Levi’s aposta em jeans made in Brazil e passa longe da crise

Marca passou a fabricar peças por aqui há cerca de um ano, para fugir da flutuação do dólar e ter mais agilidade. Resultado: cresceu 30% em meio à crise.

São Paulo – A marca de roupas norte-americana Levi’s vive seu melhor momento no Brasil desde que desembarcou por aqui, em 1972. Isso em plena crise econômica, às vésperas da eleição presidencial e com o dólar nas alturas. O segredo do sucesso? Jeans made in Brazil.

A marca começou a fabricar peças por aqui há cerca de um ano, como forma de fugir da flutuação do dólar e garantir mais agilidade no atendimento aos pontos de venda. Camisetas, camisas polo, calças jeans e acessórios como bonés e cintos passaram a ser feitos no Brasil. E os resultados apareceram. A marca cresce 30% em 2018. A venda das camisetas, por exemplo, se multiplicou por cinco.  A companhia não revela números absolutos de vendas.

“O Brasil opera numa sazonalidade diferente da do hemisfério norte, onde está 85% do negócio da Levi’s. É um país que pede muita cor, e que tem uma demanda por um jeans mais leve, por conta do clima. Tudo isso são fatores que nos levaram a apresentar essa demanda de produção local para a matriz”, afirma Rui Araújo da Silva, português que há cinco anos comanda a operação da marca no Brasil.

Com a mudança aprovada, a Levi’s saiu em busca de fabricantes. O processo de seleção e auditoria desses parceiros durou cerca de um ano. Nesse período, a marca avaliou as condições de trabalho nas fábricas, garantiu que as candidatas não atuavam com trabalho escravo ou infantil e verificou se a unidade fazia a reutilização correta da água após a lavagem do jeans, por exemplo. Hoje, a companhia conta com 15 fabricantes aqui, especialmente no Sul do país, São Paulo e Minas Gerais. As peças nacionais respondem a 30% das vendas, enquanto 70% continuam importadas. A meta é chegar a 40% de fabricação local.

Dentre as peças feitas aqui, a que mais vende é a camiseta. Segundo Silva, o mundo da moda tem visto um boom de busca por peças que exaltem o logo das marcas e isso é diferente no Brasil. “A produção local nos permitiu responder a essa demanda mais rápido e com mais produtos. Caso contrário eu não teria a velocidade suficiente para atender”, afirma Silva. O diretor explica que, com a fabricação brasileira, a reposição leva cerca de dois meses, ante oito meses no caso dos importados, que são feitos na Ásia.

As peças feitas aqui também são mais baratas – apesar de o preço geral da Levi’s ter subido no último ano, devido principalmente ao câmbio. “Nossos preços não caíram, mas ganhamos elasticidade. Hoje conseguimos ter uma calça jeans de entrada por 189 reais. Se comparar com qualquer outra loja com calças de 129, 159, estamos super competitivos, e entregando todo o valor da marca”, afirma Silva.

Além do Brasil, outros países estratégicos também têm fabricação própria da Levi’s: México, Argentina, África do Sul e Índia são alguns.

O bom momento para a marca fez com que a Levi’s também expandisse seus pontos de venda. Foram 30 lojas abertas em cinco anos, totalizando de 81 unidades no Brasil – até o final do ano serão 84.  A queda nos preços dos aluguéis devido à recessão ajudou.

Público infantil

Agora, o próximo passo da Levi’s é chegar ao público mais jovem. A marca vai começar a vender roupas para crianças de oito a quatorze anos no primeiro semestre de 2019. Por enquanto, as peças infantis serão vendidas somente na internet, via e-commerce e marketplaces.

A ideia é conquistar um público que, no futuro, pode ser um cliente cativo da Levi’s. “Somos líderes no público de 35 anos para cima. Nossa ideia é que esse público mais jovem comece a entrar nas nossas lojas. Essa geração não tem fidelidade nenhuma de marca. Se eu começar a ter produtos kids, terei uma ponte para esse consumidor nos procurar depois”, afirma Silva.

A valorização da marca é o grande trunfo da Levi’s – e perder isso é o risco embutido na produção local das peças. Afinal, se a calça jeans da Levi’s for igual à de uma loja de departamentos,, qual o valor da marca? Silva garante que os passos da Levi’s no Brasil têm sido dados com todos os olhos voltados para isso. “Somos obcecados pela marca. Vamos continuar sendo premium. Nunca teremos uma loja na 25 de março, por exemplo. Não somos commodity”.

Cenário eleitoral

A companhia também pretende abrir pelo menos mais dez lojas no ano que vem, independentemente do resultado das urnas. Na visão de Silva, qualquer que seja o o presidente eleito, os próximo anos devem ser de crescimento no Brasil. “O governo será novo, mesmo que seja um partido que já tenha governado. E vejo que o mundo verá isso de forma positiva. A economia vai crescer, o dólar vai assentar, veremos que o Brasil tem uma política para os próximos quatro anos. O Brasil é uma economia muito grande, muito pujante”, afirmou.

Fundada em 1853, a Levi’s é uma das marcas mais tradicionais dos Estados Unidos. Em 2017, a companhia teve receita líquida de 4,9 bilhões de dólares, um crescimento de 7% em relação a 2016.