Mês conturbado lança dúvidas sobre futuro da recuperação da Oi

Apesar da negociação de dívidas e mudanças no negócio, a execução do plano não foi como o esperado e a empresa tem perdas bilionárias

A Oi, maior empresa de telefonia fixa do país, busca se reerguer há três anos, quando fez o maior pedido de recuperação judicial da história brasileira, com dívidas de 65,4 bilhões de reais. Mesmo assim, o mês de agosto foi um dos mais atribulados para a companhia desde então. 

Nesse período, a companhia negociou com milhares de credores para cortar 35 bilhões de reais de sua dívida e realizou uma capitalização no início do ano para levantar 4 bilhões de reais. Além disso, planeja levantar 7 bilhões de reais com vendas de ativos considerados não essenciais para investir, principalmente, na expansão da cobertura de redes 4G e 4,5G e em sua infraestrutura de fibra ótica.

No entanto, até agora a execução do plano não foi como o esperado. A companhia teve um prejuízo bilionário no segundo trimestre do ano, o que fez a ação cair quase 30% em uma semana. A acelerada queima de caixa preocupou o mercado, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o principal acionista, que pediu por mudanças na diretoria, inclusive no cargo de CEO.

A adversidade da companhia telefônica não tem apenas uma razão. A crise econômica e as mudanças do mercado abalaram todas as operadoras de telefonia, em especial a Oi. Com o avanço do Whatsapp, as empresas perderam receitas com o envio de sms e de ligações telefônicas. Além disso, competidores se aproveitaram da situação da Oi para roubar clientes da companhia. 

A recuperação judicial, em si, também prejudicou a companhia, já que empresas e consumidores precisam de confiança para fechar contratos. A empresa perdeu clientes e participação de mercado em quase todas as frentes, exceto televisão paga. A receita líquida residencial caiu 12% no segundo trimestre em relação ao ano anterior e a de mobilidade pessoal caiu 3,4%. As receitas vindas de clientes corporativos encolheram quase 7%.

O cenário é outro. O crescimento esperado para o PIB ficou de lado e as mudanças regulatórias para a TV por assinatura esperadas não ocorreram. Assim, o mercado mudou sua visão para a Oi, bem como o preço alvo da ação. A dúvida é se o seu plano de recuperação está bem desenhado e pode fazer a companhia se reerguer ou se obstáculos internos e externos continuarão a pressionar a companhia.

Melhora financeira

Desde o pedido de recuperação judicial, a companhia negociou dívidas e as trocou por ações na companhia, mudando a composição acionária. Atualmente, sua dívida bruta é de quase 17 bilhões de reais.

Além disso, o seu plano é levantar até 7 bilhões de reais até 2020 com vendas de ativos. A Unitel, empresa angolana, poderia ser usada para levantar capital, bem como ativos imobiliários. 

Mas não é tão fácil se desvincular dos ativos. Entre as operações que poderiam ser capitalizadas estão os centros de dados e de servidores. Porém, muitos competidores já reestruturaram os próprios centros e poderiam não ter interesse nas operações da Oi, segundo Renato Pasquini, diretor da consultoria Frost & Sullivan na América Latina.

Um dos principais entraves para essas vendas é a não aprovação do projeto de lei 79, parado há dois anos no Senado. O PLC 79 vai permitir que as operadoras redirecionem investimentos atualmente obrigatórios na telefonia fixa para a ampliação do acesso à Internet.

A nova lei ajudaria a Oi a cumprir metas e competir em igualdade com a Claro, unidade da América Móvil, e com a Tim Participações. A mudança também beneficiaria a Telefônica Brasil que, juntamente com a Oi, responde pela maioria dos serviços de telefonia fixa no Brasil.

Problemas de caixa

Enquanto esses planos não andam, a situação financeira da empresa se deteriora. No segundo trimestre do ano, a empresa reportou prejuízo de 1,5 bilhão de reais, a maior perda entre as empresas de capital aberto, de acordo com levantamento da Economática.

“O mercado talvez tenha sido otimista demais com a Oi, achando que ela poderia voltar a ser o que era antes rapidamente”, diz Eduardo Ribeiro Silveira Guimarães, especialista da corretora Levante.

