Leis, mercado e custos: os empecilhos a uma fábrica da Tesla no Brasil

Falta de incentivos governamentais, cadeia de fornecedores despreparada para produzir as novas tecnologias e baixíssima escala são alguns dos obstáculos

O presidente da República, Jair Bolsonaro, pegou os brasileiros de surpresa ao afirmar em sua conta do Twitter que vai buscar nos Estados Unidos uma fábrica da Tesla, de Elon Musk, para o Brasil. A montadora é um ícone dos veículos elétricos e suas ações vêm decolando no mercado internacional. Para especialistas do setor automotivo, entretanto, é improvável que o investimento aconteça.

A começar pelo tamanho do mercado brasileiro. As vendas de modelos 100% elétricos e híbridos atingiram mil unidades apenas em 2016. No ano passado, alcançaram 11,8 mil veículos. O volume, comparado ao segmento de motores a combustão, é pífio: em 2019, foram vendidas 2,6 milhões de unidades a gasolina, etanol, flex ou diesel.

Outro fator que causa estranheza é a falta de interesse da Tesla em atuar no mercado brasileiro. A montadora não tem sequer representação oficial no país, embora rumores de mercado deem conta de que isso está prestes a acabar, com a possibilidade de uma operação no Jardim Europa, capital paulista.

Enquanto isso não acontece, uma ou outra importação direta da Tesla tem sido feita por aqui. Para tanto, o consumidor tem que pagar o preço do veículo, quantias significativas para desembaraçar o produto na alfândega brasileira, além de impostos. Isso tudo pode levar um carro como o Model 3, o mais básico da marca, a custar mais de 350 mil reais.

Infraestrutura

Para comportar uma frota maior de carros com zero emissões, o país também precisa desenvolver a infraestrutura de recarga. Em um país de dimensões continentais, o consumidor tem receio de se aventurar na compra de um veículo elétrico e contar apenas com 250 postos de recarga.

Neste sentido, parcerias vêm sendo feitas, como a anunciada nesta semana pela Audi, que irá investir 10 milhões de reais na instalação de 200 pontos de recarga no país em parceria com a empresa de energia Engie.

No entanto, isso está longe de ser suficiente para dar tranquilidade para que consumidores brasileiros invistam em elétricos e híbridos, que não saem por menos de 120 mil reais no país.

Sonho de uma noite de verão?

Escala é primordial para uma montadora abrir fábrica em determinada localidade, mas outro fator também é decisivo nessa questão: cadeia de fornecedores. O item mais caro de um veículo elétrico é a bateria. E as fábricas instaladas no mundo com esse tipo de produção estão próximas a polos de fabricação de baterias. A Tesla tem apenas duas unidades fabris no mundo, uma na Califórnia, Estados Unidos, e outra na China. Uma terceira deve ser erguida na Alemanha.

“O Brasil tem uma parcela importante das reservas de lítio no mundo, mas não detemos a tecnologia para adotá-la na produção de baterias em larga escala com a eficiência necessária para fins automotivos”, afirma Milad Kalume Neto, gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria especializada Jato Dynamics. O nióbio, componente em que o Brasil é líder global, vem sendo testado em baterias pela CBMM em parceria com a japonesa Toshiba — mas de olho no mercado global.

Fundamentalmente, o processo de produção de veículos elétricos envolve tecnologias extremamente avançadas. Na cadeia de fornecimento, o Brasil tem basicamente as matérias-primas. Uma parcela importante das peças de maior valor agregado é importada e a redução de barreiras para importação é, inclusive, um pleito antigo das montadoras – o que gera, muitas vezes, mal estar e discursos inflamados entre os fornecedores.

Para agentes do setor, sempre há a possibilidade de desenvolver uma cadeia totalmente nova de veículos, mas isso leva muito tempo e investimentos, que na maioria das vezes só vêm com incentivos governamentais. “Não é impossível que uma fábrica da Tesla se instale por aqui, mas pouco provável. Seria uma surpresa enorme”, avalia Neto. “O governo brasileiro criou poucas leis de incentivos aos veículos elétricos”, acrescenta.

Em 2018, o governo federal anunciou a nova política industrial do setor automotivo, intitulada “Rota 2030”, com metas claras de eficiência energética para as montadoras até o final desta década. Para estimular as empresas a adotar as medidas, estão incentivos como renúncia fiscal. Foi também neste ano, apenas, que o imposto de importação para veículos 100% elétricos foi zerado e, o de híbridos, reduzido.

Os reflexos dessa política devem vir, de fato, no longo prazo. Enquanto isso, o país deve continuar com um mercado ínfimo de veículos elétricos. Além disso, a reclamação eterna das empresas do setor automotivo é o famoso custo Brasil: produzir no país é caro, a infraestrutura é deficitária e a burocracia atrapalha muito. São desafios que pesam contra qualquer empresário — até para um empreendedor criativo e ambicioso como Elon Musk.