Por que Murilo Ferreira, da Vale, não pode parar a novena de Agnelli

Prestes a completar um ano no comando da Vale, Ferreira é aprovado pelos analistas, e o único risco (visível) é o mercado chinês recuar

São Paulo – Em maio, Murilo Ferreira vai completar um ano como presidente da Vale. Quando tomou posse, a maior dúvida era se conseguiria suceder um executivo que se tornou uma lenda à frente da empresa – Roger Agnelli, que multiplicou por dez os ganhos da Vale na década em que a comandou. Aos poucos, porém, Ferreira vem conquistando a aprovação do mercado.

Especialistas consultados por EXAME.com afirmaram que, mesmo que inevitáveis, as comparações entre uma gestão e outra não fazem muito sentindo e a razão é uma só: o setor vive um momento diferente e com desafios completamente novos.

“Na gestão anterior, a mineração passava por um período de consolidação e expansão e Agnelli foi bem-sucedido nas suas estratégias. Hoje, o cenário é bem menos otimista, mas Murilo tem feito muito bem o seu trabalho”, afirmou Rafael Weber, analista do setor da Geração Futuro.

De acordo com Weber, mesmo com a queda de valor de mercado da Vale neste último ano – que passou de 256,7 bilhões de reais para 221,4 bilhões de reais, segundo dados da Economática -, algumas iniciativas de Ferreira foram positivas e marcaram seu primeiro ano de gestão.

China

“As ações da Vale foram umas das que menos caíram na bolsa neste último ano. Enquanto o Ibovespa apresentou queda de 7,1%, os papeis da Vale caíram 2,7%, mesmo diante de um cenário de maior volatilidade e incertezas”, disse Weber.

Para os analistas, a queda do valor de mercado da companhia não pode ser atribuída a uma eventual barbeiragem de Ferreira. O problema seria outro: a desaceleração do mercado chinês, principal cliente da Vale.


A China representa hoje mais de 30% da receita da companhia. “Qualquer acomodação lá impacta diretamente a Vale aqui. É inevitável”, afirmou um especialista desse setor, que prefere não revelar seu nome.

De acordo com o especialista, depender tanto da China, nos dias atuais, também é inevitável para a mineradora. “A Vale está à procura ativamente de novos clientes, mas, como a maioria das companhias, ela depende de um grande comprador”, afirmou.

Recentemente, em um almoço com a imprensa, Ferreira chegou a afirmar que a China vai continuar a ser um grande consumidor e que, apesar de projeções de crescimento menores, a demanda por minério de ferro vai continuar forte.

“Confiamos na China e não estou preocupado com o que vai acontecer nesse trimestre, no semestre seguinte ou no ano seguinte”, afirmou o executivo a jornalistas.

Foco em crescimento orgânico

Durante a década que esteve à frente da Vale, Agnelli realizou cerca de 30 aquisições, que somaram mais de 33 bilhões de dólares em investimentos. Sair às compras foi uma das estratégias do ex-CEO para fazê-la crescer. Já para Ferreira, aquisições não são prioridades.

Na última teleconferência com analistas, o executivo afirmou que a ordem agora era crescer organicamente e investir nos projetos que a companhia possui em andamento.

“A Vale tem uma carteira imensa de projetos e dar atenção especial a eles faz muito sentindo. Ela até pode fazer aquisições pontuais, mas Ferreira já deixou claro que a prioridade é finalizar os projetos internos”, afirmou o especialista em mineração.


Em um relatório recente, o J.P. Morgan afirmou que o risco da Vale anunciar uma grande aquisição é pequeno – e isso é muito positivo, segundo o banco. “Desde que assumiu o comando da mineradora, Ferreira adotou uma abordagem mais organizada para superar os desafios da implementação dos investimentos com foco em execução”, dizia o documento. 

Diminuir a diversificação de projetos e reforçar o foco em mineração são outras prioridades de Ferreira. Os investimentos previstos para 2012 somam 21,4 bilhões de dólares. A porcentagem de recursos a ser destinada a projetos de minerais ferrosos será de 46,7%. No último ano da gestão Agnelli, o montante foi de 35,5%.

Descentralizador

Outra característica positiva de Ferreira, destacada pelos especialistas, é a importância dada pelo CEO à sua equipe e a confiança depositada nela.  “Agnelli era mais centralizador, já Ferreira dá liberdade para que seu time enxergue as oportunidades e traga retorno à companhia”, disse Weber, da Geração Futuro.

É claro que o estilo de gestão varia de executivo para executivo – e não se pode dizer que um é melhor que o outro. “Agnelli e Ferreira têm personalidades diferentes e estilos diferentes. Cada um se expõe à sua maneira e até agora, ambos tiveram sucesso”, disse Weber.

Agnelli costumava brincar, em apresentações e teleconferências, que acendia uma vela todo dia para o seu maior cliente – garantindo anos de resultados bilionários. Com o cenário mundial mais sombrio, a novena da Vale para a China não pode parar – e Ferreira terá que encomendar muitas velas.