MBAs são os culpados pelos escândalos corporativos, dizem acadêmicos

Casos como o da Enron só aconteceram porque as escolas de administração criaram modelos de gestão descolados da realidade e pregam valores discutíveis, segundo gurus como Henry Mintzberg e Sumantra Ghoshal

Após quatro anos em baixa, o MBA voltou a ser valorizado com força pelas grandes companhias americanas, que aumentaram a oferta de vagas para os jovens talentos que estão se formando nesses cursos. A Stern School, por exemplo, viu dobrar o número de empregos oferecidos para seus formandos neste ano. Refletindo a revalorização do diploma, os salários iniciais também subiram. Na Stern School, os contratos pagam cerca de 95 000 dólares anuais para os iniciantes 10 000 dólares a mais que em 2004.

Mas as críticas aos MBAs estão crescendo na mesma proporção em que as empresas americanas voltaram a se interessar por eles. Os principais responsáveis pelos ataques são os próprios acadêmicos, que afirmam que esses cursos adotaram modelos de gestão e valores que deturparam os fundamentos da administração e deram margem para escândalos financeiros como o da Enron.

A mais recente polêmica é a publicação de um artigo póstumo de Sumantra Ghoshal, um dos maiores gurus da administração mundial e professor da London Business School. Morto há 11 meses, Ghoshal deixou uma análise ácida das idéias ensinadas pelas escolas de administração. Segundo ele, “os piores excessos praticados recentemente pelos administradores devem-se a um conjunto de idéias que surgiram na academia nos últimos 30 anos”.

De acordo com a revista britânica The Economist, o artigo de Ghoshal, que será publicado no jornal especializado Academy of Management Learning & Education, ataca o desejo dos professores de transformar o mundo dos negócios numa ciência exata, como a física. Modelos de análise equivocados como o individualismo metodológico, que assume que todas as ações humanas visam à maximização de resultados, e a crença de que os homens de negócios precisam se desvincular de alguns valores (como a transparência e a credibilidade) desembocaram num ambiente muito mais sujeito a escândalos financeiros, para Goshal.

Ele não é o único a criticar a forma como os cursos de MBA estão organizados. Jeffrey Pfeffer, professor da Universidade de Stanford, afirma que um estudo realizado em 2000 comprovou que o número de irregularidades cometidas por uma empresa é proporcional ao número de altos executivos com MBA. No ano passado, outro grande guru da administração, Henry Mintzberg, lançou o livro “Managers Not MBAs”, em que afirma que esses cursos “treinam as pessoas erradas do modo errado, gerando as conseqüências erradas”.