Mr. Lam: o Eike que deu certo

No meio da década de 2000, Eike Batista já ambicionava ser o homem mais rico do mundo, mas detinha apenas um modesto recorde, esse jamais constado por ninguém: o de cliente mais esfomeado da história do Mr. Chow (badalado restaurante chinês de Nova York), o glutão capaz de devorar numa só noite 36 satays de frango, o tradicional espetinho oriental.

Gula, aliás, que chamou a atenção do dono do restaurante, o chef Sik Chung Lam, o Mr. Lam, que fez questão de conhecer pessoalmente o empresário brasileiro. A conversa terminou num grande negócio. Eike convenceu Lam a abrir em sociedade uma filial no Rio de Janeiro, batizada com nome do chef chinês, e em pouco tempo, ao custo de 8 milhões de dólares, ergueu, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, um suntuoso restaurante de três andares.

O resto é história. Eike viu o seu sonho ruir, virou protagonista de uma das maiores derrocadas econômicas dos últimos anos, transformando a megalomaníaca meta de virar o homem mais rico do mundo num amontoado de dívidas. Não sobrou pedra sobre pedra dos megaempreendimentos administrados pelo Grupo X, tampouco de seus negócios de valor mais afetivo, como o Hotel Glória, que ele prometia transformar no seis estrelas mais luxuoso do Rio de Janeiro, hoje controlado por um fundo árabe. Até mesmo a McLaren esportiva, avaliada em quase 3 milhões de reais e estacionada no meio da sala do empresário, teve que se vendida por um terço do valor.

A despeito de tudo isso, o Mr. Lam vai muito bem, obrigado. O restaurante completa dez anos de existência ignorando não só a decadência econômica vivida pelo seu proprietário, como a crise financeira que assola o país. Não é exagero afirmar que o restaurante chinês, que virou ponto turístico no Rio, o preferido de celebridades nacionais e internacionais, simboliza o “Eike que deu certo”.

Não há um sinal de decadência no chinês que oferece, no último piso, uma deslumbrante vista para a Lagoa Rodrigues de Freitas e para o Corcovado. Pelo contrário: o espaço com 180 lugares, em plena quarta-feira à noite, já tinha fila de espera – que costuma durar horas nos fins de semana.

O repórter da EXAME Hoje foi acomodado no segundo altar, onde o próprio Eike costumar jantar, hábito que ele retomou recentemente. No meio do turbilhão, para evitar o assédio de clientes e de jornalistas, o empresário evitou o restaurante. “Ele esteve aqui ontem”, diz Éder Heck, gerente da casa.

Heck e os garçons cuidam para que ninguém atrapalhe a refeição do chefe, que continua comendo satays de frango em quantidades industriais. A equipe, porém, não consegue evitar o burburinho de sempre. O gerente diz que ouve a mesma pergunta há anos, seguida de uma piadinha: ‘O Eike ainda é o dono do Mr. Lam?’É? Você não tem medo do restaurante falir? Vai embora enquanto é tempo!’”.

O pato de André Esteves 

Heck trabalha há nove anos e meio, ou seja, quase desde a abertura do restaurante, e garante que o Mr. Lam nunca viveu um momento tão bom e que dificilmente seguirá o caminho de outros negócios de Eike. A equipe, formada por chineses e brasileiros, é praticamente a mesma desde a fundação. Os salários, dizem, nunca atrasaram.

“O dono do Mr. Lam é o Eike pessoa física, não o empresário (o chef Lam tem 10% da sociedade e Thor Batista, um dos filhos do empresário, cerca de 2%). Ele sempre colocou dinheiro do bolso dele aqui. É sua grande paixão, mas isso não quer dizer que o restaurante não dê lucro, que não se paga”, diz o gerente. O lucro médio, garante Heck, está na casa dos 13%.

É claro que o seu patrão viveu momentos mais prósperos. Na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, ao assistir, no restaurante, a Alemanha golear a Argentina por 4 a 0, Eike, filho de mãe alemã, mandou avisar que a champanhe era por conta da casa.

O mimo não se repetiu na Copa seguinte, no Brasil, quando a Alemanha ganhou o título, vencendo também a Argentina. “Hoje, se eu servir de graça alguma Veuve Clicquot daquela adega, eu estou no olho da rua”, brinca Heck, apontando para a Veuve Clicquot Vertical Limit, nome dado à luxuosa adega projetada exclusivamente pela Porsche Desing Studio, a única, reforça Heck, com esse formato em todo o mundo.

Cerca de 35% da clientela do Mr. Lam é formada por executivos e empresários. Muitos negócios foram fechados no segundo andar do restaurante – grandes cortinas vermelhas dividem o ambiente em espaços menores. Ali, são devorados dezenas de Peking Duck, pato inteiro laqueado, uma das especialidades da casa, o prato preferido, conta Heck, também de um famoso banqueiro carioca, que reside em São Paulo. “Ele tem loucura por esse pato. Chegou a mandar um helicóptero de São Paulo para o Rio só para buscar o pato. Não vou dizer o nome, nem se você insistir”, diz o gerente, fazendo mistério. O repórter insistiu. “Está bem. É o André Esteves (dono do BTG Pactual). Mas as outras histórias, e têm muitas outras, eu não vou contar, não”. Ah, se a adega projetada pela Porsche falasse.

(Tom Cardoso)