Na China, a Apple sofre um golpe, e os trabalhadores sentem a dor

Os consumidores chineses ignoraram o novo iPhone XR da Apple. As horas extras desapareceram. E agora os trabalhadores estão desistindo

Huojiancun, China – A fila era bem longa, do comprimento de um campo de futebol.

Em uma manhã recente, mais de cem trabalhadores chineses que montavam e testavam iPhones da Apple faziam fila em frente ao Portão 7 da fábrica de eletrônicos Changshuo para receber sua indenização e seguir seu caminho. Eles chegaram a achar que trabalhar na linha de montagem lhes daria um salário bom o suficiente para que melhorassem de vida.

Isso foi antes que os consumidores chineses ignorassem o novo iPhone XR da Apple e seu preço de quase US$ 1 mil. A quantidade de trabalho diminuiu. As horas extras desapareceram. E agora os trabalhadores estão desistindo.

“Geralmente, tínhamos de 80 a 90 horas extras por mês”, disse Zhang Zhi, de 25 anos, que trabalhou por dois anos na fábrica, mas que agora estava na fila de demissão. Desde o fim de outubro, seus supervisores começaram a mandá-la para casa mais cedo e davam fins de semana de dois dias, afetando suas horas extras. Em dezembro, seu salário foi de cerca de US$ 370, quase metade do que ganhava nos meses mais movimentados.

Zhang encontrou um emprego de meio período em outro lugar que paga cerca de US$ 600 por mês. “É melhor do que ficar aqui”, disse ela.

As fábricas da China já fizeram produtos para o resto do mundo. Atualmente, cada vez mais, fazem produtos para a China também. Sua vasta e ainda emergente classe de consumidores abriu um mercado extremamente rentável para companhias globais como a Apple, a Nike, a General Motors e a Volkswagen. Essas empresas usam fábricas chinesas para atender a essas necessidades.

Hoje, os consumidores do país estão mais relutantes em gastar, e muitos dos trabalhadores que dependem disso foram atingidos. A demanda menor por bens de consumo levou ao fim de postos de trabalho e à redução de salários. Isso está agravando a desaceleração econômica chinesa, um grande desafio para Pequim, que poderia pôr o país em desvantagem na guerra comercial com o presidente Donald Trump.

A China não divulga dados confiáveis sobre trabalho, mas há muitos sinais de diminuição de empregos em fábricas. As montadoras e as indústrias químicas estão se movendo em um ritmo mais lento. O feriado do Ano Novo Lunar é em fevereiro, mas algumas empresas mandaram seus funcionários para casa em dezembro.

Huojiancun não é o único lugar onde as vendas fracas do iPhone estão causando impacto.

Na cidade de Zhengzhou, o emprego em uma fábrica que faz iPhones caiu de cem mil há um ano para cerca de 70 mil, de acordo com a China Labor Watch, que acompanha as condições de trabalho no país.

Em uma declaração, o proprietário da fábrica de Zhengzhou, o fornecedor taiwanês Foxconn, não quis comentar diretamente os números do grupo, mas disse que estava constantemente revendo suas operações e planejava adicionar mais de 50 mil postos de trabalho por toda a China nos primeiros três meses do ano.

Um porta-voz da Apple, Wei Gu, mencionou as declarações anteriores da empresa e se recusou a comentar mais.

Huojiancun é uma comunidade industrial nos arredores da brilhante Xangai. Lanchonetes, barracas de cartões telefônicos e outras pequenas empresas que abastecem os trabalhadores das fábricas permeiam as ruas estreitas e os becos em torno da Changshuo.

Seus operários fazem o iPhone, mas não podem pagar por ele. Mesmo quando seu pagamento estava no auge, os empregados da linha de montagem precisariam do salário de mais de um mês para comprar um iPhone XR básico. Ainda assim, os empregos lá eram muito procurados, porque em geral pagavam mais e ofereciam melhores condições de trabalho do que em outros lugares.

