“Minha saída é por razões puramente pessoais”, diz Maria Sílvia

Leia os principais trechos da entrevista feita com Maria Sílvia Bastos Marques quando ela deixava a direção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional).

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Maria Sílvia Bastos Marques, que deixa a direção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional).

EXAME – Por que você decidiu sair da CSN?

Maria Sílvia Bastos Marques – A minha decisão não é tão glamourosa como saiu em alguns jornais – eu não serei candidata a nada. Mas não é tão tenebrosa como saiu em outros, que falaram em brigas e desentendimentos. Até na época em que eu concedi a entrevista à EXAME (em fevereiro deste ano), minha decisão de sair já estava tomada há alguns meses. Eu decidi sair em setembro do ano passado. Decidir no sentido de marcar data. Minha cabeça já estava sendo feita há algum tempo e, em setembro, eu conversei com os acionistas da empresa Benjamin (Steinbruch) e Jacks (Rabinovich)- e disse que pretendia sair em abril. É o mês da assembléia que aprova os resultados do ano anterior. E o porquê de marcar uma data é que, se a gente não faz isso, não sai. Essa empresa tem muitos projetos, tem uma dinâmica muito grande, um dia a dia muito pesado. Sem colocar um ponto para interromper, fica muito difícil sair.

EXAME – Mas por que sair?

Maria Sílvia – A razão da minha saída, acreditem as pessoas ou não, é unicamente a vontade de dar uma parada de dois meses. Botar a minha vida em ordem. Descansar, porque estou muito cansada, e depois ver o que vou fazer daqui para frente. Não é um cansaço da CSN. É uma coisa que vem de muitos anos. Basta olhar a minha carreira. Eu tenho ido de um desafio para outro. Sempre saí de um lugar e entrei em outro no dia seguinte. Nesse meio tempo eu perdi um irmão, ganhei dois filhos, me separei e não tive tempo de sentir de verdade. Eu conquistei esse direito de parar por dois meses. Sei que as pessoas não entendem. Eu desenvolvi uma tese de que as mulheres estão entendendo bem. Isso é uma decisão de cabeça de mulher e não de cabeça de homem.

EXAME – Mas você nunca seguiu muito esse modelo feminino. Tanto que quando você teve seus filhos, para surpresa de muitas mulheres, você só tirou um mês de licença maternidade. É uma mudança também na forma de agir?

Maria Sílvia – Não é não. Eu nunca pensei como homem. Pelo contrário. Meu grande diferencial como executiva foi ser uma boa executiva e ter uma cabeça feminina. Eu sempre usei o fato de ser mulher como um “plus”. Sempre brinquei com meus diretores que tenho uma arma a mais do que eles e sei usar muito bem. E sei mesmo. A coisa das crianças foi uma fase. Quando vim para cá já estava grávida, tinha responsabilidade em formar equipe, estruturar a companhia e o tempo foi muito curto. Entrei aqui com quatro meses de gravidez, tive os bebês quatro meses depois e foi um período muito difícil. Nós renovamos 80% dos quadros gerenciais da companhia. Hoje, do pessoal que gerencia a CSN, talvez eu seja a que tem mais tempo aqui. Então, naquela época, era um momento muito difícil e eu nem pensei em me afastar durante a licença porque era impossível. A companhia precisava que eu estivesse aqui. Quando vim para cá, eu sabia que seria assim.

EXAME – Como você administrou isso na época?

Maria Sílvia – Para falar a verdade, o pouco tempo que eu fiquei em casa foi um inferno. Fiquei trabalhando em casa, fazendo reunião em casa, recebendo fax, dando telefonemas.

EXAME – E como foi sair da CSN?

Maria Sílvia – É muito difícil alguém aceitar que uma pessoa decida sair de uma empresa como a CSN. Para mim foi difícil também. Até porque a minha ligação com as pessoas é muito grande. Ficou todo mundo triste com a minha saída. Eu fico triste também pelas pessoas, porque me sinto responsável por elas. Mas acho que está na hora de fazer isso.

EXAME – Você está saindo em um momento em que os resultados da CSN não são muito positivos. O balanço da CSN em 2001 não foi muito bom. Isso teria uma relação com a sua decisão?

Maria Sílvia – Em primeiro lugar, é preciso ficar claro que não existe nenhuma briga com o Benjamin. Ele está sentidíssimo com minha saída. Eu continuo muito amiga dele. A melhor coisa é o tempo. As pessoas vão ver o que é ou não verdade. Os resultados da CSN não podiam ser tão bons como os de 2000 porque, em 2000, nós vendemos nossa participação na Vale do Rio Doce e na Light. O endividamento não é muito alto. Não é maior do que o das nossas concorrentes. No ano passado, o alto forno parou três vezes e a laminadora também, mas voltaram ao normal nesse ano. Essa foi a única razão porque produzimos menos e vendemos menos no ano passado. Foi um ano difícil operacionalmente, com dois dos mais importantes equipamentos parados. Isso já está ultrapassado. Retomamos a produção. Eu não estou saindo porque estou perdendo poder, porque o Benjamin quis tirar o João Luiz Barroso (braço direito de Maria Sílvia que foi demitido da empresa no ano passado). Isso é tudo mentira.

EXAME – A companhia teve problemas também com a operação de hedge da sua dívida que é muito alta em dólares. A CSN fez essa operação com o câmbio a 2,70 reais e o dólar caiu para 2,30 reais. A perda está sendo estimada em 130 milhões de reais. Teria sido, na visão do mercado, uma operação errada. Como você vê essa crítica?

