Ligações perigosas

O romance de Welch com a entrevistadora gera crise na Harvard Business Review<br><br>

É muito provável que a entrevista de Jack Welch à Harvard Business Review passe para a história como um marco no jornalismo de negócios. Por duas razões. A primeira é a lição de liderança que ela traz e o poderoso conteúdo das declarações daquele que é considerado o maior executivo do século 20. O segundo é o fato de o artigo ter se tornado o pivô de uma acalorada discussão ética nos bastidores da vetusta HBR, publicação vista como uma espécie de bíblia da teoria da administração.

A história a seguir, envolvendo Welch e a jornalista Suzy Wetlaufer, tem ingredientes espetaculares: o executivo mais famoso do mundo, uma editora de negócios respeitada, um relacionamento íntimo que aflora no meio do caminho, o ciúme que isso desperta, dramas de consciência, dilemas éticos no mundo do trabalho.

PRIMEIRO ATO: O ROMANCE

Tudo começou no final de 2001, quando Suzy, editora responsável pela publicação da Harvard Business Review, propôs a Welch que falasse à revista sobre sua vida e carreira à frente da GE. Inicialmente, Welch recusou, mas semanas depois um encontro foi agendado em seu escritório de Nova York. Os dois tornariam a se encontrar e a falar por telefone várias vezes. As entrevistas foram feitas. O artigo, redigido. Às vésperas da impressão, porém, Suzy ligou para seu chefe, Walter Kiechel, diretor editorial da Harvard Business School Publishing Corporation, e recomendou que a matéria fosse abortada. A razão alegada: ela teria se “tornado muito próxima de Jack” e passou a temer que isso comprometesse a objetividade do artigo. No início de janeiro, Kiechel enviou um e-mail à equipe da revista explicando os motivos da não-publicação do artigo. Dois editores — Harris Collingwood e Diane L. Coutu — foram emergencialmente escalados para refazer a entrevista.

SEGUNDO ATO: DILEMAS ÉTICOS

O episódio desencadeou um enorme debate ético nos quadros da HBR. Vários editores da revista, incluindo os autores da entrevista publicada, escreveram cartas a Kiechel pedindo a renúncia da editora-chefe. Sim, todos concordavam que Suzy, uma bem-sucedida jornalista de 42 anos e com salário anual de 277 000 dólares, havia tomado uma atitude responsável ao recomendar a não-publicação de seu artigo. Mas, para muitos de seus colegas, ela deveria ter feito isso antes. Suzy teria tornado a decisão de ligar para seu chefe somente após receber uma ligação da mulher de Welch, Jane. Durante a conversa, Jane teria perguntado a Suzy se ela conseguiria manter-se imparcial mesmo após manter um romance com Welch. “O telefonema de Jane foi um dos vários fatores que me levaram a derrubar a entrevista”, disse a editora. “Pessoal e profissionalmente, sinto-me muito orgulhosa da forma como conduzi essa situação.” Sob pressão, ela deixou o cargo na sexta-feira, dia 8, mas permaneceu na revista, assumindo novas funções. Dois editores, ao saber que ela ficaria, pediram demissão na segunda-feira.

Em grande parte das organizações, a atitude dos subordinados de Suzy Wetlaufer soaria como um complô. Na HBR, a jóia da coroa da Harvard Business School Publishing Corporation, lida por 240 000 executivos de todo o mundo, ela é vista como uma questão de ética e de conflito de interesses pessoais e profissionais. A fim de encontrar respostas para a situação causada pelo envolvimento entre Suzy e Welch, foi criada uma força-tarefa para revisar sua política de conduta ética. A nova política deve determinar que tipo de relação entre entrevistado e entrevistador é apropriado ou não. Welch, de 66 anos, com dois casamentos, quatro filhos, diz que não fala sobre sua vida pessoal. Kiechel, o diretor editorial, tenta tratar o episódio como mais um dos tantos estudos de caso publicados pela HBR. “Esse é um estudo de caso fascinante”, diz Kiechel. “Mas vai levar algum tempo até que consigamos destilar suas lições.”