Mickey Mouse e seus novos amigos devem mudar o setor de streaming

Aquisição da Fox pela Disney lança dúvidas sobre o futuro de produções independentes e transforma a batalha dos serviços de streaming

Los Angeles — “Estamos sempre interessados em conteúdo e criadores de conteúdo. Acreditamos que o conteúdo é tudo, é o centro de nossos negócios”, disse Bob Iger, CEO da Disney, no final de julho, abrindo os trabalhos da D23 2017, a convenção bi-anual na qual o estúdio anuncia novos projetos e reacende a fé dos fãs fiéis.

Naquele momento, apenas os executivos no mais alto nível do estúdio sabiam que, há meses, nos bastidores, a liberal Casa de Walt estava conversando com o ultraconservador Rupert Murdoch sobre algo que ambos têm em comum: conteúdo e dinheiro.

Tudo começou em 2009 com a aquisição de outro gigante do conteúdo, a Marvel. Ao longo dos anos a Marvel fizera acordos diversos com, entre outros, Fox e Sony, pelos direitos de certos elementos de seu vasto acervo de personagens e franquias. Um naco bem saboroso — os X-Men – estava firmemente alojado na Fox, que, oito anos atrás, não tinha o menor interesse em negociá-lo.

No espaço de quase uma década a Disney provou (como se houvesse dúvida) que sabia administrar super-heróis tão bem quanto bichinhos falantes ou contos de fada. E Rupert Murdoch perdeu o gosto pela brincadeira de ser dono de estúdio, focando suas atenções na divisão de notícias.

As conversas da Fox começaram, por meio de intermediários, inicialmente, com a Comcast e a Disney. Analistas não acreditavam que a Comcast fosse até o fim da negociação – a fome da Disney pela agregação de conteúdo diversificado era uma locomotiva poderosa.

Em novembro, as negociações pararam. No começo de dezembro, a Comcast pulou fora. E agora a aquisição se completou: por uma troca de ações no valor de 52,4 bilhões de dólares, a Disney assume os 14 bilhões de dólares de dívida do estúdio — uma das principais motivações para Murdoch colocar a Fox à venda — e toma posse de todos os bens de conteúdo, seus canais regionais de esporte e de variedades, inclusive National Geographic, FX e FXX e deixando com Murdoch os canais nacionais Fox Sports, Fox News e seus jornais impressos. Murdoch, por sua vez, agora controla 5% das ações da Disney.

Os prédios históricos (e lindos) da Fox em Century City, na zona oeste de Los Angeles, serão alugados pela Disney por sete anos. A propriedade é parte da história do cinema na cidade, e, nos anos 1960, quase trocou de donos graças ao fracasso do filme Cleópatra, estrelado por Eisabeth Taylor e Richard Burton.

O impacto da fusão Disney-Fox é imenso. Em 1935, quando outra fusão — a da Fox Film Corp., de William Fox com a 20th Century, de Joseph Schenck e Darryl F. Zanuck — deu origem ao estúdio que hoje a Disney adquiriu, Hollywood estava engatinhando, e cinema como negócios parecia algo mais misterioso e incerto que os atuais bitcoins.

Agora, a fusão altera a história e o mercado. Historicamente, um dos seis grandes estúdios fundadores de Hollywood deixa de existir como entidade autônoma. As repercussões disso serão sentidas a longo prazo, afetando o acesso e distribuição de materiais de grande importância – entre eles, a maior parte do acervo cinematográfico de Carmen Miranda, para mencionar algo bem próximo de nós.

Em termos da indústria, o primeiro choque será, inevitavelmente, uma série de demissões. A Disney tem um dos mais eficientes departamentos de marketing e distribuição de Hollywood, e espera-se cortes drásticos na Fox nesse setor. Num manifesto veemente, o sindicato dos roteiristas acaba de protestar contra “mais um movimento de coerção da competição”. “Os seis grandes estúdios sempre se esforçaram para controlar o mercado de trabalho da indústria do entretenimento, frequentemente às custas do trabalho dos criadores, que são a força motora da televisão e do cinema”, diz o documento, divulgado duas horas depois do anúncio da fusão. “Esta recente aquisição vai apenas tornar ainda mais grave este quadro.”

Estruturalmente, a aquisição torna a vida mais difícil para todos os produtores independentes – a começar pela divisão Fox Searchlight, um dos bravos remanescentes da era em que todos os estúdios (inclusive a Disney) flertavam com o modelo de múltiplas camadas de conteúdo, com diferentes custos e metas de mercado. Depois da crise financeira de 2008 e da adoção do modelo “mega-blockbuster ou nada” – do qual a Disney é, agora, o líder – a vida ficou muito mais complicada para qualquer projeto fora desse quadro. Com uma trajetória de prestígio, repleta de boas bilheterias e prêmios, como Juno, Cisne Negro, Slumdog Millionaire, 12 Anos de Escravidão, O Grande Hotel Budapeste e, este ano, A Forma da Água, a Searchlight é líder no setor independente, mas até quando? E, sem ela, até quando o próprio setor será viável?

É claro que este aspecto tem repercussões ainda maiores sobre a própria história e estética do cinema norte-americano. Com toda a Liberdade que a Disney dá às marcas que adquiriu — Pixar, Lucasfilm, Marvel — o estúdio tem um claro modelo de negócios que favorece o projeto de ser forte, leia-se retornos milionários, nos quatro quadrantes de público: homem jovem, mulher jovem, homem adulto, mulher adulta (algo que interessa todos na indústria do cinema, como salas de exibição, em todos os países). Isso, em si mesmo, é uma definição estética.

E ainda temos a questão streaming, onde os analistas não conseguem decidir se o impacto da aquisição é positivo ou negativo. O grupo Fox detinha 30% do canal Hulu, o primo pobre do cada vez mais expansivo universo dos canais de streaming e eternamente em terceiro lugar atrás de Netflix e Amazon Prime Video. Com a compra, a Disney, que já era sócia no Hulu, será a controladora do serviço, com 60% da ações. A Comcast tem 30% e a Time Warner tem outros 10%. Com pouquíssimo material original, o Hulu só começou a deslanchar agora, graças ao sucesso da série The Handmaid’s Tale. A Disney, claramente, está se movimentando no setor agressivamente desde que retirou seus títulos da Netflix. Sua intenção é, claramente, ser competitiva na área mais aquecida da indústria. O Hulu pode ser a solução, mas, segundo os analistas há dúvidas do tipo: será que a Disney entende a necessidade de diversidade e de segmentação para ser vitoriosa nesse setor? Sabe como operar dentro de uma escala menor, mais ágil, que não depende de retornos imediatos?

O lado positivo: há a aposta de que com a entrada desse gigante no setor de streaming, Netflix e Amazon venham a expandir seus catálogos para enfrentar a concorrência. A expectativa é que eles possam cobrir, quem sabe, as lacunas de gêneros narrativos e histórias deixadas pela domínio dos blockbusters nos cinemas.

Com tantas dúvidas, Bob Iger, por sua vez, defendeu seu campo – seu contrato é parte da aquisição, renovado até 2021.