Kunhardt, da HBO: A máquina Buffett

Letícia Toledo

Narrar a história do investidor Warren Buffett é um desafio e tanto. Não só pela responsabilidade de falar sobre um dos homens mais admirados no mundo dos negócios, mas porque muita gente já contou seus feitos em livros, entrevistas e reportagens. Mas não é do empresário que o documentário “Becoming Warren Buffett” (Tornando-se Warren Buffett, em tradução livre) se propõe a falar. Que ele se tornou o quarto homem mais rico do mundo, com uma fortuna de 74,8 bilhões de dólares, todo mundo já sabe.

Sob a produção de Peter Kunhard, o filme se aproxima do Buffett esposo, pai e amigo, e narra a história de um menino tímido de Nebraska fascinado por números. Em entrevista exclusiva a EXAME Hoje, ele diz acreditar que o fato de não ser uma pessoa do mercado financeiro ajudou a contar o outro lado da história de Buffett. Kunhardt, que já ganhou o prêmio Emmy seis vezes, tem uma fascinação por contar a história de grandes figuras públicas. Entre os seus principais trabalhos estão os documentários“Living With Lincoln”, “Nixon By Nixon: In His Own Words” e “JFK: In His Own Words” – todos sobre presidentes americanos. Uma característica do produtor é sempre deixar os seus personagens conduzirem a história, assim, é Buffett quem narra toda a sua trajetória, amparado pelos familiares e amigos.

Em entrevista exclusiva a EXAME Hoje, Peter Kunhardt conta  O documentário será exibido pela primeira vez no Brasil nesta segunda-feira, no canal HBO, às 22h35.

O senhor já conhecia Buffett pessoalmente? Por que decidiu fazer um documentário sobre ele?

Não, eu não o conhecia. Eu estava intrigado pela figura pública que ele é há tanto tempo e o seu gigantesco sucesso. Eu conhecia o filho dele, o Peter Buffett, e eu perguntei se ele achava que seu pai estaria disposto a dar uma entrevista. Ele disse: “eu não posso responder pelo Buffett, mas, se você escrever uma carta, eu posso deixar na mesa dele”. Então, nós fizemos isso. Uma semana depois recebi a resposta de que o Buffett havia aceitado conversar durante uma hora. Ele era muito cuidadoso com o tempo dele no começo, mas, quando começamos a conversar, ele viu que o projeto levaria mais do que uma hora. Ele abriu seu calendário para nós, nos permitiu voltar várias vezes e nos deu acesso a um grande acervo da família.

O senhor já produziu documentários sobre Richard Nixon, Oprah Winfrey e Abraham Lincoln. Nenhum deles faz parte do mercado financeiro e o senhor também não é uma pessoa muito ligada ao mercado, certo?

Sim, está certo. Eu não sou do ramo financeiro. Mas eu senti que não ser uma pessoa que sabe tanto sobre finanças e negócios, na verdade, me permitiu explorar sua história como eu faria com qualquer um. O que me atraiu foi o fato de eu pessoalmente me identificar com o jeito simples dele de viver e com seus valores tradicionais. Eu gosto do jeito que ele mede o valor de algo e como usa o seu dinheiro. Eu queria saber até que ponto essas qualidades eram genuínas ou se faziam parte de seu personagem público. Conforme fomos conversando, eu percebi que elas eram completamente genuínas. Buffett é competitivo, e todos ouvimos que ele pode ser difícil para fazer negócios, mas eu não vi esse lado porque ele nunca fez negócios comigo. É certamente a pessoa mais inteligente que eu já conheci. A sua mente funciona tão rapidamente que ele respondia a uma pergunta antes que eu a terminasse.

Isso mesmo aos 86 anos?