Maria Sílvia – Acho que as pessoas estão procurando uma razão para justificar a minha saída. Só que essa razão não existe. No caso do hegde, nós tínhamos o balanço parcialmente protegido no ano passado. Em setembro, depois dos atentados nos Estados Unidos, o conselho de administração da CSN decidiu fazer um hedge no total do nosso balanço. Uma decisão de hedge não é decisão de uma só pessoa. Não é uma decisão de diretoria. É uma decisão de administração. Na época todo mundo apostava que o câmbio iria para 3 reais, 3,5 reais. Eu acho muito fácil para quem não está no dia-a-dia das empresas ficar agora dizendo que perdemos dinheiro. É verdade, perdemos. Mas a empresa podia ter ficado em uma situação muito pior se o dólar tivesse ido para os níveis esperados. A engenharia de obras feitas é ótima, principalmente para quem não está sentado na cadeira tomando decisões. É a mesma coisa que dizer que o Banco Central podia ter reduzido as taxas de juros. Podia, mas no dia seguinte estoura uma guerra e vai tudo para o espaço. Eu já estou cansada de ouvir essas coisas. Divulguei isso no nosso balanço. Nós fizemos diferimento da variação cambial. Não existe o que as pessoas querem fazer. Isso me deixa chateada. Querem criar um fato onde não tem. Os fatos que existem estão nos nossos balanços, nos nossos relatórios. Nos resultados de 2001 que eu divulguei não foi mais ninguém, fui eu esse assunto foi tratado da forma mais explícita e transparente possível. Porque não pode ser diferente. Nós somos uma companhia aberta.

EXAME – Então você não vê erro na operação de câmbio?

Maria Sílvia – E se o dólar tivesse ido para 3,50 reais, como ficava? Acho que todo mundo se esqueceu como nós vivíamos no Brasil em setembro. O câmbio foi para 2,90 reais e todo mundo achando que ia para o fim do mundo. Foi por isso que a empresa resolveu fazer esse hedge para a proteção do balanço. Isso não tem absolutamente nada a ver com minha saída. Nossos resultados operacionais no ano passado, até o terceiro trimestre, sofreram com as reformas do alto forno e do laminador. No quarto trimestre eles já se recuperaram e, quando divulgarmos os resultados agora do primeiro trimestre, todo mundo verá como o resultado operacional está cada vez melhor. Não existe essa coisa de um problema na empresa fazer a pessoa sair. Não é um erro, que não foi individual, que vai mudar tudo, que vai mudar a imagem de tudo o que você fez de bom. E não foi só essa aposta errada que foi feita aqui. Erro faz parte do dia-a-dia. Em geral, todo mundo só mostra os acertos e não mostra os erros. A gente é bem ao contrário, e até por isso ganhamos o prêmio de melhor empresa da EXAME. Nós mostramos o que está certo e, quando dá errado e impacta os resultados, nós divulgamos da mesma maneira.

EXAME – A sua saída não tem nenhuma relação com esses resultados.

Maria Sílvia – Minha saída é por razões puramente pessoais. Apenas os acionistas sabiam. Eles pediram para eu ficar.

EXAME – O que se fala agora é que uma parte da empresa seria vendida para uma siderúrgica inglesa. Essa informação procede?

Maria Sílvia – Eu me dou ao direito de não falar sobre o futuro da empresa porque não estou mais no comando dela e não gostaria de me pronunciar. O que eu posso dizer é que, durante o descruzamento das ações da Vale e da CSN, a grande briga da consolidação do controle acionário da CSN era exatamente que essa companhia permanecesse com um controlador nacional, que ela não fosse vendida separada da sua mina. Essa foi uma batalha grande, maior do que as pessoas imaginam, e que fomos vitoriosos. Então, nunca esteve nos planos dos nossos controladores vender o que quer que fosse. O plano da CSN é crescer, fazendo aquisições, fazendo projetos que mantenham a companhia íntegra da forma que está.

EXAME – Isso é possível considerando que a companhia tem de pagar altos dividendos para que o controlador possa pagar sua dívida junto ao BNDES e credores privados contraídas no processo de descruzamento das ações da Vale?

Maria Sílvia – O processo de descruzamento foi feito em cima de um projeto de aquisição do controle, baseado nos resultados da empresa que está sendo adquirida. A empresa alavanca os resultados. Faz-se uma projeção do que seria um resultado esperado, conservador sempre, e que tornaria possível o serviço da dívida. As premissas da dívida em cima das quais foi feito o descruzamento da CSN até hoje se confirmaram. A companhia está em uma trajetória ascendente, os resultados operacionais são cada vez maiores. A reforma do alto forno ampliou a nossa capacidade. Esse ano, pela primeira vez, a CSN vai vender 5 milhões de toneladas de produtos acabados, produzindo 5,5 milhões de toneladas de aço bruto. Aumentamos nossa capacidade. Em princípio, vamos atingir esses resultados. Agora, existem outras variáveis, como o preço do aço. Nesse aspecto, os prognósticos também são favoráveis. O preço do aço caiu muito, mas agora está se recuperando no mercado internacional. No que eu enxergo hoje, não há qualquer tipo de problema.

EXAME – A senhora já tem algum lugar em vista para trabalhar daqui a dois meses?

Maria Sílvia – Não. Nem quero. Quero tirar férias. Não quero nem ouvir falar do assunto, por enquanto. Mas não estou me aposentando. Quero tirar dois meses de férias para decidir o que vou fazer.