Muito mais que dinheiro

Na Alcoa, a participação de funcionários voluntários é¿a base da atuação social

A estudante paulista Karen Galeano, de 15 anos, tem uma rotina comum às meninas de sua idade. Mora com os pais no bairro de Socorro, periferia de São Paulo, e estuda no primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Dom Duarte Leopoldo e Silva, no mesmo bairro. Uma das melhores alunas da sua turma, Karen, que sonha em ser médica, foi uma das selecionadas para participar do programa Empresários para o Futuro, um entre os 610 projetos sociais realizados pela subsidiária brasileira da Alcoa. A partir de 21 de agosto deste ano, primeiro dia de integração entre os 23 alunos selecionados, sua rotina começou a mudar. Ela passa quatro horas por semana na sede da empresa, em São Paulo, aprendendo na prática como funciona um negócio.

Bem articulada e usando jargões empresariais, Karen é hoje a presidente da companhia fictícia criada pelos alunos e orientada por seis voluntários da Alcoa. Nosso objetivo é fazer uma empresa funcionar , diz Karen. Temos de otimizar o tempo, reduzir os custos e estimular os funcionários. Os 23 alunos optaram pela fabricação de bijuterias, dividiram os cargos e as tarefas, começaram a produção e partiram para as vendas. Vale lembrar: o vendedor recebe 10% de comissão sobre cada brinco ou anel vendido. É assim que funciona a Bijoux Mania a empresa fictícia estimulada pela Alcoa. Reuniões, impostos e até demissões fazem parte do programa. Karen foi eleita CEO pelos próprios colegas, e o jeito que tem para os negócios já anda pondo em dúvida seus planos com relação à medicina. Também tenho vontade de dirigir uma empresa , diz ela.

O programa Empresários para o Futuro existe há nove anos em cinco cidades brasileiras e já atingiu 424 jovens entre 14 e 17 anos. São quatro meses de aprendizado que mobilizam parte dos funcionários da companhia. Em São Paulo, o programa ocorre uma vez por semana e rouba quatro horas de cada voluntário. Eles, porém, não consideram uma perda de tempo. Nós contribuímos para a formação de bons frutos , diz Caio Manço, analista de controladoria, um dos voluntários da Alcoa. Para os adolescentes que participam do programa, as atividades semanais representam uma oportunidade única e rica na carreira. Para quem não tem oportunidade de pagar cursos, essa é uma chance maravilhosa , diz Karen.

Os 750 voluntários da Alcoa no Brasil trabalham com adolescentes como Karen, crianças carentes, idosos e portadores de deficiência os beneficiados pelos projetos que a empresa desenvolve em 22 cidades brasileiras, sempre em parceria com entidades governamentais ou ONGs.

O sucesso na implantação das obras sociais realizadas pelos funcionários da Alcoa (são eles que correm atrás das oportunidades e formatam todo o projeto) deve-se, em boa parte, ao Instituto Cultural Filantrópico, criado em 1990. O objetivo era aproveitar melhor os recursos cedidos pela Alcoa Foundation, com sede nos Estados Unidos. A criação do instituto possibilitou maior independência em relação à verba doada pela fundação, que oscilava a cada ano em decorrência de fatores externos. Se o preço do alumínio subia, por exemplo, recebíamos menos do que o esperado , diz Adjarma Azevedo, presidente da Alcoa no Brasil. Isso frustrava as expectativas.

Antes da criação do instituto, os funcionários da Alcoa contribuíam apenas com doações ou compra de equipamentos para entidades carentes. Apesar de importante, era uma forma mecânica e fria de contribuir , diz Azevedo. Não basta colocar dinheiro, é preciso acompanhar de perto cada projeto. No ano passado, o Brasil foi o país que mais recebeu recursos da Alcoa Foundation (1,2 milhão de dólares), perdendo apenas para os Estados Unidos. Por algumas razões. A abrangência dos projetos e, principalmente, o número de funcionários envolvidos em prol da boa cidadania (10% de um total de 7,5 mil pessoas) chamam a atenção dos líderes lá fora. O instituto é considerado modelo de excelência, e já há tentativas de reprodução da iniciativa nos 35 países em que a Alcoa está presente.

Para Azevedo, há outra razão que explica o crescimento acelerado dos projetos e a eficácia dos programas: A liderança participa . Pelo menos quatro vezes por ano, Azevedo se desloca para visitar novos projetos, inaugurar outros ou apenas acompanhar as obras em andamento. Participa também da formatura dos empresários do futuro e já pôs a mão na massa (literalmente) algumas vezes. A participação dos líderes nessas ocasiões faz toda a diferença , diz Azevedo. Na hora, não existe hierarquia. Somos todos voluntários.

De acordo com os planos da empresa, em 2004, 20% dos funcionários da Alcoa estarão envolvidos com algum projeto social. O voluntariado faz parte da cultura da empresa , diz Vanda Maria Vaz, secretária executiva há 30 anos, voluntária que nutre um carinho especial pela Casa Madre Teodora dos Idosos, em São Paulo. Aliás, um carinho revelado por outros voluntários da empresa. Nós vimos o desenvolvimento do asilo de perto , diz Viviane Veiga, analista de suporte. Mais de 42 mil dólares já foram doados ao asilo para construções e reformas, e sempre que possível os voluntários realizam chás e bingos para fazer companhia aos idosos. Temos um contato especial com eles , diz Viviane. Essa é a maior recompensa que podemos esperar.