Insegurança: a realidade que envolve o transporte de cargas no Brasil

A situação é preocupante e exige atenção. O cenário? O transporte de cargas no Brasil, mais especificamente o modal rodoviário. Personagem que desponta em cena? A insegurança.

Não é de hoje que as rodovias que cortam o país não são reconhecidas pela qualidade das pistas ou infraestrutura adequada. Porém, o que antes acontecia em escala menor e pontos isolados, tornou-se uma realidade corriqueira. Dados da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro apontam um crescimento de 86% no roubo de cargas no Brasil entre 2011 e 2016 – com prejuízo ultrapassando as cifras de R$ 6 bilhões neste período. E, de lá para cá, os números não pararam de crescer.

Levantamento realizado pela Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) ascende ainda mais o sinal de alerta. Em 2012, foram registradas cerca de 14.400 ocorrências referentes a roubo de cargas no Brasil, passando para quase 26 mil em 2018 – um aumento de quase 50%. Os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro concentram praticamente 85% das ocorrências. O problema torna-se ainda mais sério se pensarmos que 61% do que é transportado no país ainda é pelo modal rodoviário, seguido das ferrovias (23%), aquaviário (15%) e aéreo (1%), conforme aponta a Confederação Nacional de Transportes (CNT).

“O roubo de cargas é uma das principais preocupações para todos que trabalham com transportes. Diversos fatores contribuem para esta realidade. As sucessivas crises econômicas e políticas dos últimos anos contribuíram para que muitos setores sofressem com o descaso do poder público, incluindo a segurança, que vem enfrentando negligências e falta de investimentos”. A avaliação é de Iltenir Junior, que acumula quase duas décadas de atuação no mercado de logística e setores correlacionados. É CEO da Qargo, o UBER das entregas urbanas.

A realidade caótica impulsionou o mercado brasileiro a ser destaque quando o assunto é tecnologia na segurança de mercadorias. Afinal, a iniciativa privada viu-se diante da urgente necessidade de desenvolver soluções para minimizar problema. E foi à luta!

Iltenir comemora os avanços tecnológicos, mas faz questão de ponderar que algumas iniciativas somente se tornarão efetivas com a ajuda do poder público. “É necessário potencializar a integração entre diferentes forças da lei e implementar uma política capaz de combater furtos e roubos de veículos e cargas. Além de investir na repressão à comercialização dos produtos frutos de roubos e furtos e melhorar o controle das fronteiras, impedindo a entrada no Brasil de produtos ilegais e advindos de roubos”, aponta enfaticamente.

Quanto à tecnologia para garantir a segurança de mercadorias, o fato é que é um caminho sem volta e é impossível falar em transporte de cargas sem contar com ela. “Utilizar softwares para monitoramento da frota é um requisito básico para as empresas que se preocupam com a segurança dos seus colaboradores e das cargas transportadas. Essa tecnologia permite que a empresa acompanhe continuamente a localização dos veículos, tendo informações sobre a movimentação e as paradas realizadas”, explica Iltenir.

Além disso, ele pontua ser fundamental contar com especialistas em diferentes pontos do trabalho, o que configura em uma maneira inteligente para reduzir custos e aumentar a efetividade. No setor logístico, a terceirização pode ocorrer em diferentes atividades, desde a contratação de empresas que trabalham com softwares de segurança, monitoramento, e na consulta de perfis de motoristas e veículos.

Atenção ao Cybercrime

O CEO da Qargo toca em um ponto de suma importância: o desenvolvimento de boas práticas também no âmbito da internet. Afinal, de que adianta o controle no cadastro de profissionais, rastreamento de veículos e até escolta armada, se houver vazamento de informações privilegiadas referentes ao produto, valor agregado, origem e destino do trajeto, veículo, motorista e dados pessoais? “Os cybercriminosos buscam sempre pelo elo mais fraco de qualquer cadeia. Os processos logísticos são umas das principais engrenagens para o perfeito funcionamento da indústria e varejo. E apenas uma peça quebrada pode comprometer todo o processo”, explica.

Sendo assim, é fundamental investir a fundo no ambiente de TI da empresa, reconhecendo os processos críticos e identificando as soluções mais indicadas para cada realidade.

Rodrigo Henrique, gerente de produtos e marketing da Gantech – empresa da área de TI especializada em segurança da informação, diz que os empresários do ramo de transporte e logística vem despertando para essa necessidade gradativamente, porém, ainda ficam muito aquém das demais áreas. “Para se ter uma ideia, em um universo de 12 segmentos, aparecem em penúltimo ou último lugar”, calcula.

