Será que você sabe o que está por trás das suas decisões?

Cientistas estimam que 95% dos nossos processos cognitivos são inconscientes, ou seja, operados sem o nosso controle racional

*Jimmy Cygler

Você já se imaginou dentro de um avião conduzido por um piloto que nunca operou uma cabine de comando? Um alguém que não tenha sequer tirado o brevê? Se a imagem que veio à sua cabeça lembra um filme engraçado da sessão da tarde, saiba que isso pode estar acontecendo com você neste momento.

Vou explicar melhor: carregamos acima dos nossos ombros a máquina mais complexa e maravilhosa do universo, chamada de cérebro. Ele comanda bilhões de neurônios e um número incalculável de conexões com o restante do corpo, enviando mensagens para todas as nossas células como um verdadeiro líder. Apesar dos inúmeros estudos em torno dele, nós não fazemos a mínima ideia de como ele funciona na prática.

Cientistas estimam que 95% dos nossos processos cognitivos são inconscientes, ou seja, operados sem o nosso controle racional; nós só conseguimos gerenciar o restante. Imagine que o inconsciente executa uma enorme quantidade de operações a cada segundo, sendo que todos os estímulos externos dos sentidos passam por ele, bem como as sensações internas do corpo (como fome e cansaço), que codifica tudo em emoções, memórias e pensamentos. Desta forma, podemos decidir sobre algumas coisas que realmente merecem a atenção da área racional do cérebro. É uma forma de o corpo poupar energia, senão não daríamos conta de racionalizar sobre tudo que acontece à nossa volta.

Sendo assim, podemos dizer que o cérebro desmistificado é o nosso software. Essencialmente, ele nos dirige e nos faz ser o que somos, com todas as nossas caraterísticas, inclusive genéticas e culturais – se tivemos uma infância feliz ou carente, se houve acesso a mais ou menos estudo, informações sobre o local onde moramos, dos livros que já lemos… Tudo está registrado e forma um emaranhado de conexões, que por sua vez comandam não apenas nossos pensamentos, mas também o funcionamento de todo nosso corpo. Sim, o cérebro toma decisões por você.

Isso explica porque temos algumas atitudes em detrimento de outras. Em 1983, o psicólogo Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, causou polêmica com sua demonstração de que a noção de livre arbítrio pode ser uma ilusão – este é um dos experimentos mais famosos da neurociência. Ele mostrou que as decisões racionais ocorrem segundos depois de processos neurais inconscientes se ativarem. De lá para cá, munidos de aparelhos de ressonância magnética, outros estudiosos analisaram cérebros de voluntários e comprovaram a hipótese de Libet. Constataram que, quando uma pessoa “faz uma escolha” consciente (como apertar um botão), o inconsciente dela já decidiu – a atividade cerebral ligada àquela decisão começa até 10 segundos antes de você ter como verbalizar aquela decisão.

O experimento de Libet vem de duas suposições relevantes sobre a inteligência humana. A primeira é a ideia de que a mente é algo separado do corpo físico. A segunda suposição que temos, e que torna o estudo surpreendente, é a crença de que conhecemos nossas próprias mentes – e isso não é verdade.

A maioria dos seres humanos não tem a mínima ideia de como o cérebro funciona. Consequentemente, não seria uma leviandade dizer que a maioria das pessoas não tem controle das suas vidas, simplesmente porque não compreendem o software que as controla. É como se estivessem visitando a Cidade de São Paulo sem ter o nome das ruas, nem vendo as placas de sinalização.

Diante de tanta informação, creio que a palavra-chave para aprender a desvendar esse mapa seja autoconhecimento. Em tempos nos quais as pessoas agem por impulso por inúmeras razões, o primeiro passo é tomar consciência da nossa ignorância e adquirir mais humildade para empenhar-se no autoconhecimento.

Terá condições de realizar mudanças de comportamento para melhor aquele que tentar entender o que lhe move, o que lhe causa estímulos e quando é preciso controlá-los; aquele que decidir estudar seus próprios porquês vai conseguir pilotar o avião da sua vida. Sem compreender o funcionamento do seu próprio cérebro, seremos escravos dele e ele fará conosco o que quiser.

Outro dia, eu estava lendo um livro e deparei-me com uma passagem na qual Marlon Brando, que nasceu quase um século atrás, defendia a mesma ideia.

E eu achando que eu era original!

Creio que este é um bom motivo para motivar as pessoas a conhecerem seu próprio software.

Afinal, por que você faz o que faz?

*Jimmy Cygler é presidente institucional da Proxismed, empresa especializada em jornada de relacionamento em saúde. Foi durante 13 anos professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) em disciplinas relacionadas à gestão de relacionamento com clientes.