Mercado de carnes cresce na internet

Nick Wingfield
© 2017 New York Times News Service

Lopez Island, Washington – Durante uma tarde de ventania em dezembro, Scott Meyers caminhava pelo pasto com um rebanho de gado, conversando com eles como se fossem cachorros de estimação que gostam de ser elogiados. Ele coçava as costas dos animais, os abraçava e os chamava pelo nome: Chocolate, Fudge, Honey.

É com essas criaturas mimadas, criadas no pasto, que Meyers produz carne Wagyu, celebrada pelo sabor amanteigado típico da raça japonesa, graças à grande quantidade de gordura intramuscular.

Para poder comprar carne da Fazenda Sweet Grass, de Meyers, os consumidores precisavam fazer encomendas diretamente a ele, sempre em volumes industriais, como 14 quilos de cortes variados, ou um quarto de vaca. Depois, os clientes buscavam a carne nas datas combinadas em dois locais nos arredores de Seattle, ou faziam uma viagem de balsa de 40 minutos até a ilha.

Porém, há cerca de um ano, Meyers entrou em contato com alguns dos empreendedores de tecnologia de Seattle que haviam criado uma startup chamada Crowd Cow. O serviço on-line vende vacas inteiras saídas de pequenas propriedades e divididas em pedidos fáceis de gerenciar, geralmente de 4,5 a 5,5 quilos, entregues em domicílio em cortes congelados e embalados a vácuo. A carne do primeiro animal que Meyers vendeu pela Crowd Cow acabou em poucas horas.

“O serviço que eles fornecem realmente é muito bom. Eles são intermediários que realmente ajudam”, afirmou Meyers, de 60 anos, que opera a Sweet Grass Farm ao lado da esposa, Brigit Waring. Os intermediários virtuais ajudam pessoas comuns a compartilhar carros e apartamentos. Porque não a carne?

O conceito está começando a ganhar força entre os fãs de carnes especiais e pequenos produtores como Meyers, que preferem passar o tempo cuidando dos animais do que se dedicar ao trabalho árduo de vender a carne diretamente aos clientes: fazer posts sobre o gado, falar sobre eles nas mídias sociais, cuidar da logística dos pedidos.

A Crowd Cow e outras startups similares prometem se encarregar de todo esse processo, sem acabar com a identidade de pequenos criadores como Meyers. Ao invés de colocar a própria marca na carne que compra, a Crowd Cow faz propaganda dos produtores e permite que contem a história de suas propriedades no site.

“Eles são transparentes – vendem nosso produto como nosso produto. Isso deixa as pessoas mais seguras. Se eu coloco a carne que produzo em uma loja, isso limita minha identidade”, afirmou Meyers, que também vende carne diretamente para clientes da região de Seattle por meio do site da empresa.

Joe Heitzeberg, executivo-chefe da Crowd Cow, que já vendeu quase 200 vacas, fundou a equipe ao lado de Ethan Lowry. Ele conta que a ideia era ensinar ao consumidor a respeito das particularidades de cada produtor. “Queremos mostrar que são como cervejas artesanais e vinhos especiais. Existem diferenças e queremos que vocês as conheçam.”

Muito antes do surgimento do computador, amigos, familiares e vizinhos juntavam dinheiro para comprar vacas inteiras dos produtores locais para dividir posteriormente a carne em quartos ou em outras partes que ajudavam a encher os freezers e a alimentar famílias inteiras durante meses.

Sites como o Craigslist passaram a permitir que desconhecidos se juntassem para fazer “vaquinhas”. Os produtores locais fazem propaganda da divisão por meio de sites como o Eatwild, e alguns vendem carne diretamente ao consumidor por meio dos próprios sites.

Muitos dos criadores estão tendo acesso a uma crescente demanda por carnes de alta qualidade vendidas por pequenos produtores. Boa parte da carne no Crowd Cow e em sites similares vem de animais criados em pastos, que apresentam níveis ligeiramente mais altos de ácidos graxos ômega-3 que a carne de animais de criação intensiva. Os criadores parceiros da empresa, incluindo Meyers da Fazenda Sweet Grass, não usam hormônios de crescimento; em casos raros, usam antibióticos para lidar com problemas veterinários, mas não para promover o crescimento acelerado.

Embora até mesmo empresas de grande porte tenham passado a oferecer carne de criação extensiva e muitos supermercados estejam estocando esse tipo de carne, alguns consumidores preferem o produto comprado diretamente dos pequenos produtores pela internet.