Ele aponta outro agravante: a falta de investimento em prevenção. “As pessoas vão procurar solução somente quando já foram vítimas. O responsável pela empresa tem que se conscientizar que a atividade de prevenção é fundamental, e inclui investimento prévio em segurança da informação”, salienta.

“Se soubessem quantas ocorrências são resultado de roubo de credenciais, uso de informações pessoais e dados do frete que circulam na rede, quantos criminosos agem maliciosamente para descaminho de informação e prática de atividade ilícita, mudariam a mentalidade e investiriam em elaborado sistema de inteligência de dados”, defende, explicando que os serviços oferecidos são personalizados e vão ao encontro das necessidades particulares do setor em questão.

`É preciso haver uma mudança cultural ́

“O nível de periculosidade no transporte de mercadorias é equivalente ao do Iraque e da Somália, nações em situação de guerra”. A afirmação é de Diego Gonçalves, diretor comercial e de serviços da Opentech, empresa que atua com Gerenciamento de Risco e Logística, com soluções que abrangem todos os processos de movimento de mercadorias. Na visão dele, para que haja mudança efetiva, é preciso investir em uma mudança cultural.

Afinal, mesmo diante do caos, há empresas que ainda contratam o gerenciamento de risco somente porque a apólice de seguro exige. “Não se preocupam com a implantação de uma cultura de prevenção de perdas. Com isso, toda a cadeia sofre, desde o motorista até o cliente final”, critica.

Questionado sobre ações que podem ser colocadas em prática, Diego cita: “desenvolver treinamentos para motoristas, por exemplo, é uma ferramenta com baixo custo e eficaz, mas infelizmente pouco utilizada. A Opentech vem trabalhando nesse sentido, com capacitação aos condutores de cargas, que recebem informações/orientações on-line e presenciais sobre cada trecho que irão percorrer. Veja, a ideia central é mudar a cultura e abranger todos os envolvidos”.

Concomitantemente, reforça que deve haver investimento em novas tecnologias. “A palavra de ordem é inteligência, para fazer frente à verdadeira indústria do roubo de cargas no Brasil”, aponta o diretor, contando que na tentativa de incorporar novos conceitos, a Opentech lançou uma grande inovação utilizando inteligência artificial para automatizar processos e agilizar a detecção dos riscos.

`Brasil requer grandes ajustes ́

O diretor de Seguros do Sindicato das Empresas de Transporte de São Paulo e Região (SETCESP), Marcelo Rodrigues, lamenta a realidade enfrentada e define: “Momento complicadíssimo”. O roubo de cargas, é o principal entrave, seguido, na visão dele, pelas condições das estradas e falta de apoio governamental. “O empresário fica exposto, inclusive, a ações de regresso do contratante com relação as responsabilidades e suas obrigações que não foram atendidas de acordo com as regras vigentes”, comenta.

Os produtos mais visados são os alimentícios, cigarros, eletroeletrônicos, produtos farmacêuticos, combustíveis, bebidas, autopeças, têxteis confecções e produtos químicos.

Indagado sobre as alternativas mais procuradas pelo empresariado, a fim de garantir a segurança da carga, a partir das vastas opções de proteção oferecidas pelo mercado, Marcelo percebe que – primeiramente – são os rastreadores. “Um mesmo veículo, dependendo do tipo de carga, pode ter até 3 rastreadores instalados”, comenta. Além, segundo ele, da utilização de escoltas armadas e, por fim, no caso de cargas de maior valor agregado, transporte em veículos blindados por empresas de transporte de valores. “Tudo isso, porém, torna o frete muito mais caro”, observa.

E diante da pergunta que não quer calar sobre o que, de fato, pode ser feito para solucionar o problema de forma mais rápida, o diretor enxerga uma alternativa que, por enquanto, se enquadra fora da lei vigente: o transporte remunerado. “No entanto, pelas regras de transporte de cargas que regem atualmente, o transporte somente deve ser feito com veículos cadastrados pela ANTT no RNTRC”, esclarece.

Muitas empresas, para acompanharem a demanda, já adotaram a entrega de produtos com veículos de passeio, assumindo a responsabilidade pelo prejuízo ocasionado por eventual acidente ou roubo de mercadoria, já que não acompanham políticas de gerenciamento de riscos. Em países como os Estados Unidos, entregas são deixadas dessa forma nas portas das residências, mas o Brasil requer ainda muitos ajustes de segurança para que companhias seguradoras concedam maior flexibilidade no cumprimento do gerenciamento de riscos para o transporte de cargas.

Texto Elaborado: Paula Costa Bonini