Inadimplência na Caixa chegou a 2,77%, pico em 5 anos

Há anos, banco aumentava oferta de crédito e inadimplência se mantinha sob controle; agora, Caixa reduziu novas concessões e inadimplência subiu

Brasília e São Paulo – As provisões para perdas com inadimplência subiram na Caixa Econômica Federal (CEF). O banco divulgou na quinta-feira, 14, seu resultado do segundo trimestre que mostra um crescimento de mais de 76% nestas provisões, que chegaram a R$ 3,9 bilhões. A taxa de inadimplência chegou a 2,77%, o pico dos últimos cinco anos.

Com isso, o lucro do banco cresceu pouco, apenas 2,7% no período, comparado com o segundo trimestre do ano passado.

Há alguns anos, o banco vinha registrando forte crescimento no crédito, chegando a registrar avanço de 45% ao ano. Com a base crescendo neste ritmo, a inadimplência se mantinha sob controle.

A expectativa de especialistas, no entanto, era de que, ao reduzir ritmo de novas concessões, a inadimplência aumentasse. E esse ritmo vem de fato caindo. Até o segundo trimestre, o crédito cresceu 28% da CEF e deve terminar o ano entre 22% e 24%. A carteira total do banco está hoje em torno de R$ 522 bilhões.

Mesmo reduzindo o ritmo dos empréstimos, o crescimento da Caixa é ainda mais que o dobro do que vêm registrando o Banco do Brasil e os grandes bancos privados. Para fazer frente a esta taxa de crescimento do crédito, a Caixa precisa também melhorar seu capital.

Capitalização

Na quinta-feira, 14, o Banco Central autorizou a Caixa a usar R$ 28,7 bilhões de dívidas contraídas com o Tesouro Nacional entre 2007 e 2012 para melhorar a capitalização do banco.

A reclassificação de recursos, que até então não podiam ser incorporados no capital principal do banco, dará uma folga à instituição. Segundo o vice-presidente de Finanças, Marcio Percival, a CEF não precisará de novos aportes do governo até o fim de 2015.

O aval do BC permitiu melhorar o índice que mede a relação entre empréstimos e capital próprio do banco, o chamado Índice de Basileia. O indicador da Caixa caiu três trimestres seguidos e fechou junho em 13,27% – próximo dos 11% exigidos pela legislação. Isso significa que, para cada R$ 100 emprestados, R$ 13,27 são de capital próprio.

Se a queda continuasse, a solidez na concessão do crédito estaria ameaçada. O reforço no capital elevará o Índice de Basileia para 14,5%, segundo Marcio Percival.

Ele calcula que a maior parte desse índice será composto pelo capital principal, que passará de 6,65% para 12,2%. É mais do que o mínimo entre 8,5% e 11% estabelecido pelo BC para a implementação plena de um conjunto de regras prevista para vigorar a partir de 2019.

Esses aportes funcionaram como capitalização, sem que houvesse o custo fiscal de uma injeção direta de recursos para o Tesouro. Isso porque o instrumento usado foi um empréstimo classificado como dívida especial, chamada de instrumento híbrido de capital e dívida. Assim, o dinheiro é incorporado ao patrimônio da Caixa por um certo prazo e eleva o limite para empréstimos.

De acordo com o vice-presidente Marcio Percival, o aumento do Índice de Basileia vai liberar em torno de R$ 35 bilhões ao banco. Consequentemente, a instituição poderá emprestar cerca de R$ 350 bilhões em crédito, segundo ele.

Para a agência de classificação de risco de crédito Fitch Rating, a melhora no capital da Caixa reduz substancialmente a probabilidade de o banco precisar de apoio do controlador, o governo federal, no curto prazo em função de potenciais problemas de qualidade de ativos.

A Fitch, no entanto, acredita que o suporte do governo à Caixa será necessário porque o banco tem “papel crucial” nas políticas, sendo “o principal veículo do governo para conceder crédito à população de baixa renda a taxa preferenciais”.

Marcio Percival afirmou que essa reclassificação de capitais e os recursos de emissões externas são suficientes para fazer frente ao crescimento do crédito no banco, mas em ritmo menos acelerado. Depois de expansão acima de 40% nos últimos anos, a carteira de crédito da Caixa deve crescer, no máximo, 24% em 2014, estimou o vice-presidente.

A desaceleração seria consequência de uma menor demanda de clientes e de limitações do próprio banco, que não teria capital próprio para fazer contrapartida ao ritmo anterior de expansão. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.