Hoje, a situação é mais complicada. Está cada vez mais difícil atrair funcionários, porque eles não querem passar muitas horas em uma linha de montagem. As empresas chinesas estão explorando cada vez mais a automação por causa do aumento dos custos trabalhistas.

Os supervisores evitavam que os trabalhadores fizessem muitas pausas e descontavam no pagamento infrações como jogar lixo no chão, disse Hou Fuan, funcionário da Changshuo que se demitira e estava voltando para a província de Henan. Quando os trabalhadores foram saindo, disse ele, muitos dos restantes começaram a ter horas extras outra vez, engordando seus contracheques, mas aumentando a carga de trabalho.

“Dentro da fábrica, os trabalhadores são rigidamente controlados”, disse Hou. “Se uma pessoa não trabalha direito, todos no grupo levarão uma bronca do líder. Mas ninguém grita muito quando não há muitos operários.”

A fábrica Changshuo é propriedade da taiwanesa Pegatron. Suas ações perderam quase um quarto de seu valor desde meados do ano passado, quando a guerra comercial com os Estados Unidos recrudesceu, e quando aumentou o ceticismo em relação aos modelos mais recentes do iPhone, que foram lançados em setembro.

Um porta-voz da Pegatron, Ming-Chun Tsai, não quis comentar sobre o negócio da Apple.

Todos os anos, antes dos tradicionais lançamentos de iPhones em setembro, a fábrica Changshuo contratava trabalhadores temporários para acomodar a demanda. Ela oferece bônus que podem variar de US$ 400 a US$ 1.300, disseram os trabalhadores. Os trabalhadores qualificados devem ter entre 18 e 45 anos, ser capazes de reconhecer o alfabeto ocidental e não ter tatuagens visíveis, disseram.

Muitos funcionários saem, em geral, antes do feriado do Ano Novo Lunar, quando recebem seu bônus normalmente. Mas os trabalhadores e as empresas locais disseram que mais gente que o habitual estava partindo este ano.

Huang Qionghuang possui uma barraca onde vende sutiãs que não disparam detectores de metal, peça essencial na fábrica que revista os trabalhadores para se certificar de que não estejam roubando ou trazendo câmeras para tirar fotos do iPhone mais recente. No passado, outubro era seu mês mais movimentado, mas as vendas caíram nos últimos meses e ela não quer reabastecer seu estoque. Os que estavam sendo vendidos eram os mais baratos, custando cerca de US$ 2,50.

“Em janeiro passado, ganhei mais que o meu aluguel. Agora não ganhei o suficiente para pagá-lo”, disse Huang.

“Este é o pior período desde que cheguei aqui há três anos”, afirmou ela.

A Pegatron tem uma presença grande em Huojiancun. Em seu site, ela diz que a fábrica emprega 70 mil pessoas. As placas de neon penduradas entre as barracas as chamam de “mercado noturno da Pegatron”. Durante épocas mais movimentadas, de acordo com comerciantes locais, as ruas e os becos ficam tão lotados que mal dá para andar.

Recentemente, disseram os comerciantes, o mercado noturno da Pegatron começou a ficar mais silencioso.

“Há menos funcionários na fábrica”, disse Xu Aihua, que abriu um restaurante local com sua mãe há oito anos. Enquanto fazia uma sopa de frango, Xu apontou para a rua quase vazia. “Viu? Não tem ninguém.”

Isso pode significar tempos difíceis para ele e sua mãe. Seu aluguel custa cerca de US$ 1.500 por mês. Um ano atrás, sua receita diária era de cerca de US$ 150. Nos últimos meses, ganhou metade disso.

Em um dia frio, na fila no Portão 7, Wang Xiaofeng esperava por uma indenização que poderia ser de cerca de US$ 150. Um ano atrás, seu turno de trabalho era relativamente estável, mas em dezembro suas horas extras diminuíram.

“Tive três ou quatro dias sem trabalho em uma semana. Quanto vou ganhar?”

Wang disse que tinha achado um novo emprego, que lhe garantia mais horas e, portanto, mais dinheiro.

“Tomei a decisão certa. Não me arrependo”, concluiu.

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