Letelier, do Buscapé: Como escolher um fundo de investimentos

Em entrevista, o fundador do site comparador de preços fala sobre o que é preciso saber na hora de captar dinheiro para uma startup

O cenário de fundos de investimento especializados em startups mudou muito no Brasil nos últimos anos. Até poucos anos atrás, era quase obrigatório que, após certo estágio de crescimento, as empresas precisassem buscar sócios fora do país, já que havia poucos fundos de venture capital no Brasil especializados em rodadas maiores de investimento, direcionadas a startups mais maduras.

Hoje, o cenário nacional tem opções e os fundos que atuam aqui conseguem complementar o mercado de investimentos com conhecimentos sobre a realidade nacional que fundos estrangeiros não conseguem oferecer.

“Agora temos todas as peças do tabuleiro no cenário brasileiro, desde o investidor anjo até fundos especializados em colocar dinheiro em todos os estágios de crescimento, da primeira rodada até a última”, diz Mario Letelier, um dos quatro fundadores do site de comparação de preços Buscapé.

Letelier é o mais novo conselheiro do Domo Invest, venture capital que lançou no início do ano um fundo de 100 milhões de reais para investimento em startups brasileiras com produtos que sejam direcionados para o consumidor (B2C).

Desde que Letelier ajudou a criar o Buscapé, em 1998, até os dias de hoje, ele viu de perto todas as mudanças pelas quais que o mercado de inovação no país passou. Também esteve dos dois lados do balcão, primeiro como empreendedor e, mais recentemente, como investidor anjo, até chegar ao Domo.

Nesta entrevista a EXAME, Letelier fala sobre o que mudou no cenário de investimentos e do empreendedorismo no país e sobre o que é preciso saber na hora de captar dinheiro para uma startup.

Buscapé nasceu em 1998, ainda antes da bolha da internet. O que mudou no cenário de startups e de fundos de investimento no Brasil desde então até agora?

Algumas variáveis importantes no cenário mudaram muito, como o número de usuários de internet, que naquela época era cerca de três milhões e hoje são mais de 100 milhões. Os smartphones sequer existiam. Hoje, há muita informação sobre o crescimento sustentável de startups, algo que não havia naquele momento.

Existem as aceleradoras, mais fundos. Até havia fundos de private equity na época, que eram, em geral, americanos, pelo fato de haver uma onda muito positiva por lá antes de a bolha estourar. Como lá o mercado já estava inflacionado, eles começaram a procurar outros mercados e visualizaram o Brasil como um bom mercado, então estavam investindo aqui.

No cenário geral, agora o mercado está muito mais maduro. É muito menos caro construir uma empresa. Naquela época tinha que comprar um servidor – um custo inicial que era uma barreira de entrada.

Hoje os sistemas de nuvem e as diversas ferramentas necessárias estão muito mais acessíveis. É um mercado completamente diferente do de quase 20 anos atrás.

O senhor estava atuando como investidor anjo, mas decidiu se unir a um fundo de investimentos que está começando a atuar, o Domo Invest. Por quê?

Um dos fundamentos de investir, independentemente do momento pelo qual a empresa investida passa, é devolver para o mercado tudo o que se aprendeu com acertos e erros. Esse conhecimento pode ser muito útil para quem está começando.

Como anjo, meu orçamento era mais restrito e o momento em que eu entrava na empresa era muito inicial, o que limitava o quanto eu poderia ajudar, além de ter que lidar com uma taxa de insucesso maior. Agora, em um fundo mais estruturado, é possível ajudar muito mais, até porque existe um time de pessoas com conhecimentos complementares.

Então, o fundo tem mais possibilidade de fornecer para a empresa o chamado smart money [quando oferece, além de dinheiro, o conhecimento de sócios especializados em áreas onde a startup pode atuar].

Até pouco tempo, as startups brasileiras mais estruturadas e com maior potencial de crescimento buscavam dinheiro de fundos de fora do país, principalmente para expandir para mercados diferentes e pela troca de conhecimento com fundos experientes em outros mercados. Essa ainda é uma necessidade?

O investimento estrangeiro e o nacional podem ser complementares. Uma coisa não exclui a outra. Cada fundo do exterior tem históricos de momentos de mercado e bancos de dados de conhecimento diferentes.

O Brasil é uma ilha porque, apesar de ser do tamanho de um continente, tem características muito específicas que às vezes o estrangeiro não conhece. Os fundos que estão no Brasil podem ajudar com dificuldades que americanos, europeus, asiáticos nunca viveram nos próprios mercados.

Por outro lado, eles têm um histórico muito bacana sobre como construir grandes empresas, com bastante experiência em saídas [vendas ou IPOs]. Mas tem as características de cada mercado. Em fintechs [empresas de tecnologia financeira], por exemplo, o Brasil tem excelência.

Outros países têm deficiências nesse setor que aqui já foram superadas. Justamente por tudo isso, em rodadas de investimento, dificilmente um fundo entra sozinho. Geralmente, o fundo coinveste com outro que pode complementar seu conhecimento de forma a ajudar os empreendedores.

Ao mesmo tempo, o cenário de fundos brasileiros de venture capital investindo no mercado nacional evoluiu nos últimos anos?

Evoluiu bastante. O mundo de tecnologia, em geral, é muito experimental. Há muita tentativa e erro até se achar um caminho para conseguir escalar o projeto. Estamos num momento interessante no Brasil. Dizem que não há saídas. Mas isso acontece porque, em sua maioria, os fundos de investimento ainda são novos.

Mas há empresas com excelentes trabalhos, como a Gympass, o Descomplica (do qual fui investidor anjo), a Resultados Digitais, a Conta Azul, só para citar algumas. Há vários casos de sucesso dentre as empresas investidas em 2011, 2012, que estão crescendo exponencialmente.

Essas empresas devem dar retorno para os investidores em alguns anos, quando fizerem IPOs (Oferta Pública de Ações ou forem vendidas, e isso acaba favorecendo todo o ecossistema e criando um ciclo virtuoso.

O mercado ainda está se iniciando, mas é muito positivo que agora tenhamos todas as peças do tabuleiro no cenário brasileiro, desde o investidor anjo até fundos especializados em colocar dinheiro em todos os estágios de crescimento, da primeira rodada até a última. Teremos saídas rotineiras em breve.

Quais os motivos para as startups brasileiras estarem mais maduras do que antes? O que há por trás dessa evolução?

Além de hoje existir muito mais estrutura, conhecimento, dinheiro, acesso à informação, tamanho do mercado, há outras duas coisas muito relevantes nos ecossistemas de inovação ao redor do mundo que não estavam aí em 1998, quando começamos o Buscapé, e agora estão.

Em primeiro, as universidades, que estão olhando com mais carinho para a inovação. Antes, a academia ficava muito distante das startups criadas por alunos.

Em segundo, as empresas tradicionais atuando no mercado. Antes, elas até poderiam ter um departamento de inovação, mas agora elas estão de fato dando atenção para essa “nova economia”. Isso dá condição para que essas empresas, em um futuro próximo, possam absorver essas startups e completar o ciclo de saídas.

Quais devem ser as preocupações dos empreendedores ao buscar um fundo de investimento para suas empresas? O conhecimento trazido pelos novos sócios é decisivo?

O smart money com certeza é um ponto importante na hora de ir atrás da captação de dinheiro. Conhecer o trabalho do fundo, o que ele faz, o que já fez e qual seu objetivo também é importante.

O fundo tem que ser especializado no mercado que a empresa quer atingir. Até porque é uma relação de longo prazo, de oito ou 10 anos, até que exista uma saída.