Indústria de café busca blend nacional para cápsulas

Com o protecionismo do governo ainda barrando a liberação de café importado para o blend na produção de cápsulas, indústria busca alternativas

Com o protecionismo do governo ainda barrando a liberação de um pequeno volume de café importado para o blend (mistura) com o nacional na produção de cápsulas, a indústria brasileira de café busca alternativas no próprio País para tornar viáveis as fábricas do produto.

As companhias trabalham na substituição de cafés importados por variedades nacionais nas misturas, paralelamente ao trabalho junto ao Ministério da Agricultura para o fim da barreira comercial.

Enquanto isso, cafeicultores questionam a sanidade e sustentabilidade dos países concorrentes para defender o veto à importação de cafés e avaliam que a liberação, mesmo de pouca quantidade, pode abrir precedentes no setor.

Principal empresa produtora de cápsulas, a Nestlé trabalha com o governo para tentar importar ao menos o café da Etiópia, responsável por apenas 4,8% do volume utilizado nos blends de suas marcas de doses únicas. A companhia já teria alternativas, no Brasil, para substituir o café do Quênia, que responde por 0,3% da mistura e até mesmo o colombiano, com 28%. O café brasileiro responde por 65% do volume utilizado nas cápsulas da companhia.

A expectativa é que uma portaria do Ministério da Agricultura liberando o café etíope seja publicada antes de dezembro, quando a empresa deve inaugurar a fábrica de cápsulas, em Montes Claros (MG). No empreendimento foram investidos R$ 180 milhões e ainda há a expectativa de que o aporte total alcance R$ 800 milhões em fases futuras. No início do ano, depois de publicar no Diário Oficial da União a liberação da importação de café do Peru, o Ministério da Agricultura voltou atrás e suspendeu a autorização.

Maior indústria do setor de café no País, a 3Corações, joint venture da companhia brasileira com a israelense Strauss Coffee, aposta em uma cápsula totalmente nacional para ser produzida na fábrica construída pela empresa também em Montes Claros e prevista para ser inaugurada no início de 2017. “A 3Corações tem muito para trabalhar com o blend brasileiro. Primeiro vamos tentar o que temos em casa, já que nossa produção é totalmente voltada para o mercado local”, disse Lauro Araujo Ré, especialista em tecnologia e coordenador geral do projeto cápsula da 3Corações.

Barreira

Em contrapartida, Rogério Salume, presidente do Conselho de Administração da Wine, dona da Mocoffe, pretende transformar Brasil em “plataforma mundial” na produção de cápsulas e defende a importação. “Queremos fazer um blend nacional, mas não podemos esquecer que na outra ponta tem o consumidor. Precisamos acabar com a barreira de que o café importado vai acabar com nossa produção”, disse.

Até mesmo os que ainda avaliam a produção de cápsulas, como o empresário Sydney Marques de Paiva, membro do conselho do Café Bom Dia, criticam o impasse para a liberação da importação de cafés para blends no País. “A indústria nacional está em extrema desvantagem, já que as multinacionais trazem cafés importados nas cápsulas e deixam de agregar valor aqui. Isso é muito mais política do que pensar no setor, pois 100 mil ou 200 mil sacas importadas não iriam atrapalhar”, afirmou Paiva.

Enquanto as empresas trabalham para produzir cápsulas utilizando café de outros países, a receita com importações da commodity já processada e em doses – essas liberadas – aumentou quase 60% entre janeiro e setembro de 2015. O faturamento saiu de US$ 34,44 milhões para R$ 54,57 milhões, no período, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). “Isso preocupa porque o movimento iniciado há um ano de empresas nacionais fabricarem as cápsulas em novas fábricas ficou um pouco desmotivado, porque a importação ocorre com regularidade, em volumes crescentes e com isenção de imposto, afirmou o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Nathan Herszkowicz.

O comércio nesse ramo movimenta cerca de 500 milhões de unidades por ano no País, um produto de alto valor agregado que poderia gerar mais receita aqui. Enquanto o quilo do café verde é de R$ 7,40, o produto em cápsula custa R$ 240, ou mais de 30 vezes.

“Está tudo errado”, criticou Rita de Cássia Milagres Teixeira Vieira, coordenadora geral de Agronegócios, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), e uma das defensoras dentro do governo para a liberação das importações de café para o blend em cápsulas. “Em vez de nos preocupar com a possibilidade de exportar café com grande valor agregado, temos de conviver com a disparada das importações de cápsulas, que geram receita lá fora”, afirmou, durante o Encontro Nacional das Indústrias de Café (Encafé). O evento, realizado em Una (BA), não teve a presença de representantes do Ministério da Agricultura.

A principal entidade exportadora do setor, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CeCafé) é favorável à importação da commodity. “A cadeia brasileira é competitiva e está preparada até mesmo se vier um volume considerável” garantiu Luciana Florêncio, diretora executiva do CeCafé.

Padrão brasileiro de cápsulas

O agrônomo e consultor André Soro defendeu nesta sexta-feira, 13, durante o Encafé, um acordo coletivo entre as companhias do setor para se criar um padrão nacional de cápsulas e máquinas dessas doses únicas de café. Ele lembrou que existem mais de 54 indústrias de cápsulas no mundo, com padrões diferentes, e avaliou que um padrão nacional daria oportunidade para as centenas de pequenas e médias companhias processadoras de café atuarem no setor. “Essas empresas necessitam de políticas específicas para competir e sobreviver”, disse Soro, coordenador da pesquisa sobre reposicionamento da indústria cafeeira encomendada pelo MDIC.

Soro avaliou ainda que o café verde cada vez mais perderá espaço para o produto com valor agregado, desde o torrado e moído até as cápsulas. “Cada vez mais produzimos café e cada vez menos exportamos torrado e moído”, exemplificou o consultor. Ele citou como outro exemplo o fato de o Brasil ser apenas o quarto maior exportador de café torrado e moído para a Argentina, sem tarifas de importação. A Itália exporta um volume dez vezes maior de café que o Brasil para a Argentina.

* O repórter viajou a convite da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic)