Lemann em cinco alimentos

Jardel Sebba 

Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, tem entre os símbolos da disciplina na vida pessoal o seu peso, que ele não revela mas já jurou ser o mesmo desde os 17 anos. Apesar disso, parte fundamental da riqueza do ex-atleta, um dos melhores tenistas do país na década de 1960, está diretamente relacionada à gastronomia, não exatamente a alta. Depois de uma breve experiência na corretora Libra, o economista formado em Harvard fundou em 1971 o Banco Garantia, que fez escola no mercado brasileiro e foi vendido por 600 milhões de dólares em 1998. No começo dos anos 1980, ele e seus colegas de Garantia, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, já haviam comprado as Lojas Americanas, mas foi no fim daquela década, com a compra da cervejaria Brahma, que o trio ganharia destaque mundial.

Meritocracia, ajustes de gastos e internacionalização levariam em 1999 à criação da AmBev, então terceira maior empresa de cerveja do mundo. Com a fusão com a belga Interbrew, em 2004, nasceu a AB Inbev, a maior cervejaria do mundo. Estabelecido como empresário de sucesso, Lemann utilizou dois fundos de investimentos para sacramentar e diferenciar sua participação no mercado de comida. Com o Innova Capital, investiu em empreendedorismo e em negócios menores com grandes potenciais, enquanto com o 3G Capital abocanhou algumas das maiores empresas alimentícias do planeta. E, com elas, uma infinidade de alimentos que não são exatamente um exemplo de dieta saudável.

Entre umas e outras, selecionamos e degustamos cinco iguarias que explicam o sucesso do sócio do fundo 3G Capital que, aos 76 anos, soma uma fortuna de R$ 103,59 bilhões:

CHICKEN SANDWICH (BURGER KING, R$ 8)

O frango sempre pareceu relegado ao segundo plano no McDonald’s, obsessão e principal concorrente do Burger King, o que faz com que esse pedaço de peito de frango empanado ganhe particulares holofotes. Combinado com um pão com gergelim em formato diferenciado, alface e maionese, é um passo além no mercado de fast foods. A rede de lanchonetes, a segunda maior do mundo, custou 3,3 bilhões de dólares ao 3G Capital, fundo de Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, em 2010. E foi o negócio que deu visibilidade aos investidores no mercado mundial. Em menos de dois anos, os brasileiros cortaram as despesas em 42% e venderam um pedaço minoritário para o investidor americano Bill Ackman por 4 bilhões de dólares, mantendo o controle de 71% da empresa. Em 2012, o Burger King lucrou 118 milhões de dólares, 33% a mais do que no ano anterior, e em 2013 a empresa valia 6 bilhões de dólares, o dobro do valor estimado no ano que o 3G Capital a comprou.

SPICY BROWN MUSTARD (HEINZ, 496 G, R$ 25,75)

A empresada, criada por Henry John Heinz em 1869 no estado americano da Pensilvânia, é famosa pelo ketchup. No Brasil, ajudou a ampliar e a sofisticar o mercado de molhos, do curry de manga ao três pimentas, passando pelo chili, pelo queijo azul e pelo alho e ervas. Mas, acredite, nenhum deles supera o sabor desta mostarda escura. Para quem gosta de mostardas fortes, com pimenta e vinagre pronunciados, é um sabor inédito no mercado brasileiro. Para quem gosta de emoções fortes, Lemann juntou-se ao megainvestidor Warren Buffet em fevereiro de 2013 para, juntos, comprarem a Heinz por estimados 28 bilhões de dólares, o maior negócio da história do mercado de alimentos. A projeção jogou ainda mais luz sobre os brasileiros do 3G Capital, especialmente depois de Buffet dizer, em entrevista para o canal americano CNBC, que nunca havia visto um time de executivos tão capazes quanto o formado por Jorge Paulo Lemann. Em 2015, a Heinz fundiu-se com a Kraft Foods Group, empresa duas vezes maior com sede em Chicago, e transformou-se na quinta maior companhia de alimentos do mundo, cujo valor de mercado o 3G estima que atinja os 100 bilhões de dólares em 2017. O lucro líquido da Kraft Heinz no último trimestre de 2015 foi de 648 milhões de dólares.

STROOPWAFEL (DAUPER, PACOTE COM OITO UNIDADES, R$ 21,90)

Em meio a tantos cookies, os carros-chefes da biscoiteria Dauper, surgida no fim dos anos 1980 em Canela (RS), o biscoito mais famoso da Holanda até passa despercebido. Mas o “waffle com calda”, com indica a tradução livre de seu nome, é uma pequena obra-prima. Servido com o café, em um dos quiosques paulistanos, o biscoito vai derreter com a temperatura e ficar ainda mais convidativo, mas o ideal é levá-lo para casa, se possível em quantidades industriais. Se os níveis glicêmicos ainda permitirem, leve também a caixa de casadinhos de doce de leite (R$ 29,90). Não menos doce é a promessa do mercado de biscoitos artesanais no Brasil. É um setor que fatura menos de R$ 1 bilhão por ano, considerado ainda pequeno, mas que cresce a 30% ao ano, muito acima da média do mercado mundial. E que tem na Dauper, fundada e presidida por Márcio Peres, uma empresa com enorme potencial. Quem garante é o fundo Innova Capital, que adquiriu uma porcentagem minoritária da empresa em 2014, e que tem entre seus principais sócios ele mesmo, Jorge Paulo Lemann, ao lado de Marcel Telles e Verônica Serra

COCO MALASIA (DILETTO, POTE COM 500 G, R$ 30,25)

A Diletto é famosa pelos sabores e pela ousadia. Picolés de Bem-Casado, Ovomaltine, Panetone (da Bauducco) e Língua de Gato (da Kopenhagen) chamam a atenção. Mas os potes de ouro estão mesmo nas embalagens de 500 gramas de sorvetes de origens variadas. Gianduia do Piemonte, Pistache da Sicília, chocolates da Bélgica e da Itália, mas principalmente o Coco da Malásia com flocos tostados, de longe o melhor sorvete de coco à venda no Brasil. A Diletto tem quatro controladores, entre eles Leando Scabin, neto de Vitorio, fundador da empresa na Itália em 1922. Mas, desde 2013, ganhou o reforço de Lemann, que, por meio do fundo Innova Capital, comprou 20% da empresa (e pagou mais de cem milhões de reais, segundo estimado pelo mercado). A ideia do homem mais rico do Brasil, segundo informou EXAME na época da compra, é transformar a fábrica de sorvetes em uma concorrente da Häagen-Dazs nos Estados Unidos e fazer seu faturamento chegar aos R$ 50 milhões anuais.

CROISSANT DE PERU COM CATUPIRY (PADARIA BENJAMIN, R$ 6,90)

A rede de padarias Benjamin Abrahão construiu uma reputação no disputado mercado paulistano de panificação graças a produtos diferenciados de fabricação própria, como os cafés e as geleias. Mas são os croissants que fazem a alegria do café da manhã. Primeiro, pela simplicidade da massa, crocante na medida certa. Depois, pela variedade. Puristas podem provar as versões simples de croissant, tanto doce quanto salgado (R$ 4,90 cada), mas quem quiser comprar o ticket “full experience” precisa provar as versões três queijos e, principalmente, a peru com catupiry. O Benjamin Abrahão que dá nome à padaria começou vendendo doces nas ruas da capital paulista na década de 1940, e seu neto continua no negócio, mas desde agosto do ano passado a casa perdeu o sobrenome (virou apenas Padaria Benjamin) e ganhou dois sócios de peso. Jorge Paulo Lemann e seu fundo Innova Capital se juntou a Abílio Diniz e o fundo dele, o Península, para comprar a rede. Ao lado do Ocean, fundo de investimentos da portuguesa Rita de Cássia Sousa Coutinho, nova presidente da rede, estima-se que pagaram cerca de R$ 20 milhões por 90% da empresa. A ideia é dobrar o tamanho da Benjamin, que tinha oito lojas no momento da compra e já inaugurou mais duas, e criar uma grande rede nacional de padarias. A julgar pela ambição de Lemann e pela expertise de varejo de Diniz, é só aguardar e conferir.