“Para mim a carne tem mais sabor. É um produto de altíssima qualidade”, afirmou Timothy Enns, executivo de biotecnologia em Pleasanton, Califórnia, a respeito da carne vendida pela Crowd Cow. Loren Taylor, de Ocean Shores, em Washington, faz muitos pedidos pela Crowd Cow e já provou a carne da Fazenda Sweet Grass. “O meu predileto é o Wagyu. Essa carne é sensacional. Dá pra sentir.” “Eu acredito que o segredo é a forma como os criadores tratam os animais”, acrescentou.

É difícil comparar preços com o supermercado, já que a forma como os sites embalam os pedidos é diferente. Uma nova empresa chamada ButcherBox, com sede em Cambridge, Massachusetts, vende assinaturas de vários tipos de carne, com pesos que variam de 3 a 4 quilos, e que são entregues pelo correio em períodos mensais ou trimestrais.

Uma caixa de 129 dólares com carne de gado criado no pasto geralmente inclui costela, picanha, carne moída, ponta de alcatra e filé mignon. A ButcherBox vende outros cortes que podem ser adicionados ao pedido, como um contrafilé de 283.5 gramas por 12,50 dólares. A Amazon Fresh, um serviço da gigante do varejo on-line, vende o mesmo tipo de bife por 14 dólares.

Mike Salguero, fundador e executivo-chefe da ButcherBox, afirmou que a empresa conta com 10.000 assinantes em todo o país e a cada mês envia de 45.000 a 90.000 quilos de carne, incluindo carne de porco e frango, vindas de várias propriedades. A caixa traz a identificação de origem de toda a carne. “Nosso sonho é fornecer toda a carne que as pessoas consomem durante o mês. Acreditamos que todos podem comer uma carne muito mais saudável do que a atual”, afirmou.

A Crowd Cow tem uma abordagem diferente, destacando um produtor de cada vez e vendendo a carne de um único animal até que tudo acabe. Boa parte da carne é enviada em pacotes variados: uma venda recente da Fazenda Step by Step, em Curtis, Washington, oferecia pacotes de 69 dólares incluindo quatro bifes de coxão mole de 230 gramas, dois de fraldinha de 300 gramas e um quilo de carne moída.

Os consumidores mais aventureiros também podem comprar o coração, o fígado e a língua. A empresa também vendeu perus para o Dia de Ação de Graças, e planeja vender também outros tipos de carne.

A Crowd Cow compra a carne maturada, cortada e acondicionada a vácuo, para poder fazer a entrega em até uma semana. Por enquanto, a empresa compra a carne de produtores do estado de Washington e só oferece a entrega para clientes da Costa Oeste do país, embora planeje servir clientes da Costa Leste no futuro.

Os grandes frigoríficos não parecem estar sentindo o impacto das startups. “Não sabemos nada sobre a Crowd Cow, então não há nada que possamos dizer sobre o que eles estão fazendo”, afirmou Kelsey Bugjo, porta-voz da Omaha Steaks, que relatou vendas de 450 milhões de dólares durante o ano fiscal de 2015.

Becky Harlow Weed é diretora da Harlow Cattle Co., uma fazenda de 130 hectares em Spanaway, Washington, e agora vende para a Crowd Cow quase 75 por cento dos cerca de 52 cabeças de criação extensiva que abate todos os anos, ao invés de clientes ricos e açougues de alto padrão.

“Para ser sincera, isso facilita as coisas. Tenho um grande cliente. Às vezes até acho meio assustador, porque todo mundo diz que não devemos apostar todas as nossas fichas na mesma coisa.”

“Mas agora não preciso mais cuidar de tanta burocracia. Não preciso me preocupar com quem vai comprar isso, ou aquilo. Isso me liberou mais tempo para cuidar do gado e da propriedade”, acrescentou.

Ainda assim, alguns criadores independentes afirmam que é arriscado distribuir tudo por meio de startups on-line, que no futuro podem ser compradas por empresas que se interessam menos pelo método no qual o gado é criado. “Talvez a Crowd Cow seja vendida”, afirmou Glenn Elzinga, que é dono do Sítio Alderspring, em May, Idaho, ao lado da esposa Caryl. Eles venderam carne no próprio site por mais de uma década.

“É isso que acontece com o capital de risco: eles vendem o negócio e tudo muda. A forma como os conselhos diretivos tomam decisões nem sempre se alinha com os interesses dos pequenos produtores”, afirmou Elzinga.

Mas Heitzeberg afirmou que ele e seu sócio criaram uma empresa que é capaz de crescer sem abrir mão de seus valores. “Não estamos à procura de uma saída”, afirmou.