Jack Welch faz autocrítica

O superexecutivo promete contar tudo o que "aprendeu com os erros"

EXAME (25/07/2001) – Vamos começar pela ladainha. Nunca é demais repetir os feitos da prodigiosa carreira de Jack Welch na General Electric, o único empregador na vida deste engenheiro que a revista Fortune proclamou o executivo do século . O filho de um condutor de trem de Boston encarna o modelo de meritocracia americana. Sob o seu comando, em 20 anos a GE se converteu de uma companhia de 13 bilhões de dólares em um conglomerado de 491 bilhões. Os lucros pularam de 1,6 bilhão de dólares em 1981, quando Welch assumiu a GE, para 12,7 bilhões no ano passado. Quem investiu 100 dólares na GE em 1980 e teve paciência terminou o século com 7 000 dólares.

Em outubro do ano passado, Welch teve um sonho: fechar uma transação de 45 bilhões, o seu maior negócio. Ele adiou sua aposentadoria (compulsória aos 65 anos) para o final de 2001 com o intuito de comandar a aquisição do gigante industrial Honeywell. O homem que contribuíra para a integração de 1 700 companhias compradas pela GE disse que não se tratava de ego ou da história de um velho tolo que não conseguia ir para casa, vestir o pijama e viver das lembranças de uma vida gloriosa. Ele ficaria no batente porque tinha um papel a cumprir. Até porque o sucessor designado pela empresa, Jeffrey Immelt, vinha da área médica e não teve nada a ver com o negócio da Honeywell. Sem Welch ficaria bem mais difícil concretizar o sonho.

O sonho acabou em 3 de julho, quando, na véspera da data da independência dos Estados Unidos, a União Européia vetou o casamento de duas empresas americanas a primeira vez que isso acontece , com o argumento de que prejudicaria competidores no setor aeroespacial, pois tanto a GE quanto a Honeywell produzem turbinas. No seu golpe de misericórdia , o superburocrata italiano Mario Monti deixou de lado sua peculiar formalidade e elogiou SuperJack. Disse que fora uma honra negociar com um ícone global . Welch, por sua vez, disse que não tinha nenhum arrependimento e que era duro que, no julgamento da fusão pelos europeus, o promotor fosse o juiz .

SuperJack perdera uma, e das grandes. Seus biógrafos (que não são poucos), admiradores (uma legião) e detratores (sim, existem) tomaram conta de programas de rádio e de televisão para avaliar o impacto do fracasso do negócio com a Honeywell no legado de Welch. O superexecutivo admitiu a derrota e já marcou sua aposentadoria para 7 de setembro.
Calma! Sem obituários apressados. O executivo do século ganhou a parada. O fiasco do negócio da Honeywell é um capítulo amargo, mas, no cômputo geral de sua vida empresarial, a reputação de Jack Welch sai intacta.

SuperJack até recebeu crédito por confirmar que é apenas humano, que também comete erros de avaliação, subestima os obstáculos e sabe recuar quando não dá para vencer.
Falando em livro, a última palavra será escrita pelo próprio Welch. Sem o desafio de integrar a Honeywell ao conglomerado GE, ele poderá trabalhar com mais devoção nas suas memórias. Jack (que outro título poderia ser?) tem lançamento previsto para setembro. Welch faturou um adiantamento de 7,1 milhões de dólares, uma quantia sem precedentes para uma obra de não-ficção. Claro que ele não está de olho no dinheiro, que está sendo doado para grupos filantrópicos. Também não é vontade de ver seu nome nas prateleiras das livrarias. Já há uma dúzia de livros sobre o executivo da GE na praça, alguns escritos com sua colaboração. Mas este promete ser o definitivo.

Welch antecipou que vai contar um montão de histórias e tudo o que aprendeu com os erros . A saga da Honeywell certamente dará material muito valioso para o último capítulo. Não há dúvida de que Welch sonhava com um final mais feliz para a sua obra. Mas ninguém é perfeito. Nem o SuperJack.