As dificuldades da companhia não ficaram restritas ao prejuízo bilionário. No segundo semestre do ano, ela também queimou 843 milhões de reais em caixa. A companhia apresentou o diagnóstico de sua situação preocupante à Anatel e indicou que o dinheiro em caixa da operadora chegou ao “mínimo necessário” e que há previsão de que os recursos terminem em fevereiro de 2020 se nada for feito.

O anseio se estende a todo o mercado, já que mais de 3 mil municípios brasileiros são atendidos apenas pela telefonia fixa da Oi. A interrupção da operação por falta de caixa tem probabilidade alta e apresentará impacto em todo o sistema de telecomunicações.

A preocupação levou ao risco de intervenção da Anatel, mais tarde negado pela agência.

Falta de investimentos

Outra dificuldade da companhia é a alta necessidade de investimentos para continuar a operar e para se manter relevante no mercado. É um setor intensivo de capital, mas muitos investimentos são obrigatórios mas não rentáveis, como orelhões e telefonia fixa.

“Durante muito tempo a Oi operou com investimento abaixo do necessário, principalmente em fibra, para continuar competitiva no mercado”, afirma Eduardo Tude, presidente da Teleco, consultoria especializada em telecomunicações.

A situação financeira da empresa a coloca em um impasse. Por um lado, ela precisa segurar os gastos para não queimar o caixa rápido demais e comprometer a continuidade da operação. Por outro, precisa manter investimentos para continuar a ter uma tecnologia competitiva e não perder ainda mais mercado para outros players.

Além disso, mesmo depois do investimento, a recuperação das receitas ainda pode demorar. “Vai ter uma incompatibilidade e durante um tempo a operadora vai gerar menos caixa. Mas, no fim do dia, a Oi tem controle sobre seu caixa e não deve chegar a um nível crítico”, afirma Suzana Salaru, analista do Itaú BBA.

Mudanças na diretoria

O prejuízo, a dificuldade de caixa e a possível intervenção da Anatel preocuparam a GoldenTree Asset Management, maior acionista da operadora. A gestora, que se tornou dona de 15% de participação após a reestruturação da dívida, está discutindo com o conselho da Oi mudanças radicais na diretoria da empresa. O papel do CEO, Eurico Teles, poderia estar em risco.

”Nós agora tememos que o futuro de longo prazo da empresa esteja em sério risco por conta da pobre tomada de decisões, performances operacional e financeira decepcionantes e fracasso em aplicar importantes princípios de governança corporativa previstos pelo plano de reorganização”, disse a GoldenTree. 

A mudança na liderança já estava prevista para ocorrer até o fim do ano, com a transferência do cargo para Rodrigo Abreu, que já faz parte do conselho da empresa. O pedido seria para adiantar esse processo. Segundo analistas, faria sentido que Abreu participasse mais da execução do plano da companhia, já que ele realizou um trabalho semelhante na TIM, onde foi CEO.

Esperança

Nos últimos dias de um mês bastante conturbado, a empresa recebeu boas notícias. As ações da Oi tiveram forte alta após o jornal Folha de S. Paulo afirmar que o CEO da AT&T, Randall Stephenson, sinalizou ter interesse em adquirir a companhia de telecomunicações brasileira.

Segundo a reportagem, integrantes do governo disseram que o executivo planeja investir em todos os segmentos de telecomunicações caso o projeto de lei que modifica as regras de TV por assinatura seja aprovado pelo Congresso.

Com a aprovação do projeto de lei e as vendas de ativos, a companhia pode sair mais leve da recuperação judicial e com potencial para investir em frentes mais rentáveis, como a rede de fibra ótica. Um novo controlador, disposto a bancar os investimentos da empresa, pode ajudar.

Para Pasquini, a situação da Oi pode ser solucionada. “Não é como no caso da Nextel. Se o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) não aprovar a transação com a Claro, a Nextel some do mapa”, diz. “Para a Oi, depende também da sua capacidade de execução de cumprir o plano que apresentou”, afirma Pasquini.

O Itaú BBA cortou pela metade o preço justo do papel, de R$ 2,00 para R$ 1,00, mas reforçou a recomendação de compra, pois considera que a queda não foi justa, já que a situação financeira da empresa tem melhorado aos poucos. Segundo Suzana, “o mercado gostaria que o processo fosse mais rápido, mas a Oi é uma empresa grande e não é fácil fazer essa mudança brusca”.

A dúvida é em quanto tempo a empresa consegue realizar seu plano, enquanto perde clientes e queima caixa.