Montadoras testam o apetite do Brasil por carros “verdes”

Dúvida é se o apelo ecológico levará os consumidores a aceitarem o preço elevado dos modelos

São Paulo – Recentemente, o Brasil se tornou o quarto maior mercado automotivo do mundo, com vendas previstas para 2010 de cerca de 3,5 milhões de unidades. A crescente importância do país no cenário mundial já leva as montadoras a testar o apetite brasileiro por inovações que, de outro modo, poderiam demorar para chegar aqui. Uma delas são os carros “verdes” – os queridinhos das empresas no Salão do Automóvel deste ano.

A melhoria da renda dos consumidores, o maior acesso ao crédito, a crescente preocupação com o meio ambiente e a necessidade de as montadoras diversificarem seu portfólio de produtos são alguns dos fatores que as levam a apostar nos carros híbridos e elétricos no Brasil.

A Ford é a primeira marca a trazer um modelo híbrido ao país. O Fusion Hybrid estará disponível para venda a partir da próxima semana. O campeão de vendas da categoria nos Estados Unidos chega ao Brasil para reforçar a estratégia da Ford, que pretende investir em novas tecnologias e na sustentabilidade.

O modelo promete gastar até 30% menos combustível do que um carro popular. E de popular, o Hybrid não tem nada. A montadora vai importar os modelos (o número não é divulgado) e quem quiser comprar o mimo terá de desembolsar 133.900 reais. “O aspecto da sustentabilidade é cada vez mais importante para nós, por isso decidimos trazer esse modelo ao Brasil”, disse a EXAME.com o presidente da Ford para o Mercosul, Marcos de Oliveira.

Novos modelos

A alemã Volkswagen também trará a tecnologia híbrida ao Brasil a partir de 2011 em seu carro Touareg V6. A japonesa Honda terá dois modelos: o híbrido CR-Z e o elétrico EV-N, que ainda é um protótipo. A francesa Peugeot anunciou a chegada do modelo híbrido RCZ para o próximo ano.


Nessa linha, a Nissan apresentou o modelo elétrico Leaf. “O mercado brasileiro tem potencial para aceitar tecnologias limpas”, diz Christian Meunier, presidente das operações no Brasil. A montadora assinou um acordo de intenções com o estado de São Paulo e agora espera definições para trazer o carro ao país.

O preço ainda não foi definido, mas terá de ser acessível como acontece nos Estados Unidos. Por enquanto, o modelo será importado. “Precisamos ver como será a aceitação do carro no país. A fabricação do Leaf no país só se justifica se vendermos cerca 17.000 unidades por ano”, afirma.

Mais cautelosa, a americana Denise Johnson, presidente da unidade brasileira da General Motors (GM), afirma que a montadora não vai focar em tecnologias sustentáveis no país. “Vamos esperar para ver se há a demanda do consumidor. Em caso positivo, podemos reavaliar essa posição”, disse ela à EXAME.com. “Carros elétricos e híbridos são parte da estratégia global da empresa.”

Economia ou consciência?

O uso de um combustível menos poluente já é uma tradição no Brasil. O motor a etanol é uma tecnologia nacional que chamou a atenção do mundo. Se o carro não for flex, é mais difícil vendê-lo por aqui.

Isso poderia indicar a disposição dos brasileiros de evitar a poluição ambiental, não fosse por um motivo: a demanda por etanol é, sobretudo, uma questão de economia na hora de abastecer. É conhecida a conta de qualquer proprietário de carro flex em frente à bomba de combustível: se o etanol ultrapassar certo valor, é melhor comprar gasolina. A menor emissão de poluentes é, mais, um efeito colateral do que uma postura consciente dos proprietários de automóveis.

A chegada dos carros híbridos e elétricos seria um verdadeiro teste do apetite dos brasileiros por tecnologias limpas, não fosse o preço elevado. É claro que novas tecnologias tendem a ser mais caras – quem não se lembra de quanto custava uma televisão LCD há alguns anos? A dúvida é quanto a demanda poderá baixar o preço dos veículos. E ainda não se sabe se os brasileiros vão abrir o bolso em favor do meio ambiente – e do que as montadoras apostam ser o futuro dos automóveis.