Morre Lázaro Brandão, o banqueiro do “monolito”

Executivo ajudou a criar o Bradesco na década de 40 e sucedeu o fundador Amador Aguiar como presidente do banco nos anos 80

A Bradespar, empresa de participações controladora do Bradesco, comunicou na manhã desta quarta-feira a morte de Lázaro de Mello Brandão, ex-presidente do conselho de administração do segundo maior banco privado do país. Aos 93 anos, Brandão era a maior referência do Bradesco e figura proeminente do mercado financeiro brasileiro nas últimas décadas. Comandou o conselho de administração do banco até outubro de 2017, quando passou o bastão a Luiz Carlos Trabuco Cappi, que acumulou o cargo com o de presidente executivo até março de 2018.

“Homem de visão de futuro e inesgotável capacidade de trabalho, foi uma personalidade marcante, que influenciou a todos que com ele conviveram. Será sempre lembrado pelo talento, honradez, capacidade empreendedora e sua fé no Brasil”, afirmou a Bradespar em comunicado.

O Bradesco, em comunicado assinado por Trabuco Cappi, disse: “Perde o sistema financeiro um dos mais ilustres e tradicionais representantes, que sempre soube guiar-nos pelos elevados ideais de honestidade, coerência profissional e dedicação. As lições que deixou certamente continuarão a influenciar positivamente as atuais e futuras gerações”.

Brandão estava internado no Hospital Edmundo Vasconcelos, em São Paulo, recuperando-se de uma cirurgia para tratar uma diverticulite. A causa da morte não foi informada. Economista e administrador de empresas, o banqueiro deixa a mulher, duas filhas e um neto. 

Nascido em Itápolis, no interior de São Paulo, o executivo trabalhou por 77 anos no Bradesco. Começou em uma agência em Marília em 1942. “Seu” Brandão, como era chamado por funcionários e altos executivos do banco, era, no papel, um funcionário do banco. Mas, na prática, era o mais próximo de um dono que o grupo tinha. Até recentemente continuava batendo ponto de segunda a sexta na sede do banco, em Cidade de Deus, Osasco, chegando por volta das 7h da manhã.

Hoje, o controle da instituição é dividido entre executivos, conselheiros e herdeiros de Amador Aguiar, fundador do banco. Juntos, eles têm 39% do capital. A fatia de Brandão não é divulgada, mas pessoas próxi­mas estimam que não chegue a 1%.

Gra­ças ao peculiar modelo de gestão do Bradesco, porém, essa pequena participação era suficiente para dar a ele a palavra final em todas as decisões estratégicas. Desde que assumiu o conselho, em 1990, após o afastamento de Amador Aguiar, que morreu em 1991, ninguém – nem os herdeiros, nem outros executivos, nem investidores – teve interesse em mudar isso.

“Somos como um monolito”, disse Brandão a EXAME em 2014. “Os funcionários trabalham pelo conjunto, e o grande objetivo é preservar nossa cultura e a consistência que temos ao executar tarefas e nos posicionar no mercado.”

O Bradesco se tornou um dos maiores bancos do Brasil apoiado num modelo de gestão que, na teoria, tem tudo para dar errado. É quase uma anticartilha da “gestão moderna”. A hierarquia é rígida, a rotina é pouquíssimo flexível (conseguir emendar um feriado é uma vitória) e o tempo de casa pesa nas promoções.

Os presidentes de outros grandes bancos brasileiros divulgaram notas de pesar pela morte de Brandão.

“O banqueiro Lázaro Brandão foi um dos pilares na construção de uma organização contemporânea e à frente do seu tempo. Pensava em tecnologia e clientes muito antes, e construiu uma das culturas mais sólidas de um grupo corporativo no Brasil. Deixo nosso agradecimento por ter liderado a indústria durante muito tempo e deixado um legado de valor inestimável”, escreveu Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil.

“Executivo de carreira ímpar e longeva no setor financeiro, seu Brandão foi personagem-chave não apenas para a construção de um dos maiores bancos do mundo, mas também para o desenvolvimento da economia brasileira nas últimas décadas. Pessoa íntegra e dedicada ao trabalho e à família, deixa sua marca e boas lembranças para todos nós”, escreveu Candido Botelho Bracher, presidente do Itaú Unibanco.

Renovação 

Nos últimos anos, o Bradesco vinha colocando à prova sua cultura de gestão conservadora num ambiente de ebulição para o mercado bancário brasileiro, com o crescimento dos bancos digitais, das fintechs e das gestoras independentes. Conseguiu sair na frente em algumas áreas. No final de 2017, lançou o seu próprio banco digital, o Next, com operação separada da original. Foi também o primeiro a adotar a biometria nos caixas eletrônicos e o depósito instantâneo, sem envelopes, nas máquinas de auto-atendimento. Nos últimos dois anos, o banco está sob o comando do presidente Octavio de Lazari Junior, que, como seus dois antecessores, começou no Bradesco ainda adolescente e foi subindo degrau por degrau na carreira.

Além da maior concorrência com instituições financeiras digitais, os grandes bancos brasileiros tradicionais também estão precisando lidar com juros em queda, que tendem a pressionar a receita e a rentabilidade. A taxa Selic, referência do país, foi cortada em setembro em 0,5 ponto percentual para 5,5% ao ano, a menor da história.

Os balanços dos bancos ainda seguem firmes. No segundo trimestre, o Bradesco anunciou lucro de 6,462 bilhões de reais, superando a previsão média de analistas de 6,059 bilhões de reais. A rentabilidade sobre o patrimônio líquido atingiu 20,6%, nível mais alto dos últimos 16 trimestres, de acordo com material de divulgação do balanço. O banco ainda apresentou crescimento de 8,7% na carteira de crédito, para 560,54 bilhões de reais.

Brandão ajudou a fazer do Bradesco um gigante sob medida para o Brasil dos últimos 60 anos. Construiu uma enorme e eficiente rede de 48.879 agências e postos de atendimento país afora. Agora, seus sucessores têm o desafio de construir uma instituição que dê respostas para um novo Brasil, em que as demandas dos clientes podem tanto estar atrás das portas giratórias quanto, principalmente, na tela dos smartphones.