaram do projeto piloto. No segundo semestre do ano, ela irá abrir sua primeira loja física, em São Paulo.

Mobly loja virtual de móveis Os fundadores da Mobly: Victor Noda, Mário Fernandes e Marcelo Marques

Os fundadores da Mobly: Victor Noda, Mário Fernandes e Marcelo Marques (Fernando Cavalcanti/Mobly/Divulgação)

Logística mais ágil

Antes de chegar ao tamanho que tem hoje, a empresa precisou resolver um problema que assombra todas as lojas de móveis no Brasil: logística. Transportar móveis é caro, a montagem é complexa e o consumidor não consegue acompanhar o trajeto de seu pedido, que pode demorar até dois meses para chegar.

Então, a companhia criou sua própria transportadora, a MoblyLog. Por enquanto, realiza entregas no estado de São Paulo e em regiões do estado do Rio de Janeiro, mas pretende ir para outros estados. Hoje, a MoblyLog representa 30% de todas as entregas da Mobly e o plano é que ela chegue a 40% até o ano que vem.

Ela tem um centro de logística em Itupeva, interior de São Paulo, que também funciona como estoque, e um centro de crossdocking no Rio de Janeiro, que apenas recebe produtos dos fornecedores e os despacha logo em seguida. Com sua própria estrutura de logística, a Mobly consegue reduzir os custos de transporte em até 30%.

O sistema da Mobly integra todos os fornecedores, assim os clientes conseguem acompanhar o estágio de produção e entrega de suas encomendas. Todos os entregadores da Mobly também têm tablet para assinatura de recebimento.

Tem de tudo

Outro desafio foi tornar a marca conhecida. A Mobly apostou no sortimento, com a intenção de atrair pessoas de todos os perfis e estilos. “Queremos que o consumidor saiba que irá encontrar o que procura no nosso site”, disse Marcelo Marques, um dos donos da empresa.

O grande número de produtos se tornou um dos maiores diferenciais da marca. Ela tem mais de 185 mil produtos diferentes, feitos por 600 fornecedores. São mais de 2.000 lançamentos por semana.

No entanto, surgiram os marketplace, ou shoppings virtuais. Um único site de comércio eletrônico pode comercializar produtos de centenas de parceiros diferentes.

Por um lado, o crescimento dos marketplace permitiu à Mobly ampliar seus pontos de venda. Mais de 70% dos móveis vendidos pelo site do Walmart, por exemplo, são da Mobly. Ela também usa as vitrines da Americanas.com, Submarino.com, Via Varejo, Magazine Luiza e Mercado Livre.

Por outro lado, o grande sortimento deixou de ser um diferencial para a empresa. Afinal, qualquer marketplace poderia expor milhares de produtos diferentes. A Mobly passou a buscar, então, um novo diferencial.

Exclusivos e sob medida

Mais do que ter milhares de opções, a empresa passou a oferecer produtos exclusivos. De inspiração jovem e moderna, os móveis exclusivos também precisam ser acessíveis, afirmou Mário Fernandes, cofundador.

De posse de milhares de dados sobre os hábitos de consumo de seus clientes, a Mobly consegue saber exatamente o que o público busca. Ela analisa os materiais, tamanhos e estilos mais populares e desenvolve, junto com seus fornecedores, móveis sob medida para serem campeões de venda.

De posse desses dados, a empresa também consegue planejar melhor suas vendas. Os campeões de venda também estão sempre em estoque. Assim, alguns produtos podem ser entregues em um a dois dias úteis, afirmou Victor Noda, cofundador da Mobly.

Um dos móveis mais inusitados é um colchão. O Guldi, colchão de solteiro ou casal de molas ensacadas, pode ser transportado até em uma bicicleta. Embalado à vácuo, a embalagem é extremamente compacta, o que reduz o custo final. Victor Noda garante que, em duas horas, o ar entra no produto e ele se torna um colchão comum.

Atualmente, cerca de 10% a 20% dos lançamentos são exclusivos. O plano é chegar a algo entre 35% e 50% até o fim do ano. Os móveis exclusivos também serão expostos nas futuras lojas físicas.

A Mobly ainda tem muito o que crescer e ainda é jovem, mas já conseguiu deixar sua marca no mercado.

Colchão Guldi da Mobly loja virtual de móveis Colchão Guldi, embalado à vácuo

Colchão Guldi, embalado à vácuo (Mobly/Divulgação)