Como seu filho disse no filme, a mente de Buffett é como um super computador e o hard drive dele não para, ele continua adicionando novas informações e sempre há espaço. Ele trabalha em Omaha [Nebraska], em um espaço quieto, com apenas 25 pessoas. Seu escritório se adapta ao que ele gosta de fazer, que é manter as coisas calmas e ler muitos jornais todos os dias – são seis horas por dia com a porta do escritório fechada lendo jornais, e isso é parte do porquê de ele saber tanto sobre o mundo e sobre o que prestar atenção nos negócios. Enquanto fala com s pessoas no telefone e absorve o mundo ao redor dele conforme vai acontecendo. Ele está muito conectado com os eventos atuais.

Há muitos livros e reportagens contando a história de Buffett. O que o senhor acredita que o documentário traz de novo? Por que ele é diferente?

A parte mais importante que o público não conhece é a história de sua primeira esposa, Susy, que realmente ajudou a moldar a pessoa que ele se tornou. Quando ele era jovem, era um indivíduo fechado, com poucas habilidades sociais. Ele era muito muito bom nos negócios, mas não era bom em se conectar com as pessoas ao seu redor, e Susy era uma pessoa maravilhosa que queria ajudar Buffett a se encaixar. Ela se comprometeu a moldá-lo em uma pessoa melhor e conseguiu – e ele a dá crédito total por isso. Depois que seus filhos cresceram, ela sentiu que precisava viver uma vida separada; Buffett passava tantas horas lendo que estava desconectado de sua família. Ela se mudou para São Francisco e, nos últimos 25 anos de sua vida, eles permaneceram amigos muito próximos. Viajavam juntos, criaram os netos juntos. Um dia ela ligou para uma amiga em Omaha e a pediu para ajudar Buffett com as coisas de casa. Essa mulher acabou se mudando para lá e, muito tempo depois, se tornou sua esposa. Ele tinha essencialmente duas esposas, mas funcionava. E ele não se importava com o que as pessoas achavam.

O senhor acredita que Susy – como ele a chamava –, foi responsável por parte do sucesso dele? Se não a tivesse conhecido, ele seria tão bem sucedido?

No começo de sua carreira, ele era o que chamamos de “value investor”. Comprava pequenas companhias, injetava alguns dólares dentro dela e seguia em frente. Ele conseguia ver, pelos números, quais companhias tinham valor e podiam melhorar. Conforme foi crescendo, ele se viu comprando empresas maiores e melhores, a preços não tão baratos, mas justos. Conforme fazia isso, acabou montando o Berkshire Hathaway [empresa de investimentos]. Mas isso também significou que ele precisava gerenciar pessoas. Sua habilidade em analisar os profissionais com quem queria trabalhar ficou melhor com o passar dos anos. A Susy com certeza faz parte disso.

As pessoas sempre leem livros e artigos sobre Buffett para aprender a investir como ele. O senhor aprendeu alguns de seus conselhos financeiros enquanto fazia o documentário? Algo que o senhor acha que pode usar para sua vida financeira?

Eu disse a ele que eu precisava perguntar o que todos queriam saber, que era como outras pessoas podem alcançar o sucesso que ele alcançou. Ele apenas riu, não tinha uma resposta para isso. Nenhum de nós é Buffett no jeito como a nossa mente funciona, mas a lição que eu tirei dele é que ações são bem fáceis de negociar – por isso as pessoas negociam com uma frequência maior do que deveriam –, e se ele encontra companhias que são boas e nas quais confia, ele as compra para a vida toda. Ao investir tempo suficiente em algumas companhias, não é preciso fazer muitas decisões sobre o seu dinheiro. Basta ter as companhias certas e o tempo estará do seu lado. Ele diz isso para pessoas mais jovens: “apenas invista em um fundo de índice”, porque ele sabe que, a longo prazo, a tendência é de alta. Para mim, bom, eu tenho seis. O conselho que ele me deu é: se você está indo na direção certa, investindo nas companhias certas, menos terá de trabalhar com o passar do tempo para que aquele investimento dê certo. Sua positividade teve grande efeito sobre mim, me deixou mais tranquilo quanto as minhas finanças.